PORTO VELHO, RO – Até junho, a conversa nos bastidores da política rondoniense girava em torno de uma pergunta que soava sedutora: existe um azarão capaz de atropelar Marcos Rogério e Adailton Fúria na corrida ao Palácio Rio Madeira? A resposta que se tinha na época vinha de números. Hoje, com o prazo das convenções partidárias encerrado nesta quarta-feira, 5 de agosto, a resposta vem de fatos consumados — e eles são bem mais reveladores do que qualquer percentual.
O tabuleiro está montado. Marcos Rogério foi homologado pelo PL em 22 de julho, à frente da coligação Juntos por Rondônia, formada por PL, Podemos, Mobiliza e Novo, tendo o deputado estadual Delegado Camargo como vice e levando Bruno Bolsonaro Scheid e Fernando Máximo ao Senado. Adailton Fúria foi confirmado em 1º de agosto pelo PSD, em convenção presidida pelo próprio governador Marcos Rocha, na coligação Gente que gosta de gente, ao lado de PSD, Avante e da Federação Renovação Solidária, com Everton Leoni como vice e Luis Fernando ao Senado. Hildon Chaves foi aclamado em 3 de agosto pela Federação União-Progressista, com Cirone Deiró de vice e Mariana Carvalho e Silvia Cristina disputando as duas vagas do Senado. Pedro Abib saiu candidato pelo MDB em 25 de julho. Expedito Netto foi homologado no mesmo dia pela Federação Brasil da Esperança, em aliança com a Federação PSOL-Rede sob a coligação Fé Rondônia. E Samuel Costa foi oficializado pelo PSB em julho, com Sargento Machado como vice e Neidinha Suruí ao Senado.
O primeiro dado que as convenções entregaram é justamente aquele que mais mexe com a tese do azarão: Hildon Chaves não virou vice de ninguém. Durante meses circulou a hipótese de uma composição entre o ex-prefeito de Porto Velho e Marcos Rogério, um casamento de direita com centro que resolveria a capital para o senador e daria a Hildon um cargo sem risco. Não aconteceu. O ex-promotor de Justiça montou chapa própria, chamou um deputado do interior para vice e ainda emplacou uma deputada federal e uma ex na disputa pelo Senado. Quem escolhe ser cabeça de chapa quando podia ser vice ou está enxergando um caminho que as pesquisas ainda não captaram, ou está fazendo uma aposta cara. As duas leituras são legítimas, e o eleitor rondoniense vai saber qual delas vingou em 4 de outubro.
O segundo dado é o do MDB, e ele é menos irônico do que melancólico. Pedro Abib entrou nessa eleição vendido como a renovação da legenda, o jovem vice-reitor da Faculdade Católica de Rondônia numa sigla historicamente povoada de veteranos. Saiu da convenção de 25 de julho confirmado ao governo, mas sem vice definido — a escolha ficou delegada à Comissão Executiva Estadual — e sob contestação interna de filiados que questionaram a condução dos trabalhos. Seis dias depois, em 31 de julho, o senador Confúcio Moura, presidente estadual do partido e homologado na mesma convenção como candidato ao Senado, anunciou em nota pública que desistia da reeleição, afirmando que os acontecimentos dos últimos dias haviam mudado as condições sobre as quais sua candidatura fora construída. O MDB, portanto, chega ao fim do prazo das convenções com um candidato ao governo que ainda não tem companheiro de chapa e sem o nome que puxaria sua majoritária ao Senado. Renovação, aqui, virou menos uma escolha estratégica do que o resultado de um partido que se esvaziou por dentro.
