PORTO VELHO, RO – Oito anos depois do episódio judicial que atingiu sua carreira política em 2018, Acir Gurgacz retorna a uma disputa majoritária em Rondônia apresentando sua candidatura ao Senado como a continuidade de uma trajetória interrompida. No RD Entrevista, conduzido pelo jornalista Vinícius Canova nos estúdios do Rondônia Dinâmica e em parceria com o Informa Rondônia, o ex-senador disse que a batalha travada nos tribunais ultrapassou a possibilidade de voltar às urnas e atingiu diretamente sua história pessoal. “É importante tirar isso da minha biografia. Uma condenação injusta”, afirmou.
Gurgacz declarou que o processo ocorrido quando concorria ao Governo de Rondônia foi “muito doloroso” e sustentou que não praticou irregularidades em sua vida privada nem pública. Também apresentou sua própria leitura sobre o impacto daquele episódio na eleição de 2018. “Se não fosse aquela interferência do Judiciário, nós estaríamos hoje no governo, entregando o governo este ano”, disse ao recordar a candidatura.
Para Acir, a discussão sobre as decisões recentes não se limita à capacidade de concorrer em 2026. Ele falou sobre como gostaria que o caso fosse visto por seus descendentes e afirmou que a retirada da condenação de sua biografia seria uma espécie de reparação histórica. Mais adiante, quando questionado sobre eventual exploração do assunto pelos adversários, voltou a defender sua interpretação sobre o que ocorreu no Judiciário.
“Não me incomoda, até porque foi cancelada essa acusação. Exatamente isso que foi cancelado. Não foi a elegibilidade que voltou, o que foi é o cancelamento desse processo”, afirmou. Acir disse esperar que rivais possam tentar usar o episódio na campanha, mas reiterou considerar pública sua inocência e voltou a dizer que houve injustiça.
O tempo perdido fora da pré-campanha foi reconhecido. Gurgacz admitiu que adversários começaram a se movimentar antes dele, mas argumentou que o início do período eleitoral recoloca os concorrentes em condições de disputar. Utilizou uma comparação com uma prorrogação no futebol e declarou que “não existe eleição fácil, não existe eleição ganha e também não existe eleição perdida”.
Para ilustrar a situação anterior, descreveu sua pré-campanha como um veículo em que o rodado dianteiro tentava avançar enquanto o traseiro permanecia com o freio de mão puxado. Com a mudança de situação que atribui às decisões judiciais, afirmou estar “livre, leve e solto” para seguir o caminho eleitoral.
A reorganização das alianças passou pela frustrada Caminhada Esperança. Questionado por Canova se a mobilização havia perdido força, Acir respondeu que o projeto “ficou pelo caminho” e depois acrescentou: “Foi interrompida”. Segundo ele, a ruptura decorreu de uma questão partidária que não encontrou concordância do PDT, embora tenha ressaltado que decisões de outras legendas precisam ser respeitadas.
Ao detalhar a divergência, Gurgacz apontou a candidatura apresentada pelo PT. Disse que a forma escolhida não contemplou o diálogo e a conversa que, segundo ele, vinham sendo defendidos durante aproximadamente um ano pelos integrantes da articulação. A ideia inicial, conforme relatou, era deixar a definição das candidaturas para um momento posterior e construí-la coletivamente.
Apesar da crítica, sustentou uma postura de respeito. “Cada partido tem a sua posição, e o bom da democracia é exatamente isso. Cada um pode escolher o que quer, pode escolher o seu candidato, pode escolher o seu caminho, o seu discurso, a sua proposta, e os outros têm que aceitar. Podem não concordar, mas têm que aceitar a opinião do outro”, declarou.
A partir dessa fragmentação, o candidato disse trabalhar numa composição envolvendo PDT, MDB e PSB. A relação mais antiga é com Confúcio Moura. Acir afirmou que ambos estão politicamente aliados desde 2010 e que a parceria se manteve por aproximadamente 16 anos. Segundo ele, chegou a defender que os dois concorressem juntos às vagas do Senado, um pedindo votos para o outro.
Gurgacz atribuiu a desistência de Confúcio a razões pessoais e familiares, afirmando que o ex-governador entendeu que precisava ficar mais próximo da esposa. Depois da decisão, segundo Acir, Confúcio pediu que ele procurasse o MDB e manifestou apoio à sua candidatura. O candidato disse que buscava também o ingresso do PSB nessa composição.
A indefinição não se restringia às alianças estaduais. Perguntado sobre quem apoiaria para a Presidência da República, Acir evitou antecipar um nome. Disse que continuaria acompanhando e debatendo a disputa e que esperava observar qual candidato estaria apto a representar o Brasil.
