Na política, existe uma diferença brutal entre carregar uma bandeira e carregar um problema.
A direita brasileira aprendeu, desde 2018, a operar com um ativo eleitoral de enorme potência chamado Jair Bolsonaro. Em estados como Rondônia, esse capital virou quase moeda corrente. Houve candidato eleito surfando a onda, candidato sobrevivendo graças a ela e pré-candidato tentando se apresentar como extensão legítima desse universo político. Até aí, nenhuma novidade. O problema começa quando esse ativo começa a emitir sinais de contaminação.
E eis que surge Flávio Bolsonaro.
O senador, que até outro dia era tratado como herdeiro natural de uma eventual sucessão familiar no campo conservador, entrou num inferno astral daqueles que não se resolvem apenas com nota oficial, vídeo indignado ou discurso para convertidos. O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, os áudios sobre tratativas milionárias para financiamento de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro e a avalanche de desgaste subsequente produziram algo politicamente perigoso: a percepção de vulnerabilidade.
Mas o sinal mais eloquente talvez não venha da oposição.
A jornalista Andréia Sadi resumiu o ambiente em Brasília com uma frase cirúrgica: “Pilares do bolsonarismo avaliam Flávio Bolsonaro como ativo tóxico após revelação de negócios com Vorcaro.”
É aí que a história muda de patamar.
Porque quando adversários atacam, isso faz parte do jogo. Quando o desconforto começa a surgir entre setores que historicamente sustentam esse campo político — mercado financeiro, agronegócio, lideranças evangélicas e a própria classe política, segundo os bastidores relatados —, a conversa deixa de ser retórica e passa a ser matemática eleitoral.
Política, convém lembrar, não é tribunal. Não depende de condenação para produzir dano. Basta a fumaça. Às vezes, basta a narrativa.
E a narrativa piorou.
A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg* captou algo que políticos profissionais observam com atenção quase clínica: a velocidade da deterioração. Flávio caiu mais de cinco pontos, despencou num eventual confronto direto contra Lula, tornou-se o nome mais rejeitado da disputa e passou a liderar o índice de “medo eleitoral” — aquele indicador que mede não quem o eleitor ama, mas quem ele teme ver no poder.
Traduzindo do cientifiquês eleitoral para o português claro: Flávio deixou de ser apenas competitivo e passou a ser potencialmente problemático.
E aí chegamos a Rondônia.
Porque Rondônia talvez seja um dos poucos lugares do país onde o bolsonarismo não funciona apenas como alinhamento ideológico, mas como identidade política de alto valor eleitoral. O sobrenome Bolsonaro ainda mobiliza, emociona, fideliza e organiza parte expressiva do eleitorado. Não por acaso, Flávio Bolsonaro escolheu justamente Rondônia para realizar seu primeiro grande ato de pré-campanha presidencial, um gesto que ajuda a dimensionar o peso simbólico que o estado ocupa no mapa político do bolsonarismo.
Marcos Rogério sabe disso. Bruno Scheid sabe disso. Sofia Andrade sabe disso. Coronel Chrisóstomo sabe disso. Fernando Máximo sabe disso. Lúcio Mosquini também.
Cada um, à sua maneira, construiu pontes com esse campo político. Alguns de forma institucional. Outros de forma simbólica. Outros de forma quase devocional.
A questão é: e se o problema não for Bolsonaro, mas especificamente Flávio?
Porque aqui mora a sutileza que separa análise política séria de torcida organizada.
O eleitor conservador raiz pode continuar firme com o bolsonarismo. Mas campanhas majoritárias e proporcionais não se vencem apenas com militância ideológica. Elas exigem ampliação, alianças, financiadores, neutralização de rejeição, boa vontade de setores econômicos, capilaridade religiosa e pragmatismo político.
Se a leitura de bastidores em Brasília estiver correta — e se Flávio começar a ser visto como esse “ativo tóxico” descrito por quem conhece os corredores do poder — a pergunta deixa de ser moral e passa a ser estratégica: quem vai querer dividir palanque com um problema?
Não porque haja colapso do bolsonarismo em Rondônia. Isso seria uma conclusão preguiçosa.
Mas porque a política tem horror a risco desnecessário.
Se o sobrenome que ontem agregava começar a repelir segmentos importantes, o cálculo muda. Não imediatamente entre os mais fiéis. Mas entre os pragmáticos, sim. E política costuma ser decidida menos pelos apaixonados do que pelos pragmáticos.
A pergunta que paira sobre Rondônia, portanto, não é se o eleitor conservador abandonará sua identidade.
É mais incômoda.
Os pré-candidatos locais continuarão querendo a foto com Flávio Bolsonaro daqui a alguns meses — ou começarão a preferir apenas a lembrança de Jair?
*Dados da Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg: O levantamento ouviu 5.032 pessoas entre 13 e 18 de maio, por meio digital, com margem de erro de um ponto percentual e 95% de confiança, registrado no TSE sob o número BR-06939/2026



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