O terceiro dado é o clima entre os dois primeiros colocados. PL e PSD já levaram a disputa para a Justiça Eleitoral, antes mesmo de a campanha oficial começar, e Fúria está no centro dos dois episódios — em posições opostas. Nesta quarta-feira, uma representação do PL levou a Justiça a conceder liminar determinando que ele retirasse em até duas horas a propaganda que permaneceu exposta depois da convenção do PSD, sob pena de multa de mil reais por hora de descumprimento. Cinco dias antes, foi o PSD que acionou o TRE, e o relator determinou que a Meta identificasse os responsáveis por perfis que divulgaram uma montagem feita com inteligência artificial contra o próprio Fúria, dando ao TikTok 24 horas para remover um vídeo com a mesma imagem manipulada. Num caso ele é o representado, no outro é quem pediu socorro. Nenhuma das decisões atribui a ele conduta grave, e a segunda o coloca como alvo de um ataque digital. O que as duas mostram juntas é que o confronto entre a chapa bolsonarista e a chapa da situação já opera em duas frentes simultâneas, a política e a jurídica, e que o desgaste que a análise de junho tratava como hipótese remota chegou antes do horário eleitoral.
Sobre as pesquisas, convém ser honesto. O levantamento que embasou toda a discussão do azarão até agora, do instituto Real Time Big Data, foi a campo em 14 e 15 de julho e mostrou Rogério com 36%, Fúria com 28%, Hildon com 13% e Expedito Netto com 10%, além de 44% a 40% num segundo turno entre os dois primeiros. Foi um bom retrato, mas de um estado que não existe mais: naquele momento nenhuma convenção estadual havia sido realizada, ninguém sabia quem seria vice de quem, e o eleitor respondia sobre nomes soltos, não sobre chapas. A própria pesquisa registrava 54% de indecisos no cenário espontâneo — mais da metade do eleitorado sem candidato definido. Tratar aqueles 13% de Hildon como um teto, agora que ele tem chapa fechada, palanque no interior e duas candidatas ao Senado puxando voto, é ler o presente com uma régua vencida.
O que resta, então, da pergunta original? Menos do que se imaginava, e não porque um azarão tenha surgido, mas porque a própria noção de azarão envelheceu. Marcos Rogério chegou às convenções como favorito e assim permanece, com o recall de 2022, o apoio do prefeito Léo Moraes na capital e um discurso que ele mesmo resumiu ao dizer que a proposta "é corrigir o rumo. É governar com visão". Fúria mantém a estrutura da situação e o aval do governador, mas gasta energia com as críticas do atual prefeito de Cacoal, Tony Pablo, até então seu vice, e em tribunal, ora atacando ora se defendendo eleitoralmente.
Hildon Chaves aposta na crise financeira do Estado, afirmando que o governo "está vendendo o almoço para comprar o jantar", e tenta transformar o legado da capital em capilaridade estadual. Expedito Netto herdou o palanque de Lula em um estado onde Flávio Bolsonaro lidera com folga, e diz ter "um grupo que está pronto para a luta, que quer ganhar o governo". Cirone Deiró resumiu a aposta de sua chapa ao falar em "a união do interior do estado com a capital". Abib e Samuel Costa começam de baixo e precisarão também do horário eleitoral para existir.
A disputa real não é mais sobre quem surpreende. É sobre quem chega ao segundo turno junto com Rogério — e, aí sim, sobre quem consegue costurar o que sobrar do outro lado. Vale lembrar que as convenções não encerram nada em definitivo: os partidos têm até 15 de agosto para registrar as candidaturas na Justiça Eleitoral e podem ajustar chapas até lá, e a legislação ainda admite substituições até 14 de setembro. Em Rondônia, onde acordo de véspera já mudou eleição, isso não é detalhe protocolar. O azarão de 2026, se existir, provavelmente não vai nascer de uma virada abrupta nas pesquisas; nascerá agora, do desenrolar do pontapé inicial do "jogo de verdade".
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Nota técnica: a pesquisa citada nesta análise, do instituto Real Time Big Data, foi realizada nos dias 14 e 15 de julho de 2026; ouviu 1.600 eleitores em Rondônia; tem margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos; possui nível de confiança de 95%; e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no que se refere à disputa ao governo do estado, sob o número RO-04369/2026.


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