Essa ausência de alinhamento presidencial fechado combina com a forma como Gurgacz definiu sua identidade política durante o programa. Diante de uma pergunta que recuperou a tradição de centro-esquerda do PDT e citou a polarização entre Lula e Bolsonaro, respondeu: “Eu, nessa questão de direita e esquerda, sou pra frente”.
Acir afirmou que não pretende disputar espaço da esquerda nem da direita e recordou ter sido senador durante os governos Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Segundo ele, manteve relacionamento respeitoso com todos e evitou levar uma posição ideológica fixa para as decisões do mandato. “Aquilo que é bom para Rondônia está resolvido; o que é bom para o país está resolvido também, independentemente de quem seja”, declarou.
Ao defender apoio a propostas mesmo quando apresentadas por adversários, acrescentou: “Se é para o bem do país, se é para o bem do meu estado, eu estou dentro”. Gurgacz afirmou pedir apoio a todos os lados e disse não aderir à “pilha de direita e esquerda”.
Para ele, a eleição de 2026 tende a ser decidida mais pela credibilidade do candidato do que pela força da legenda. Acir recordou uma época em que os partidos tinham identidades ideológicas mais fortes e avaliou que essas características foram se diluindo. Reconheceu que PDT e MDB ainda preservam elementos programáticos próprios, mas declarou que a disputa atual deverá ser “pautada pela credibilidade dos candidatos”.
A entrevista colocou esse discurso diante de uma corrida ao Senado formada por diferentes perfis. Durante a pergunta, Vinícius Canova mencionou concorrentes mais ligados a discursos ideológicos e outros com abordagem menos polarizada. Acir preferiu responder apresentando o que considera suas credenciais e as propostas que pretende retomar em Brasília.
A primeira é a BR-364. Gurgacz afirmou ser antiga sua defesa da duplicação e atacou o modelo de cobrança implantado sem que a rodovia estivesse duplicada. “Nós não aceitamos cobrança de pedágio sem a duplicação da BR-364”, declarou. Segundo ele, caso estivesse no Senado durante a definição, o modelo aprovado não seria o mesmo.
A proposta apresentada prevê reduzir a tarifa e usar orçamento da União e emendas parlamentares para fazer a duplicação avançar em quatro ou cinco anos, prazo estimado pelo próprio candidato. Acir relacionou a intervenção pública na rodovia a uma tentativa de diminuir ainda mais o custo pago pelos usuários.
Outra frente é uma nova revisão do Código Florestal. Gurgacz reconheceu avanços produzidos pela reforma anterior, mas disse enxergar problemas e “amarras” que ainda restringem produtores. Defendeu menor carga de fiscalização e maior tranquilidade para produzir e comercializar. “Eu vou fazer porque eu já fiz”, afirmou ao sustentar que sua atuação anterior no tema funciona como credencial para uma nova etapa.
Acir também apontou preocupação com a reforma tributária. Disse que a implementação prevista a partir de 2027 pode produzir efeitos severos para Rondônia, seus municípios, empresários e indústrias e afirmou que o Senado deverá acompanhar o processo para corrigir o que não funcionar adequadamente para o estado.
Na BR-319, o candidato reivindicou participação em ações anteriores para reabrir a estrada e garantir manutenção. Segundo ele, trabalhos realizados quando estava à frente das comissões de Agricultura e de Infraestrutura ajudaram a criar condições para um contrato de manutenção permanente. Gurgacz afirmou que, em 2026, mesmo durante as chuvas, o trânsito entre Porto Velho e Manaus não chegou a ser paralisado.
Agora, disse buscar o reasfaltamento completo. Acir relacionou a estrada principalmente ao mercado consumidor de Manaus e afirmou que produtores de Porto Velho, Ariquemes, Itapuã, Candeias, Nova Mamoré e outras regiões poderiam abastecer a capital amazonense com hortifrutigranjeiros. Argumentou que o transporte rodoviário reduziria drasticamente o tempo atualmente gasto em deslocamentos por balsa.
O debate sobre projetos ocorreu depois de uma longa revisão de sua passagem pelo Senado. Perguntado sobre a principal contribuição dos quase 14 anos de mandato, Gurgacz escolheu a reforma do Código Florestal. Sua interpretação é de que agricultores que chegaram a Rondônia e desmataram de acordo com as regras então vigentes passaram posteriormente a ser considerados irregulares com as mudanças legais.
Acir afirmou que a revisão do código permitiu reconhecer a legislação da época dos desmatamentos, cancelar multas que considerava ilegais e levar grande parte dos produtores de volta à legalidade. Segundo ele, essa segurança jurídica permitiu acesso a programas de governo, financiamento e novos investimentos na produção rural.
