Publicada em 28/01/2026 às 11h51
A crise em torno dos pedágios da BR-364 escancarou algo que vai além do debate técnico sobre concessões rodoviárias: revelou um jogo de empurra-empurra político em que quase ninguém assume responsabilidade, todos tentam se absolver e a conta, como sempre, fica com a população.
Os personagens se apontando mutuamente, à procura de um culpado — traduz com precisão o momento vivido pela principal rodovia federal de Rondônia.
O ponto de partida da controvérsia foi a implantação do sistema de pedágio eletrônico free flow pela concessionária Nova 364, com tarifas consideradas elevadas e cobradas antes da entrega de melhorias estruturais perceptíveis. Buracos, trechos degradados, acidentes frequentes e mortes seguem fazendo parte da rotina da estrada, agora acompanhados da cobrança imediata. Esse contraste alimentou a indignação popular e transformou o pedágio em tema central do debate público.
Diante da pressão, o senador Confúcio Moura (MDB) decidiu se manifestar. Em vídeo e texto publicados em suas redes sociais, o parlamentar reagiu às críticas atribuindo a origem da concessão ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2019, quando Tarcísio de Freitas ocupava o Ministério da Infraestrutura. “É importante lembrar que esse processo teve início em 2019, no governo Bolsonaro, quando Tarcísio era ministro da Infraestrutura”, escreveu. Segundo ele, o governo atual apenas deu continuidade a um procedimento já em curso, aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e analisado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Confúcio também ressaltou sua atuação institucional enquanto presidiu a Comissão de Infraestrutura do Senado. “Eu fui presidente da Comissão de Infraestrutura e promovi uma série de debates, muitos debates. Esse é o meu papel”, afirmou, acrescentando que decisões dessa magnitude não cabem a um único senador. No tom mais áspero do vídeo, reagiu às tentativas de responsabilizá-lo individualmente: “O que existe agora é conversa fiada nesse estado, gente querendo jogar nas minhas costas, sozinho, a responsabilidade pelo preço do pedágio. Isso não é verdade. É politicalha, é pré-campanha”.
O discurso, no entanto, produziu um efeito colateral imediato: ao tentar se blindar, Confúcio acabou se isolando ainda mais. Poucos dias depois, o deputado federal Maurício Carvalho (União Brasil), líder da bancada federal de Rondônia, concedeu entrevista afirmando que praticamente todos os parlamentares do estado foram contrários ao modelo da concessão — com exceção do senador do MDB. “Eu fiz reunião com a bancada federal, só não com o Confúcio, mas o resto da bancada inteira foi contrário a esse movimento da concessão do jeito que foi”, declarou. Em outro trecho, foi direto: “Não adianta a gente ficar mentindo pra população”.
A fala de Maurício reforçou a narrativa de isolamento político de Confúcio, ao mesmo tempo em que buscou absolver a bancada como um todo, transferindo a responsabilidade ao Poder Executivo e, agora, ao Judiciário. Trata-se de uma meia-verdade conveniente: embora a Câmara não delibere formalmente sobre concessões, é inegável que a bancada federal teve conhecimento prévio do processo, participou de debates, acompanhou cronogramas e, ainda assim, não conseguiu — ou não quis — construir uma reação efetiva antes que a cobrança começasse.
Antes mesmo desse embate, o senador Jaime Bagattoli (PL) já havia colocado Confúcio “contra a parede”, cobrando publicamente um posicionamento do então ex-presidente da Comissão de Infraestrutura. Bagattoli lembrou que conversou reiteradas vezes com Confúcio durante o período em que o processo avançava e questionou a lógica de uma concessão de 30 anos, com cobrança imediata, poucas duplicações e impacto pesado no custo do transporte. “Você acha que isso é justo para o povo de Rondônia?”, indagou em vídeo amplamente compartilhado.
Enquanto isso, outro personagem relevante entrou tardiamente em cena. O senador Marcos Rogério (PL), que até então não protagonizava o debate, passou a se movimentar apenas depois que os pedágios já estavam sendo cobrados. Em postagem nas redes sociais, informou ter ido à ANTT pedir diálogo, fiscalização e transparência. O gesto, embora legítimo, reforça a sensação de que parte da reação política só ganhou corpo quando o desgaste já estava instalado e o tema se mostrava altamente mobilizador nas redes.
O pedágio da BR-364, aliás, extrapolou rapidamente os limites da bancada federal e virou pauta política em outras esferas. Vereadores de Porto Velho e de outros municípios passaram a se manifestar, cada qual recortando o problema sob um ângulo específico. Breno Mendes (Avante) levou a discussão aos pedágios, defendendo isenção para pacientes oncológicos e em tratamento de hemodiálise. Marcos Combate (Agir) destacou o efeito cascata do pedágio caro sobre o preço dos alimentos e do combustível, lembrando que “mesmo quem não tem carro paga o pedágio”. São manifestações que dialogam com a realidade social e econômica, mas que também evidenciam como o tema virou um ativo político de alta viralização.
No centro desse tabuleiro, a postura de Confúcio Moura chama atenção por sua contradição. Após “jogar a bomba” no colo de Bolsonaro e Tarcísio, o senador publicou, dias depois, uma nota oficial defendendo a concessão da BR-364 como decisão institucional e necessária, ainda que reconhecendo a legitimidade do debate sobre os valores cobrados. Reafirmou que sempre defendeu a concessão por considerar a rodovia perigosa e com histórico grave de acidentes. Ou seja: mesmo sob intenso desgaste, manteve a defesa do modelo, tentando separar a concessão em si das tarifas praticadas.
Esse movimento alimenta a percepção de que Confúcio “lava as mãos” quanto aos efeitos concretos da política que ajudou a viabilizar, ainda que não possa ser responsabilizado sozinho. É igualmente problemático, porém, o esforço de parte da bancada em transformá-lo no vilão exclusivo de uma história que tem múltiplos atores, omissões e conveniências. O maniqueísmo — o jogo do culpado contra o absolvido, do malvadão contra o mocinho — serve mais à disputa eleitoral do que à solução do problema.
A verdade incômoda é que a classe política de Rondônia, como um todo, “comeu bolinha”. Enquanto o processo avançava desde 2019, a população não foi mobilizada de forma clara, o impacto real das tarifas não foi enfrentado com a devida seriedade e a cobrança começou antes de qualquer benefício prático visível. O resultado é uma aberração administrativa: pagar caro para trafegar por uma estrada horrorosa, cheia de buracos, defeituosa e marcada por acidentes, sob a promessa de melhorias futuras.
Na conclusão que se impõe, o pedágio da BR-364 virou mais do que um problema de infraestrutura: tornou-se uma plataforma de viralização política. Alguns surfam no hype, outros já enxergam o tema como mote eleitoral, e há quem tente reescrever o passado para parecer opositor de algo que não conseguiu impedir. Enquanto isso, figuras centrais como Maurício Carvalho, na condição de líder da bancada, e o próprio Confúcio, como defensor histórico da concessão, deveriam ter enfrentado o tema “lá atrás”, quando ainda havia margem política para evitar o cenário atual. Não o fizeram.
É surreal assistir a esse duelo de narrativas enquanto a população segue à mercê de um modelo que cobra antes de entregar. E também é injusto reduzir essa tragédia institucional a um único nome. Confúcio deve explicações, sim. Mas responsabilizá-lo sozinho é tão conveniente quanto falso. No fim, o teatro do vilão contra o mocinho só beneficia os mais letárgicos da bancada, que passam incólumes, enquanto a BR-364 segue perigosa, cara e símbolo de uma falha coletiva travestida de debate político.



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