PORTO VELHO, RO – As eleições de 2026 produziram uma configuração política de enorme significado para Rondônia. O Partido Liberal, principal expressão do bolsonarismo no estado, conquistou o Governo de Rondônia ainda no primeiro turno, elegeu os dois senadores em disputa, garantiu três representantes na Câmara dos Deputados e assegurou sete cadeiras na Assembleia Legislativa. Somado ao mandato do senador Jaime Bagattoli, conquistado em 2022, o resultado estabelece uma concentração de poder que transforma profundamente o tamanho das responsabilidades assumidas pela legenda.
A vitória de Marcos Rogério para o governo estadual, com 537.370 votos, equivalentes a 56,86% dos votos válidos, constitui o ponto central dessa nova configuração. Não houve necessidade de segundo turno, tampouco uma disputa prolongada para definir o comando do Executivo. A maioria dos eleitores que manifestaram votos válidos escolheu entregar ao candidato do PL a responsabilidade de administrar Rondônia pelos próximos quatro anos.
Essa legitimidade, entretanto, não pode ser confundida com autorização irrestrita para governar. Quanto maior a vitória, maior a expectativa de resultados. O eleitorado que concedeu tamanho respaldo ao futuro governador também criou as condições políticas para cobrar eficiência, planejamento, capacidade administrativa e soluções que ultrapassem o discurso partidário.
No Senado, o resultado foi igualmente contundente. Fernando Máximo conquistou 570.799 votos, correspondentes a 31,97% dos votos nominais para o cargo, enquanto Bruno Scheid recebeu 474.226 votos, ou 26,56%. Ambos foram eleitos pelo PL. Com Jaime Bagattoli, que conquistou seu mandato em 2022, Rondônia passa a contar com três senadores pertencentes à mesma legenda.
Trata-se de uma circunstância politicamente relevante. Os três representantes de Rondônia no Senado compartilham uma identidade partidária, o que amplia a expectativa de articulação em torno de interesses estaduais. A convergência ideológica, naturalmente, não garante concordância absoluta sobre todos os assuntos. Mas torna menos convincente qualquer tentativa de atribuir a falta de iniciativas à ausência de entendimento político entre os integrantes da própria bancada.
Na Câmara dos Deputados, o PL também consolidou uma representação expressiva. Lúcio Mosquini foi reeleito com 158.421 votos, equivalentes a 16,93%. Coronel Chrisóstomo garantiu a reeleição com 51.487 votos, ou 5,50%. Sofia Andrade conquistou uma cadeira com 37.984 votos, correspondentes a 4,06%.
A presença de parlamentares reeleitos acrescenta outra dimensão à cobrança. Quem retorna ao Congresso não começa sua trajetória política do zero. A continuidade do mandato aumenta a responsabilidade de transformar experiência parlamentar em resultados, sobretudo quando existe afinidade partidária com o governador eleito e com os três senadores do estado.
Na Assembleia Legislativa, a força do PL aparece na eleição de Nim Barroso, com 29.662 votos; Delegado Lucas Torres, com 28.231; Jean Mendonça, com 26.107; Luizinho Goebel, com 25.915; Dra. Taíssa Sousa, com 22.249; Alan Queiroz, com 20.836; e Wiveslando Neiva, com 18.610 votos.
São sete deputados estaduais vinculados à legenda que comandará o Executivo. Embora essa representação não signifique, isoladamente, controle absoluto da Assembleia, constitui uma base partidária importante para a formulação de propostas, o debate orçamentário, a fiscalização e a construção de soluções legislativas.
A soma dessas conquistas estabelece uma situação pouco favorável às desculpas políticas. O PL terá o governador, os três senadores, três deputados federais e sete deputados estaduais. A legenda que se apresentou ao eleitorado como alternativa de poder terá de demonstrar que dispõe não apenas de força eleitoral, mas também de competência para administrar, legislar, fiscalizar e defender os interesses de Rondônia.
