RESENHA POLITICA ROBSON OLIVEIRA
ELEIÇÕES
No domingo, o Brasil vai às urnas escolher presidente, governadores, senadores e deputados. É o velho ritual democrático: o eleitor entra sozinho na cabine e, por alguns minutos, torna-se mais poderoso que todos os candidatos juntos. O primeiro turno ocorre em 4 de outubro e, se necessário, o segundo será em 25 de outubro.
FINAL
Nacionalmente, a campanha terminou concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro. Os demais candidatos ficaram distantes dos dois primeiros nos levantamentos da reta final, tentando romper uma polarização que se mostrou resistente durante a campanha. O Datafolha divulgado nesta quinta-feira registrou Lula com 42% das intenções de voto e Flávio com 38%; outros institutos também apontaram os dois muito à frente dos demais concorrentes. Pesquisa é fotografia, não urna, mas a fotografia ajuda a explicar a campanha.
DEBATE
Faltou, sobretudo, o confronto direto entre os dois principais candidatos. Lula não participou do debate final previsto pela Globo e concedeu entrevista ao Flow; Flávio também acabou não participando, e o encontro foi cancelado. Assim, o primeiro turno terminou sem um debate televisivo entre os dois líderes das pesquisas. Isto não significa que o debate em si mudasse o atual quadro. Ledo engano. Os votos estão bem consolidados.
CONEXÃO
É ruim para a democracia. Debate não é ornamento eleitoral. Serve para confrontar ideias, expor contradições e obrigar candidatos a responder aquilo que prefeririam deixar repousando confortavelmente debaixo do tapete. Mas também seria ingenuidade imaginar que um debate, sozinho, salvaria candidaturas incapazes de estabelecer conexão com o eleitor.
REJEIÇÃO
A eleição revelou, mais uma vez, um Brasil organizado muito mais pela rejeição e pela identidade política do que pela discussão de um novo projeto nacional. Lula possui um eleitorado fortemente identificado com sua trajetória e, ao mesmo tempo, uma rejeição igualmente robusta. Flávio Bolsonaro mobiliza fenômeno semelhante no campo oposto. No último Datafolha, ambos registraram 45% de rejeição.
ÓDIO
Eis o problema: quando a política vira identidade, sobra pouco espaço para discutir o país que existirá depois da eleição. Economia, saúde, segurança, educação, infraestrutura e equilíbrio fiscal acabam espremidos entre duas arquibancadas que preferem discutir quem odeiam.
INTENSIDADE
É lamentável, mas é a realidade que se impôs. Democracia também é saber conviver com a escolha que o eleitor fizer, mesmo quando ela nos desagrada. Caso a Presidência vá ao segundo turno, teremos mais três semanas de campanha. Pelo grau de polarização observado até aqui, haverá terreno para uma disputa ainda mais intensa.
VIOLÊNCIA
E existe razão objetiva para preocupação com a violência política: levantamento divulgado nesta semana registrou 354 episódios entre outubro de 2024 e agosto de 2026, considerado pelas entidades responsáveis o período pré-eleitoral mais violento da década.
SOBREVIVE
Apesar do ambiente áspero, eleição não é guerra civil. Na segunda-feira o padeiro continuará fazendo pão, o ônibus continuará passando e adversários continuarão obrigados a dividir o mesmo país. As instituições brasileiras também chegam às urnas submetidas a críticas, cobranças e desconfianças de diferentes setores da sociedade. Criticá-las faz parte da democracia. Rompê-las é outra conversa. Ao final, alguém vencerá e alguém perderá. O Brasil sobreviverá aos dois.
RESILIÊNCIA
A democracia, afinal, possui essa extraordinária falta de cerimônia: fecha a urna, conta os votos e manda todo mundo voltar para casa. Vida que segue. Nos próximos quatro anos o país permanecerá divido independente do vencedor.
RONDÔNIA
A urna anunciará também neste domingo quem será o novo governador de Rondônia ou, talvez, apenas os nomes dos dois homens que continuarão brigando pelo cargo durante mais três semanas. E esta é, provavelmente, a maior interrogação da eleição estadual. Vamos ou não para o segundo turno. Esta coluna acredita que sim. Mas as dúvidas ainda persistem.
DIFERENÇAS
Marcos Rogério chega à votação como líder das pesquisas. Na última Quaest divulgada, apareceu com 37%, contra 21% de Adailton Fúria, 9% de Hildon Chaves e 6% de Expedito Netto. São números superados pelo tempo entre a divulgação e a realidade, mas servem como ilustração. Nos votos válidos calculados a partir daquele levantamento, Marcos alcançava 49,3%. Outras lhes dão números mais elásticos. É justamente nessa pequena fronteira matemática que repousa uma enorme diferença política.
A Quaest ouviu 804 pessoas com 16 anos ou mais entre 21 e 24 de agosto de 2026. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi encomendado pela Rede Amazônica e registrado no TSE sob os números RO-05711/2026 e BR-00490/2026.
