Gilberto Gil disse adeus à turnê Tempo Rei no último sábado (28), no Allianz Parque, em São Paulo. A apresentação foi mais do que um show; foi um encontro geracional atravessado por memória, afeto e celebração.
O espetáculo reuniu fãs de diferentes idades em um clima que misturava reverência e intimidade, como uma grande reunião de família em torno da música brasileira.
A noite marcou um momento simbólico dentro da turnê, anunciada como a última grande excursão da carreira do artista. Mais do que uma despedida, o projeto tem sido construído como uma espécie de retrospectiva viva, revisitando diferentes fases da obra do artista de 83 anos, com novos arranjos e participações especiais.
O título, inspirado na canção homônima, sugere uma relação madura com o tempo; não como urgência, mas como sabedoria acumulada.
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Antes de Gil aparecer, a plateia já se mostrava animada e atenta ao aplaudir uma mensagem contra o feminicídio ao som de Elza Soares com “Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, verso do clássico Maria da Vila Matilde. O tom político e sensível se entrelaçou com a emoção da trajetória do próprio cantor.
Pontualmente às 19h30, Gil subiu ao palco e foi ovacionado já nos primeiros minutos. “Uma felicidade encontrá-los por aqui e comemorarmos esse final da temporada do Tempo Rei”, disse o artista, em sua sétima passagem por São Paulo com a turnê, antes de engatar com versos de Aqui e agora.
Viagem pela carreira
Gilberto Gil show Allianz Parque 28/03/2026Reprodução/Instagram @giltemporei
O repertório transitou entre diferentes momentos de sua carreira. O forró de Dominguinhos colocou o estádio inteiro para dançar, enquanto histórias entre as músicas adicionavam camadas à experiência.
Em um desses momentos, Chico Buarque surgiu em um vídeo no telão, contando sobre a canção Cálice.
Reverenciando as reviravoltas do tempo e a sabedoria do amigo, Chico confessou admirar “a serenidade de Gil, como quem soubesse que Tempo Rei lhe daria razão”.
Em outro trecho, Gil compartilhou memórias de sua primeira viagem à África, em Lagos, na Nigéria, quando foi junto de uma delegação com mais de cem pessoas representar o Brasil. Momento que marcou profundamente sua trajetória.
A experiência inspiraria, mais tarde, o álbum Refavela, revisitado ali como um elo entre passado e presente.
Clima de família reunida
No palco, o clima era de família reunida — literal e simbolicamente. Gil esteve acompanhado por filhos, netos e sua bisneta — Nara Gil, Bem Gil, Francisco Gil, José Gil, Flor Gil, João Gil, Bento Gil e Nino Gil dividiram o palco em diferentes momentos, além da bisneta Sol de Maria, que participou de forma delicada em Andar com Fé.
Gilberto Gil foi acompanhado pelos netos Bento e Flor no palcoReprodução/Instagram @giltemporei
A energia na plateia refletia esse espírito, uma celebração da vida, dos encontros e da beleza de dividir aquele momento com quem se ama.
Um dos pontos mais emocionantes da noite veio após Nossa Gente, quando Bem Gil falou de Preta Gil, que faleceu em 2025 após um câncer agressivo. Bem relembrou que a turnê foi dedicada a ela desde o início, em Salvador, e o público puxou aplausos em homenagem.
“Nós que ficamos, ficamos com muita saudade. Com você estaremos sempre”, disse Gilberto Gil, em um dos momentos mais tocantes do show.
Entre brincadeiras e falas profundas, Gil também resumiu o espírito da noite com simplicidade: “A vida é aqui, né”, comentou.
Clássicos seguiram conduzindo o público — como Esperando na Janela, cantada em coro — até o encerramento, três horas depois, com Sítio do Pica‐Pau‐Amarelo.
Sem pressa e com uma elegância rara, Gilberto Gil transformou o palco em um espaço de memória viva, em que passado, presente e futuro coexistem em harmonia.



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