É justamente nesse ponto que a vitória eleitoral se transforma em obrigação histórica.
A partir de janeiro de 2027, Marcos Rogério terá diante de si um desafio que ultrapassa a execução das promessas de campanha. Será necessário demonstrar que a mudança de comando representa uma mudança efetiva de postura administrativa. E isso começa por uma decisão política fundamental: não transformar os problemas herdados em justificativa permanente para a ausência de resultados.
Quando Marcos Rocha assumiu o governo, em 2019, o discurso sobre um suposto rombo nos cofres estaduais passou a integrar a narrativa sobre as dificuldades encontradas na administração. Independentemente da necessidade de apuração contábil daquela situação, o episódio oferece uma referência para o próximo governador. Marcos Rogério não pode iniciar sua gestão reproduzindo automaticamente a lógica de responsabilizar o antecessor por tudo aquilo que não conseguir realizar.
Isso não significa ignorar eventuais dificuldades financeiras, compromissos administrativos ou problemas efetivamente herdados. Significa reconhecer que o eleitorado escolheu um novo governador para enfrentar essas dificuldades, e não simplesmente para ouvi-las novamente.
Se houver problemas nas contas públicas, deverão ser demonstrados com documentos, números e transparência. Se existirem limitações administrativas, deverão ser apresentadas juntamente com os caminhos para superá-las. O diagnóstico da herança recebida pode ser necessário, mas não substitui um programa de governo.
Marcos Rogério precisa começar governando. Precisa apresentar prioridades, estabelecer metas, reunir sua equipe e utilizar o respaldo eleitoral para enfrentar os problemas estruturais de Rondônia. A população não pode ser obrigada a assistir, mais uma vez, à transformação da administração pública em uma disputa interminável sobre quem errou no passado.
A responsabilidade também alcança os parlamentares. Os deputados estaduais não poderão reduzir sua atuação à sustentação política do governador. Os deputados federais e senadores não poderão limitar seus mandatos à defesa de posições ideológicas. A convergência partidária terá de produzir articulação, fiscalização e iniciativas concretas.
O significado político das eleições de 2026, contudo, ultrapassa as fronteiras de Rondônia.
No cenário nacional, Flávio Bolsonaro aparece à frente de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno, inclusive com vantagem expressiva em Rondônia. A eventual vitória do candidato bolsonarista no segundo turno ainda não está definida, mas sua posição na disputa reforça a percepção de que o movimento político associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro conserva capacidade de mobilização eleitoral.
A comparação com 2022 merece atenção. Naquela eleição, Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno e retornou à Presidência da República. A insatisfação de parte do eleitorado com o governo Bolsonaro integrou o ambiente político daquela disputa, embora não seja possível atribuir o resultado exclusivamente a esse fator.
Quatro anos depois, surge a possibilidade de uma inversão de expectativas. O grupo político derrotado na eleição presidencial anterior volta a disputar o comando do país em posição competitiva, enquanto o governo eleito em 2022 enfrenta novamente o julgamento das urnas.
Essa alternância possível contém uma advertência que não deveria ser ignorada por nenhum dos lados. A vitória eleitoral não representa uma aprovação permanente, assim como a derrota não significa desaparecimento político. O eleitor pode conceder uma oportunidade e, na eleição seguinte, retirar o apoio quando suas expectativas não são atendidas.
A eventual vitória de Flávio Bolsonaro não deve ser tratada como fato consumado. O segundo turno ainda precisa ocorrer. Tampouco seria rigoroso afirmar, sem investigação específica, que todos os votos recebidos pelo candidato representam adesão integral ao bolsonarismo. Há diferenças entre identificação ideológica, preferência partidária e rejeição ao adversário.
Mas a força demonstrada pelo PL em Rondônia permite uma conclusão política consistente: o partido recebeu uma oportunidade extraordinária de demonstrar que seu projeto pode ultrapassar o terreno eleitoral e produzir resultados administrativos.
