A trajetória de Kika Marder está longe de seguir um roteiro tradicional. Antes de se tornar uma das criadoras de conteúdo mais reconhecidas do universo gastronômico, ela percorreu caminhos distintos, enfrentou mudanças radicais de carreira, administrou negócios próprios e precisou recomeçar mais de uma vez.
Hoje, com uma comunidade de mais de 200 mil seguidores nas redes sociais, dez títulos do Prêmio Bom Gourmet como Chef 5 Estrelas e parcerias duradouras com grandes marcas, ela atribui boa parte do sucesso à autenticidade e à coragem de seguir a própria intuição.
A relação com a cozinha começou ainda na infância.
Kika cresceu ajudando a avó e desenvolveu cedo uma conexão afetiva com a gastronomia. Apesar disso, seguiu inicialmente por outro caminho profissional e construiu uma carreira na publicidade.
“Eu nem comecei querendo empreender. Eu comecei querendo cozinhar”, relembra.
Mesmo com uma trajetória considerada promissora na comunicação, ela sentia que aquele não era o destino que desejava construir.
A vontade de fazer algo ligado à gastronomia falou mais alto e a levou a tomar uma decisão que mudaria sua vida.
Determinada a se preparar da melhor forma possível, estudou na França, passando por Lyon e Paris, onde aprofundou seus conhecimentos culinários.
Quando retornou ao Brasil, fundou o restaurante Le Sel et Sucre, em 2008.
O empreendimento marcou o início oficial de sua jornada empresarial.
Para Kika, o empreendedorismo nunca foi um objetivo em si, mas uma consequência natural da decisão de apostar em seus sonhos.
“O empreendedorismo para mim sempre foi consequência de apostar em mim mesma, mesmo quando dava medo”, afirma.
Ao longo dos anos, porém, ela descobriu que a gastronomia profissional está longe do glamour muitas vezes retratado pelo público. Gestão de equipe, rotina intensa, margens apertadas e desafios operacionais fazem parte da realidade diária do setor.
Depois do fechamento do restaurante, Kika abriu um empório. Mas, paralelamente, algo novo começava a ganhar espaço em sua rotina: a produção de conteúdo digital.
A pandemia acabou acelerando uma transformação que já vinha acontecendo.
Com o restaurante fechado, ela passou a gravar vídeos em casa, utilizando apenas o próprio celular.
O conteúdo era simples, sem grandes produções, mas carregava algo que o público rapidamente identificou como verdadeiro.
O crescimento aconteceu de forma orgânica. Quanto mais compartilhava sua rotina, suas receitas e sua forma de enxergar a gastronomia, mais pessoas se conectavam com seu trabalho.
Foi então que ela tomou outra decisão importante: fechar o empório e dedicar-se integralmente ao universo digital.
“A pandemia me jogou de volta para a cozinha da minha casa, com os meus filhos do lado e foi exatamente ali, no meio do caos, que eu reencontrei o motivo de ter começado tudo.”
Segundo ela, o que parecia um momento difícil acabou se tornando o início da fase mais leve e feliz de sua trajetória profissional.
Hoje, Kika define seu trabalho como uma ponte entre a gastronomia e a vida real.
Seu objetivo é mostrar que cozinhar não precisa ser algo distante, complicado ou reservado apenas a especialistas.
“Eu quero tirar a gastronomia do pedestal e colocar na mesa de casa.”
Além das receitas, ela compartilha conteúdos sobre mesa posta, receber bem, rotina doméstica e hábitos relacionados à alimentação.
Também realiza trabalhos com marcas que, segundo ela, tenham conexão genuína com seus valores.
A autenticidade é justamente o princípio que ela considera mais importante para construir uma carreira sólida.
“Quanto mais eu era fiel a mim mesma, mais o conteúdo conectava com as pessoas.”
Para ela, consistência também faz toda a diferença.
Não basta criar algo bom uma única vez. É preciso manter a qualidade ao longo do tempo. Outro aprendizado veio da própria cozinha: a atenção aos detalhes.
“Na panela você não engana ninguém. Ou está bom ou não está.”
Ao analisar o mercado atual, Kika acredita que os brasileiros estão cada vez mais interessados em alimentação de qualidade e mais dispostos a cozinhar em casa.
Ela vê uma mudança clara no comportamento do público, que busca conhecimento, produtos melhores e conteúdo produzido por quem realmente entende do assunto.
“O público amadureceu. Hoje ele valoriza quem tem repertório de verdade e não apenas quem aparece bonito.”
Entre as conquistas que mais a marcaram, ela cita as dez premiações como Chef 5 Estrelas no Prêmio Bom Gourmet, mas destaca especialmente o reconhecimento construído ao longo dos anos.
Ter ultrapassado a marca de 200 mil seguidores no Instagram foi importante, mas as parcerias de longo prazo ocupam um lugar especial em sua trajetória.
Um exemplo é a relação com a marca Paganini, da qual é embaixadora há quatro anos consecutivos.
“Parceria que dura é sinal de que a relação é honesta dos dois lados.”
Apesar da exposição pública, Kika procura preservar a família. Ela compartilha apenas pequenas partes da vida pessoal e mantém os filhos longe dos holofotes sempre que possível.
“Essa vida de exposição foi uma escolha minha, não deles.”
Para quem deseja empreender ou construir uma carreira de destaque, ela aconselha estudar profundamente o ofício antes de buscar reconhecimento.
“Aprenda o ofício antes de pensar em aparecer.”
Ela também alerta sobre o risco de copiar tendências e perder a própria identidade. Na sua visão, as pessoas se conectam com aquilo que é genuíno.
“Paixão é o que te faz começar, mas é a seriedade que te faz continuar.”
O futuro, segundo Kika, passa por continuar crescendo como criadora de conteúdo, aprofundar parcerias com marcas alinhadas aos seus valores e ampliar o trabalho de ensino que vem desenvolvendo nos últimos anos.
Existe ainda um sonho que permanece vivo.
“Eu adoraria levar tudo isso para a televisão.”
Mas, independentemente do formato, ela garante que o objetivo continua exatamente o mesmo de quando começou.
Fazer as pessoas se apaixonarem por cozinhar, reunir quem amam ao redor da mesa e transformar a gastronomia em algo acessível, afetivo e presente no dia a dia.



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