EXPECTATIVA
Nas hostes de Marcos Rogério existe confiança de que a eleição poderá terminar domingo. Há razões objetivas para o otimismo: na Quaest, ele saltou de 24% em agosto para 37% em setembro, enquanto Fúria permaneceu nos mesmos 21%. A distância entre ambos, que era de apenas três pontos, passou para 16. Mas eleição não termina quando o comitê eleitoral acha que terminou. Termina quando a urna manda.
REAÇÃO
E os adversários de Marcos também fizeram campanha. Ninguém resolveu passar a última semana tomando café e esperando a derrota chegar. Fúria, Hildon, Expedito Netto, Pedro Abib e Samuel Costa intensificaram suas agendas, buscaram votos e tentaram ocupar os espaços ainda disponíveis. Provavelmente aumentaram algum percentual.
DADO
Há outro número importante: na última Quaest, 19% ainda se declaravam indecisos e 35% dos entrevistados admitiam a possibilidade de mudar o voto. É gente suficiente para recomendar alguma prudência a quem já estiver escolhendo a gravata da posse. Um dado que muda a realidade no domingo.
GORDURA
Para Fúria, principalmente, não basta levar a eleição ao segundo turno. Politicamente, interessa chegar nele reduzindo a distância. Segundo turno é outra eleição, mas não é amnésia coletiva. Se Marcos Rogério atravessar domingo muito à frente do segundo colocado, começará a etapa seguinte carregando uma vantagem política importante.
MENSURANDO
Se a diferença diminuir significativamente, o adversário poderá vender a narrativa de que existe uma eleição aberta e tentar reorganizar em torno de si o eleitorado dos candidatos eliminados. A própria Quaest mostrou a dimensão desse problema: numa eventual disputa entre Marcos e Fúria, o senador aparecia com 45% contra 27%. Contra Hildon, 50% a 17%. Pesquisa não decreta resultado futuro, mas ajuda a medir o tamanho da montanha que os adversários teriam de escalar. Marcos Rogério, aliás, fez uma campanha diferente daquela que sua personalidade política poderia sugerir.
PAZ E AMOR
Quem acompanha sua atuação no Congresso conhece o debatedor duro, de discurso afiado e confortável no confronto, especialmente contra parlamentares da esquerda. Na campanha estadual, porém, apareceu uma versão bem mais moderada. O Marcos do embate parlamentar deu lugar ao candidato que evitou transformar cada divergência numa guerra santa. Foi, digamos, um Marcos paz e amor.
PERSONAGEM
Também trabalhou para suavizar a imagem de arrogância que adversários lhe atribuem. Marcos é reservado, possui um círculo restrito de confiança e nem sempre sua maneira de se relacionar ajuda a desfazer essa impressão. No convívio, este cabeça chata percebe mudanças evidentes. Está mais acessível e politicamente mais maleável. Resta saber se a transformação é obra definitiva do tempo ou apenas disciplina de campanha. Eleição costuma domesticar até vulcão. O problema é saber quando termina a campanha e volta a lava.
PERFIL
Fúria percorreu caminho diferente. É impetuoso, agitado, gosta do confronto e fez dessa disposição uma característica política. Para continuar competitivo, precisará preservar a imagem de candidato aguerrido sem permitir que agressividade substitua proposta. Existe uma linha fina entre disposição para o combate e excesso. Campanhas costumam atravessá-la justamente quando o candidato acredita que precisa gritar para ser ouvido.
GESTÃO
Sua experiência administrativa em Cacoal oferece um bom material para uma campanha baseada em gestão. Caso avance ao segundo turno, o eu é provável, terá de ampliar o discurso para além da confrontação com Marcos Rogério e convencer o eleitor de que possui um projeto estadual. Porque segundo turno não é continuação automática do primeiro. É outra narrativa, outro ambiente e outra composição política.
ERROS
Hildon Chaves talvez seja o personagem que mais tenha motivos para examinar a própria campanha quando tudo terminar. Saiu de uma administração da maior cidade do estado com realizações que poderiam ter sido exploradas como cartão de visitas. Entretanto, não conseguiu transformar suficientemente sua passagem pela Prefeitura de Porto Velho numa narrativa estadual capaz de apresentar ao eleitor do interior quem era Hildon, o gestor. Faltou contar melhor a própria história.
ENGASGO
Nos debates, teve oportunidades de apresentar experiência administrativa como contraponto aos adversários e nem sempre conseguiu aproveitá-las. Na última Quaest estava com 9%, praticamente no mesmo patamar dos 10% registrados em agosto. Irreconhecível nos debates optou em culpar os reflexos da COVID pelos lapsos de memória. Seus engasgos atrapalharam e expuseram ao eleitor um Hildon atrapalhado com as palavras. Isso não impede movimentação na reta final. Urna não lê coluna nem obedece pesquisa. Mas os dados disponíveis mostram que Hildon precisaria de uma alteração eleitoral muito expressiva para alcançar o segundo lugar. Quase um milagre. E urna gosta de aprontar.
