Refletindo sobre a conjuntura brasileira, algumas inquietações sao merecedoras de consideração . A situação econômica poderia ser melhor, a desigualdade é persistente e a educação brasileira (embora com grandes avanços conquistados nos governos do PT) sofre há décadas, desde a opção pela universalização do atendimento como uma forma de proporcionar inclusão social.
Tendo isso claro, passemos a olhar o quadro conjuntural com mais atenção.
É impossível discutir o presente ignorando o óbvio: imagine a tragédia em que estaríamos se Bolsonaro tivesse vencido as eleições de 2022 e aprofundado a bandalheira fiscal, política e social em nome do neoliberalismo performático de Paulo Guedes?
Entre 2019 e 2022, o país viu o PIB ter desempenho pífio, a fome voltar a níveis dos anos 1990, políticas públicas serem desmontadas e rombos fiscais serem ampliados por medidas eleitoreiras.
Aquele desastre econômico, social e sanitário não pode ser creditado apenas à pandemia da covid-19 (onde o Brasil, com cerca de 3% da população do mundo, produziu cerca de 11% de todas as mortes. Por qual razão?).
O desastre da gestão bolsonarista (neoliberalismo pós-golpe) era embalado por parte importante da grande mídia, que tratava cada ataque à democracia como “tensão institucional” e cada desastre administrativo como “polêmica”.
Nada é por acaso ou caiu das estrelas.
Foi a grande mídia articulada que, desde 2013, fabricou/ampliou a frustração social, emparedou o Congresso (com Eduardo Cunha no comando) e consolidou uma ideia de caos generalizado.
Tudo isso levou à absurda ruptura democrática de 2016, com o afastamento de Dilma (sem crime), a ascensão de Temer, a entrega do Pré-sal, o fim da Política de Conteúdo Nacional (base da nova industrialização do país), a derrocada das grandes empresas nacionais de construção pesada, o fim da indústria naval em ascensão etc.
Não é intelectualmente honesto desconsiderarmos esses fatores no momento de uma análise mais profunda do Brasil que temos.
Imagine, por exemplo, o quanto teríamos avançado se o Brasil tivesse elegido congressos menos corruptos, menos fisiológicos e mais comprometidos com os diferentes setores econômicos e sociais da nação?
Mais do que nunca, seguimos com um Legislativo que funciona como um marketplace de emendas, onde cada voto tem preço e cada pauta tem dono.
O problema do país não é, nem nunca foi, “imposto demais” — isso não se sustenta! Podemos questionar (e deve ser feito permanentemente) a forma como os tributos são gastos.
Hoje, depois da bandidagem de Eduardo Cunha e Arthur Lira, cabe à sociedade questionar a “funcionalidade” do orçamento secreto, do fisiologismo e do sequestro orçamentário que (quase) transforma o nosso presidencialismo de coalizão num falso parlamentarismo de ocasião. Lembremos que o legislativo se apropria de 60% do Orçamento Geral da União. E ao Executivo a quem cabe a execução do Orçamento Público (resultado dos impostos arrecadados) para realizar as políticas públicas como SUS, SUAS, FUNDEB, Expansão do Ensino Tecnológico (IFEs) e das Universidades Federais entre tantos outros (o texto não cabe o número de programas criados para buscar a superação das desigualdades sociais).
São novos tempos com novas premissas.
Em qualquer debate sobre este tema, não dá para ignorar a descontrolada manipulação algorítmica que, inevitavelmente, captura freneticamente parte da opinião pública (…ou esquecemos as bizarrices da cloroquina, da mamadeira de piroca, do kit gay, da reza para pneu, do globalismo satânico, do detergente Ypê…?).
A histeria digital virou método político, e a desinformação virou ativo eleitoral a turvar a visão social do mundo real.
Claro que o Brasil está longe do que sonhamos — muito longe. Mas também está, sem dúvida, bem melhor do que estava no final de 2022.
Isso, conforme falei, não é “achismo” e pode ser mensurado por realidades, dados e números de credibilidade inquestionável.
Para concluir, o ponto, para mim, não é “se” iremos ou não eleger Lula para um quarto mandato.
Tudo aponta que sim.
O cerne fulcral é: que “tipo de Congresso” (sob tais circunstâncias factuais) a nossa sociedade elegerá para ajudar Lula a fazer um Brasil cada vez melhor?
Fátima Cleide
Ex Senadora da República
Pré candidata a Deputada Estadual



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