Caso Flávio Bolsonaro também conquiste a Presidência da República, a expectativa de articulação entre os representantes rondonienses e o governo federal será ainda maior. Se o resultado nacional for diferente, a responsabilidade permanecerá. O compromisso dos eleitos é com Rondônia, independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto.
É nesse contexto que os grandes gargalos estaduais precisam deixar de ser assuntos recorrentes de campanha e passar a ocupar o centro das decisões políticas.
A situação aeroportuária é um desses desafios. Rondônia convive com uma percepção persistente de isolamento e insuficiência de alternativas de transporte aéreo. Para a população, a discussão não pode permanecer restrita a promessas de melhoria. O governador, os senadores e os deputados federais terão de demonstrar quais iniciativas podem desenvolver, quais articulações estão ao seu alcance e quais resultados concretos pretendem alcançar.
A conectividade aérea não deve ser tratada como favor político. Precisa integrar uma agenda permanente de desenvolvimento, mobilidade e integração do estado. A bancada federal terá de explicar o que efetivamente pode fazer, quais obstáculos identifica e como pretende enfrentá-los.
Outro problema que exige respostas é o pedágio na BR-364. A cobrança, apontada como uma das mais caras do país, representa uma preocupação que não pode ser ignorada pelos novos representantes. A necessidade de fiscalização e esclarecimento já constitui uma responsabilidade política evidente.
A população precisa saber se existem possibilidades de revisão, quais são os limites dos contratos e que providências os representantes eleitos pretendem adotar. Não basta denunciar valores durante campanhas ou manifestações públicas. Será necessário demonstrar, com fundamentos técnicos e jurídicos, se há espaço para mudanças e como elas poderiam ocorrer.
A questão energética apresenta outra contradição que precisa ser enfrentada. Rondônia exporta energia elétrica e, ao mesmo tempo, convive com reclamações sobre tarifas elevadas. O problema colocado à representação política é objetivo: como buscar condições mais favoráveis para os consumidores rondonienses?
A existência de produção energética no território estadual não significa, automaticamente, que as tarifas possam ser reduzidas por decisão do governador ou da bancada. Justamente por isso, os eleitos terão de abandonar explicações simplificadas e apresentar propostas compatíveis com as competências de cada esfera de poder.
O eleitor precisa conhecer as possibilidades reais de intervenção, as limitações existentes e as medidas que podem ser defendidas no âmbito estadual e federal. A ausência de solução imediata não autoriza a ausência de iniciativa.
A CAERD constitui outro ponto sensível. O futuro governador precisará esclarecer sua posição sobre a privatização da companhia e apresentar os fundamentos de qualquer decisão relacionada ao futuro do serviço. Manter a estrutura atual, promover mudanças administrativas ou defender a transferência de sua operação são caminhos que exigem justificativas, transparência e compromisso com a população.
O debate não pode ser reduzido à defesa automática da privatização nem à sua rejeição exclusivamente ideológica. A questão central é saber qual modelo poderá atender melhor aos interesses públicos e quais compromissos concretos serão assumidos para assegurar a qualidade dos serviços.
Esses desafios revelam uma distinção fundamental entre conquistar poder e exercê-lo. A campanha eleitoral permite reunir diferentes problemas sob uma mesma promessa de mudança. A administração pública exige identificar responsabilidades, calcular possibilidades, definir prioridades e produzir resultados verificáveis.
A hegemonia partidária também não elimina os limites institucionais. Governador, deputados estaduais, deputados federais e senadores exercem funções distintas. Nem todos os problemas dependem exclusivamente deles, e seria incorreto exigir que um único agente resolva questões que envolvem outras instâncias de decisão.
Entretanto, essa distinção não pode funcionar como pretexto para a inércia. Quando não houver competência direta para decidir, deverá existir disposição para negociar, fiscalizar, propor alternativas e prestar contas à sociedade. A representação política não se esgota na assinatura de leis ou na ocupação de cargos.
