PORTO VELHO, RO - Foi uma manhã longa e morna, daquelas que começam com cadeiras sendo trazidas às pressas para a mesa e terminam com um cerimonialista pedindo silêncio pela enésima vez. No auditório da subseção da Ordem dos Advogados do Brasil em Cacoal, dentro da terceira marcha dos vereadores de Rondônia, organizada pela Abracam em parceria com a OAB e a Câmara Municipal, sete homens que pretendem governar o estado se sentaram, um a um, diante de vereadores dos 52 municípios, prefeitos, deputados, um senador, um juiz de direito representando o Tribunal de Justiça e uma transmissão simultânea para mais de dez emissoras de rádio e televisão. Era a primeira vez, segundo o presidente da seccional, Miguel Barros, que os sete ocupavam o mesmo ambiente. O presidente da Abracam, Rogério Rodrigues, anunciou-os pelo nome: Expedito Netto (PT), Hildon Chaves (União Brasil), Luiz Carlos Teodoro (PSOL), Marcos Rogério (PL), Adailton Fúria (PSD), Pedro Abib (MDB) e Samuel Costa (PSB). Cada um teve trinta minutos, nem mais nem menos, conforme leu o regulamento que proibia ataques pessoais, expressões ofensivas e debate direto entre os participantes. O evento, repetiu-se à exaustão, não era um debate. Era uma apresentação. E como apresentação, revelou mais sobre o temperamento de cada um do que talvez qualquer um deles pretendesse.
Coube ao médico veterinário e advogado Pedro Abib, do MDB, abrir a manhã, embora estivesse escalado para a tarde — ele próprio comentou, com algum humor, que não poderia competir com a abertura da Copa do Mundo, marcada para o mesmo dia. Filiado, segundo disse, apenas em abril deste ano, Abib construiu a fala mais conceitual do encontro. Discorreu sobre Jules Rimet, fundador da FIFA, sobre a encíclica Rerum Novarum, de 1891, e o Papa Leão XIII, sobre a "colonialidade do poder" de um autor peruano que não nomeou, e amarrou tudo a uma tese: Rondônia tem um PIB que situou em 83,1 bilhões de reais, mas exporta matéria-prima barata e importa produto beneficiado caro. Defendeu a industrialização da soja, a recuperação da bovinocultura de leite, a assistência técnica rural e a verticalização da bioeconomia, lembrando que a castanha extraída em Nova Mamoré e Guajará é levada para agroindústrias na Bolívia. Voltava sempre à mesma palavra — seriedade — e a usava como contraponto ao que chamava de demagogia, achismo, hipocrisia e "frasezinhas prontas". Foi explícito ao recusar um certo tipo de promessa: "Não adianta vir alguém fazer demagogia aqui e dizer que vai fazer fundos rios e mundos, que vai construir tantos hospitais, tantas unidades de saúde, tantas escolas", disse, lembrando que o estado dispõe de menos de 5% do orçamento para investimento. Encerrou com uma definição de si por negação: "Eu não tenho grupo, eu não tenho família, eu tenho propósito para a Rondônia." A apresentação foi densa, ainda que o excesso de digressões eruditas, por vezes, disputasse espaço com a clareza das propostas.
O contraste veio com Luiz Teodoro, do PSOL, que fez da própria trajetória o argumento central. Engraxate na infância, negro, filho de família humilde, advogado e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB por três anos, Teodoro construiu a fala sobre a ideia de um "governo humano". Em vez de propostas alinhadas, narrou casos. O do jornalista preso, com diagnóstico de câncer, a quem sua comissão ajudou a obter prisão domiciliar com aval da Procuradoria-Geral da República e decisão do ministro Alexandre de Moraes. O das 120 famílias ameaçadas de despejo na estrada da Coca-Cola, em Porto Velho, cuja reintegração de posse foi suspensa. Não poupou os poderes: disse ter enfrentado "o ministro Alexandre de Moraes com violação de direitos humanos aqui em Rondônia" e "o governo do Estado", e descreveu a rotina do paciente que ganha na primeira instância, vê o estado recorrer e morre na fila antes de a cirurgia sair. "Saúde não é favor, saúde é um direito e é um dever do Estado", afirmou. Sobre segurança, denunciou a "atividade delegada" criada pela Prefeitura de Porto Velho, que faria estado e município disputarem o mesmo policial sobrecarregado, e propôs usar a compensação financeira que o estado recebe pela produção de energia para subsidiar a conta de luz das famílias do Cadastro Único. Foi uma apresentação sincera, ancorada na vivência, que com frequência se alongou nos relatos jurídicos a ponto de sacrificar a formulação do que pretende fazer.