Além dessa atuação, afirmou ter levado mais de R$ 1,5 bilhão em recursos para Rondônia ao longo do período no Senado e estimou o montante em aproximadamente R$ 5 bilhões quando corrigido. Disse que os valores alcançaram municípios por diferentes caminhos, incluindo órgãos federais e governo estadual.
Gurgacz destacou ainda oito anos de atuação na direção da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, tendo sido duas vezes presidente e duas vezes vice-presidente. Disse que utilizou o espaço para defender produtores pequenos, médios e grandes e voltou a enfatizar a importância da agricultura familiar.
A forma de construir o mandato, segundo Acir, dependia de associações e representantes locais. Ele citou prefeitos, vereadores, CDL, associações comerciais, associações rurais e sindicatos e argumentou que um senador em Brasília não tem como conhecer sozinho necessidades específicas de agricultores ou comerciantes espalhados pelos municípios.
Antes de chegar ao Senado, sua trajetória passou pela Prefeitura de Ji-Paraná. Acir contou que o pai chegou a Rondônia em 1972 e viu no estado um espaço para expansão do trabalho da família. Ele conheceu Rondônia em 1976, quando tinha 14 anos, e mudou-se definitivamente em 1982. Depois, retornou para buscar a namorada, casou-se e trouxe a esposa para o estado.
A política, segundo ele, surgiu sem planejamento. Gurgacz afirmou que Ji-Paraná enfrentava problemas de gestão e que setores da sociedade organizada criaram o movimento “Acorda Ji-Paraná”. CDL, Associação Comercial e Associação Rural estavam entre as entidades citadas. O grupo começou a discutir candidaturas e Acir acabou lançado à Prefeitura mesmo sem experiência política anterior.
O candidato relatou que enfrentou questionamentos judiciais e permaneceu impedido de participar da eleição até três dias antes do pleito, quando recebeu autorização. Depois, venceu a disputa. Durante a conversa, foi mencionado resultado superior a 70% dos votos.
Ao lembrar da administração, Acir afirmou que cinco das sete secretarias municipais eram comandadas por mulheres. Também relatou a criação de um conselho com representantes da Igreja Católica, Assembleia de Deus, CDL, Associação Comercial, Associação Rural e outros segmentos para acompanhar a gestão.
A experiência pública alterou, segundo Gurgacz, sua percepção sobre a própria atividade empresarial. Ele classificou política e empresa como universos muito diferentes e disse recomendar que empresários conheçam a gestão pública para entender burocracias e limitações enfrentadas pelo Estado.
“Eu conheci a sociedade verdadeira quando eu saí da empresa e fui fazer campanha política”, declarou. Acir disse que visitar bairros e conversar diretamente com moradores mudou sua visão sobre municípios e sobre Rondônia. Defendeu que empresários participem da vida partidária e política mesmo sem concorrer a cargos, levando opiniões e propostas aos governos em vez de apenas apontar problemas.
Na fase imediatamente anterior à campanha oficial, Gurgacz disse que seu principal compromisso seria percorrer Rondônia. Afirmou que, até 16 de agosto, continuaria impedido de pedir votos ou realizar propaganda eleitoral e informou que o lançamento oficial da candidatura estava marcado para a mesma data, em Ji-Paraná.
O candidato afirmou estar satisfeito com a reação recebida desde o retorno ao cenário eleitoral e disse que pessoas passaram a procurá-lo oferecendo apoio. Para ele, essas manifestações representam confiança na continuidade do trabalho que afirma ter realizado durante os anos no Congresso.
Na apresentação final, Acir disse ter 64 anos, ser natural de Cascavel, empresário e empreendedor e viver definitivamente em Rondônia desde 1982. Recordou a passagem pela Prefeitura e os quase 14 anos no Senado e disse pretender continuar distribuindo recursos aos 52 municípios sem selecionar cidades por critérios políticos.
Nesse trecho, acrescentou uma declaração sobre a forma como entende que recursos públicos devem ser destinados. Disse querer fazê-lo “sem desvio de verba”, “sem retorno daquilo que você manda” e “sem indicação de empresa para executar obra”, práticas que, segundo ele, representam um desfavor à sociedade brasileira.
Acir encerrou o programa apontando a industrialização como objetivo central. A proposta é processar em Rondônia parte maior daquilo que já é produzido no campo e construir um projeto estadual articulado com o Governo Federal. Gurgacz disse querer fazer essa aproximação independentemente de quem seja eleito governador ou presidente da República.
“Nós precisamos industrializar o estado de Rondônia. Precisamos industrializar aqui o que produzimos no campo. Esta é a nossa vocação”, declarou.
O RD Entrevista é apresentado por Vinícius Canova e realizado nos estúdios do Rondônia Dinâmica, em parceria com o Informa Rondônia.


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