O PL terá de demonstrar capacidade de transformar afinidade política em cooperação institucional. E essa cooperação deverá ser medida menos pela frequência dos encontros entre seus integrantes e mais pela qualidade dos resultados apresentados à população.
Também será necessário reconhecer que a unidade partidária não dispensa a fiscalização. Os deputados estaduais não podem abrir mão de examinar criticamente os atos do governador apenas porque pertencem à mesma legenda. Da mesma maneira, a bancada federal não poderá substituir a defesa dos interesses de Rondônia pela defesa incondicional de lideranças nacionais.
A lealdade política encontra seu limite na responsabilidade pública. O mandato pertence ao representante eleito, mas sua finalidade é servir à sociedade, inclusive à parcela do eleitorado que votou em outros candidatos.
Por isso, o resultado de 2026 precisa ser compreendido como o início de uma cobrança, não como o encerramento de uma disputa. A expressiva votação obtida pelo PL confere legitimidade aos seus representantes, mas também retira força de argumentos baseados na falta de respaldo popular ou na dificuldade de articulação dentro da própria legenda.
O governador Marcos Rogério terá a oportunidade de apresentar um estilo de administração que não dependa da transferência permanente de responsabilidades. Fernando Máximo, Bruno Scheid e Jaime Bagattoli terão a missão de demonstrar a utilidade política de uma representação inteiramente formada por senadores do mesmo partido. Lúcio Mosquini, Coronel Chrisóstomo e Sofia Andrade precisarão converter sua presença na Câmara dos Deputados em iniciativas relevantes para Rondônia. Os sete deputados estaduais do PL terão de exercer suas atribuições com independência, responsabilidade e compromisso com os resultados.
Nenhum deles está autorizado a prometer aquilo que não pode cumprir. Mas todos têm a obrigação de explicar o que pretendem fazer, quais instrumentos possuem e como serão avaliados ao longo dos mandatos.
O eleitorado não exige infalibilidade. Governos e legislaturas podem cometer erros, enfrentar obstáculos e precisar rever decisões. O que não se pode admitir é a utilização dessas dificuldades como justificativa para a paralisia, a improvisação permanente ou a repetição de promessas sem consequência prática.
Essa é a verdadeira dimensão da expressão de que o PL não pode errar. Não se trata da expectativa impossível de uma administração sem falhas, mas da exigência legítima de que uma força política tão amplamente respaldada não desperdice a oportunidade recebida.
A vitória de 2026 entregou ao Partido Liberal uma combinação de responsabilidades que dificilmente poderá ser explicada apenas pelas circunstâncias externas. O partido terá de provar que sua hegemonia não se limita à capacidade de conquistar votos, ocupar espaços e reunir lideranças sob uma mesma identidade política.
Rondônia precisa descobrir se essa concentração de poder será capaz de produzir respostas para problemas que atravessam diferentes administrações e continuam presentes na vida da população.
Marcos Rogério não poderá governar olhando permanentemente pelo retrovisor. A bancada federal não poderá passar os próximos anos apenas identificando culpados. Os deputados estaduais não poderão confundir alinhamento partidário com ausência de cobrança.
A partir de 2027, o desempenho de cada um terá de ser avaliado pela capacidade de enfrentar os problemas que justificaram sua eleição.
O PL venceu. Venceu de maneira expressiva, ocupou posições estratégicas e recebeu uma oportunidade política de grandes proporções.
Agora, terá de entregar resultados.
Porque, diante de tamanha concentração de poder, o discurso da falta de condições perde força. A responsabilidade cresce na mesma proporção da vitória.
E, para o PL de Rondônia, a maior derrota possível depois de 2026 será demonstrar que, mesmo com tantos representantes eleitos, os problemas permaneceram intocados e as desculpas continuaram as mesmas.


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