Expedito Netto, do PT, foi o terceiro, e o mais nacional dos discursos. Dedicou boa parte do tempo a defender o presidente Lula e desafiou os vereadores a refletirem sobre o voto da bancada federal em pautas como a escala 6x1. "Eu não tô aqui pra representar direita ou esquerda, eu não tô aqui pra pregar ódio", disse, num discurso que, ainda assim, dedicou mais energia à disputa nacional do que à agenda estadual. Chamou a representação recente de Rondônia de "a pior bancada da história" e classificou o embate entre Bolsonaro e Lula como "um teatro". Provocou adversários sem precisar nomeá-los ao perguntar quem teria trazido o presidente da ANTT para entregar obras no estado, sugerindo que cargos federais ocupados pela oposição desmentem o discurso de impotência, e ao apontar "empresas de deputados" trabalhando na BR-364. Defendeu o sistema público de saúde contra a privatização com uma frase que ecoaria pelo resto da manhã: "do rico ao pobre nesse Estado, se acontecer uma emergência, é João Paulo." Foi competente na articulação dos números federais e o mais distante, entre todos, da Rondônia concreta que o evento pedia.
Hildon Chaves, ex-prefeito de Porto Velho, do União Brasil, optou pela estratégia oposta e transformou os trinta minutos numa prestação de contas. Educação que teria saído do último lugar entre as capitais para o quinto, à frente de Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro; 192 ônibus escolares pagos à vista; mais de 800 quilômetros de asfalto; 28 mil títulos de regularização fundiária; o programa Faculdade da Prefeitura, que pretende levar ao estado. Comparou o futuro governo a uma empresa — "a maior empresa do estado de Rondônia", com orçamento superior a 20 bilhões de reais — e fez disso um argumento de competência: "para prefeito, governador e presidente, nós não podemos errar." Reservou sua única estocada clara à gestão que o sucedeu na capital, afirmando que, sob "o populismo que supera a razão", Porto Velho "regrediu, perdeu 13 posições no ranking entre as capitais brasileiras" em um ano e meio. Foi a apresentação mais organizada em dados de realização e quase inteiramente voltada ao retrovisor, com escassa formulação sobre o que faria adiante.
Marcos Rogério, senador pelo PL e já derrotado na disputa estadual anterior, foi o mais estruturado. Recuperou a infância na linha 86 do projeto Riachuelo, em Ji-Paraná — a Rondônia da lamparina, do rádio com antena de bombril — e organizou a fala em três eixos. Na saúde, descreveu um estado em que o paciente "está mais tempo dentro de uma ambulância a caminho de Porto Velho do que dentro de um hospital sendo atendido", apontou que dos 3.700 leitos oficiais "mais de mil não existem" e que o Hospital de Base faz 600 cirurgias mensais quando poderia fazer três mil, e propôs um novo hospital de urgência e emergência na capital, a descentralização do atendimento e uma tabela SUS-rondoniense, a exemplo de São Paulo e Goiás. Na segurança, falou do avanço de PCC e Comando Vermelho, citando uma ponte que inaugurou já marcada com as iniciais de uma facção. Contou, sem expor a identidade, o caso de uma criança represada na fila da regulação, e admitiu o próprio desconforto de quebrar a fila para atender emergências: "o absurdo é eu ter que fazer, ou qualquer gestor aqui, ter que pressionar o sistema." Foi a fala que melhor equilibrou trajetória, diagnóstico e proposta, ainda que repetisse, como bordão, que "Rondônia pode mais".