CONTRADIÇÕES
Expedito Netto começou a campanha em situação mais confortável do que aquela em que chegou à reta final. Na primeira Quaest tinha 10%; na seguinte apareceu com 6%. Sua candidatura enfrentou ainda um desafio particular: voto presidencial não se transfere mecanicamente para governador. O eleitor pode votar em Lula para presidente e escolher outro campo político para o governo estadual. A urna brasileira está cheia dessas aparentes contradições. Eleitor não é pacote fechado que o partido entrega no balcão.
CUSTOS
Netto teve bons momentos nos debates, mas também desperdiçou energia em confrontos que pouco acrescentaram à discussão estadual. Em campanha curta, erro pequeno custa tempo grande. Especialmente os bates boca com Samuel.
PREPARO
Pedro Abib produziu uma surpresa de natureza diferente. Chegou à disputa enfrentando questionamentos dentro do próprio MDB, mas conseguiu ocupar espaço, apresentar propostas e demonstrar conhecimento dos assuntos do Estado. Intelectualmente, mostrou preparo nos debates. Só que eleição possui uma crueldade particular: currículo não deposita voto sozinho na urna.
EXPLICATVO
Abib teve dificuldade para produzir empatia. Seu discurso, por vezes excessivamente professoral, transmite a sensação de que está explicando Rondônia aos rondonienses. Fala muito, possui convicções fortes e nem sempre consegue transformar conhecimento em proximidade. Fez, entretanto, algo importante para quem praticamente começava eleitoralmente do zero: tornou-se mais conhecido.
IDENTIDADE
Se disputar outra eleição, precisará demonstrar não apenas que conhece Rondônia, mas que pertence politicamente ao estado que pretende governar. Seus traços culturais gaúchos fazem parte de sua identidade e não são defeito algum; eleitoralmente, porém, terá de construir uma conexão mais evidente com a identidade rondoniense. Hoje aparece alguém que desembarcou ontem por aqui.
PUGILISTA
Samuel Costa termina uma campanha mais discreta nos números e marcada por confrontos. Jovem, articulado e disposto ao embate, poderia ter utilizado a candidatura para apresentar uma nova geração política e propostas concretas para o estado. Em vários momentos, entretanto, as acusações ganharam mais espaço do que o projeto de governo. Eleição não é vale tudo.
ANSIEDADE
Juventude na política é ativo quando significa renovação. Vira problema quando a ansiedade ocupa o lugar da maturidade. Samuel fala muito em conquistar corações. Talvez tenha descoberto nesta campanha que, antes de conquistar o coração do eleitor, um político precisa aprender a governar o próprio. E assim Rondônia chega à urna.
EMPURRANDO
Os levantamentos publicados colocam Marcos Rogério na liderança e Fúria na segunda posição. Isso é o que as pesquisas mediram. O resto pertence ao eleitor. A pergunta de domingo não será apenas quem ficará em primeiro. Será saber se Marcos Rogério conseguiu transformar liderança em maioria absoluta dos votos válidos ou se Fúria e os demais candidatos retiraram dele votos suficientes para empurrar a disputa para o segundo turno.
URNA
Se acabar domingo, teremos governador. Se não acabar, esqueçam boa parte da campanha que vimos até aqui. No segundo turno, alianças serão refeitas, antigos desafetos descobrirão afinidades filosóficas que desconheciam até domingo, derrotados serão cortejados como estadistas e apoios considerados imprestáveis pela manhã poderão tornar-se indispensáveis antes do jantar. É a política. Ela possui extraordinária capacidade de produzir convicções eternas com validade de três semanas. Por enquanto, contudo, há um único instituto realmente capaz de encerrar a discussão. Chama-se urna. E ela não concede entrevista.
REGISTRO
Abro hoje uma rara exceção nesta coluna para pedir voto. Não costumo usar este espaço para esse tipo de manifestação, mas há causas que, vez ou outra, exigem de nós mais do que a isenção profissional: exigem coragem para assumir uma posição. Peço aos amigos que considerem o nome de Paulo Moraes para deputado estadual. Faço isso sabendo perfeitamente do risco que uma exposição como esta representa para quem exerce o jornalismo e precisa conviver com a cobrança permanente pela independência.
COMPROMISSO
Mas Paulo tem aprendido com o irmão, meu amigo Léo Moraes, prefeito da capital, que política não deve ser apenas disputa por poder, mas também compromisso com causas sociais justas, dignas e capazes de melhorar a vida das pessoas. Não sei se daqui a quatro anos esta coluna estará comemorando ou pedindo desculpas pela escolha. E é exatamente por isso que assumo o risco. Política também é feita de confiança, e confiança, como voto, só pode ser conferida pelo tempo.
APOSTA
Espero que Paulo corresponda ao meu voto e a esta exposição que faço no exercício profissional. Espero, sobretudo, que tenha aprendido com Léo a fazer a boa política, aquela que não se limita ao discurso, mas se mede pela capacidade de defender quem mais precisa. Se errarmos, daqui a quatro anos teremos a humildade de reconhecer o erro. Mas, hoje, prefiro apostar na esperança de que estamos ajudando a construir um bom político.


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