Adailton Fúria, ex-prefeito de Cacoal reeleito com 83,16% dos votos, jogou em casa e não deixou ninguém esquecer. Aos 40 anos, narrou a trajetória de vereador a prefeito, contou a prisão da então prefeita às vésperas da eleição de 2020 como "um sinal de Deus" e exibiu realizações na saúde municipal, do hospital regionalizado ao programa Meu Irmãozinho, que distribui kits de merenda. Foi o orador mais físico da manhã: interpelou a plateia sobre os golpes financeiros Telexfree e Bbom para compará-los às praças de pedágio — "a gente está todo dia colocando dinheiro lá esperando o benefício chegar, e o benefício não chega" — e responsabilizou quem "tem a obrigação de fiscalizar" e "está fazendo política de avião e não anda pela BR-364". Lembrou que "em 2021 saiu um relatório de um senador de Rondônia" favorável à privatização da Eletrobras sob promessa de barateamento que, segundo ele, jamais se cumpriu. Prometeu "coragem de mamar em onça" e empolgou o auditório como ninguém — convertendo, contudo, pouco da empolgação em programa de governo.
Coube a Samuel Costa, o último, dizer em voz alta o que os demais haviam deixado nas entrelinhas. Embora o regulamento vedasse ataques pessoais, Costa estruturou parte da fala sobre cobranças endereçadas a figuras reconhecíveis, sem citá-las. Cobrou de um senador em fim de mandato que teria recebido emenda anual de 150 milhões de reais — 1,2 bilhão ao longo de oito anos, suficientes, por seu cálculo, para quatro hospitais do porte do João Paulo II — e nada construiu. De um pré-candidato que teria sido promotor de Justiça por duas décadas, na promotoria da saúde, sem mover uma única ação civil pública. De "um bacharel em direito há 20 anos sem ser aprovado no exame da OAB" que aspira ao governo. De um ex-presidente da Comissão de Saúde da Assembleia, em 2019 e 2020, que não teria proposto nenhuma audiência pública sobre a mortalidade no sistema. "Quem já teve décadas para servir o povo e não fez, ou foi por incompetência, ou foram lenientes e omissos", resumiu, antecipando a defesa: "isso aqui não é um ataque pessoal, mas é o palco adequado." Trouxe também as posições mais ásperas do dia: a tributação da soja, isenta de ICMS enquanto, segundo ele, destrói as rodovias 429, 425, 364 e 319, que propôs taxar em 2,5%, escalonando até 10% em 2035, para formar um fundo soberano contra a desigualdade, sem temer a vaia dos produtores; o perdão, no governo Confúcio Moura, de uma dívida de mais de 2 bilhões de reais ao Iperon, que projeta levar a previdência estadual ao colapso; e o suposto superfaturamento na locação de veículos da segurança pública. Filho de professor e de pedagoga, alfabetizado aos cinco anos e aprovado em direito e medicina aos dezesseis, fez da própria história um argumento pela educação em tempo integral nos moldes do Ceará, e fechou com Santo Agostinho: "a esperança tem duas filhas, a indignação e a coragem."
O que ficou da manhã foi um retrato involuntário. Todos, sem exceção, falaram de saúde, e o Hospital João Paulo II, em Porto Velho, foi o personagem mais citado do encontro — evocado, ora como medo, ora como vergonha, ora como única porta para ricos e pobres. Quase todos falaram de segurança, de infraestrutura, do pedágio e da energia cara. Houve quem chegasse com diagnóstico e proposta amarrados, quem preferisse contar o que já fez, quem transformasse o palanque em causa nacional e quem usasse os trinta minutos para cobrar, um a um, os que considera responsáveis pelo que não foi feito. Como observou o juiz Mário Milani ao final, todos obedeceram, o público se conteve, houve respeito. O resto — separar o diagnóstico do discurso, e o propósito do palanque — a manhã entregou ao eleitor, que era, afinal, a quem ela pertencia.



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