Publicada em 24/01/2026 às 10h07
Porto Velho (RO) - A política, em sua essência, deveria ser o campo do debate franco e da defesa intransigente dos interesses da população. No entanto, o que se observa atualmente em Rondônia é um fenômeno de "zíper na boca" por parte de figuras centrais do tabuleiro político estadual. De um lado, o senador Confúcio Moura (MDB) cala-se diante da exploração tarifária na BR-364; de outro, o deputado federal Maurício Carvalho (União Brasil) silencia sobre o colapso na qualidade do ensino médico em instituições sob sua gestão. Embora os temas sejam distintos, a raiz do silêncio é a mesma: a conveniência de não enfrentar assuntos que podem gerar desgaste político ou atingir interesses privados.
CONFIRA:
Bagattoli faz cobrança pública a Confúcio Moura sobre concessão e pedágios da BR-364
RELEMBRE:
Pedágio antes das melhorias: a conta que o cidadão de Rondônia será obrigado a pagar para trafegar na horrorosa BR-364
O caso da BR-364 é emblemático. No dia 5 de janeiro de 2026, o senador Jaime Bagattoli (PL) veio a público cobrar uma postura de Confúcio Moura. O motivo é a implementação do sistema de pedágio free-flow pela concessionária Nova 364, com tarifas que chegam a ser classificadas como extorsivas. Bagattoli lembrou que Confúcio, enquanto presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, foi um dos principais defensores do modelo de privatização. "Eu gostaria muito que a população de Rondônia pedisse agora um vídeo do Confúcio Moura falando sobre esse sistema da privatização", declarou Bagattoli, apontando que o custo do pedágio pode representar mais de 50% do gasto com diesel para um caminhão.
Enquanto a rodovia permanece em condições precárias, com buracos e obras inacabadas, a cobrança começou a todo vapor em 12 de janeiro de 2026. Confúcio Moura, o único aliado do governo Lula na bancada federal, mantém-se no "sapatinho". Sua defesa entusiasmada da entrega da rodovia à iniciativa privada no passado contrasta agora com a ausência de críticas aos valores abusivos que penalizam o setor produtivo e o cidadão comum. A cobrança antecipada, antes mesmo das melhorias prometidas, é vista por muitos como uma "concessão às avessas", mas para o senador do MDB, o tema parece ter deixado de ser prioridade.
VEJA TAMBÈM:
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E AINDA:
De Rondônia: FIMCA, UNINASSAU, Metropolitana e Afya são reprovados no Exame Nacional de Formação Médica
Paralelamente, outro silêncio ensurdecedor ecoa na capital. Em 19 de janeiro de 2026, a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) revelou um cenário desastroso para o ensino superior em Rondônia. Quatro cursos de Medicina foram reprovados, obtendo conceitos 1 e 2, considerados insatisfatórios pelo MEC e pelo Inep. Entre os reprovados estão a FIMCA (conceito 2) e a Faculdade Metropolitana (conceito 1), ambas pertencentes ao Grupo Aparício Carvalho.
O deputado federal Maurício Carvalho, que dirige o grupo e se apresenta como vice-reitor das instituições, ocupa também a presidência da Comissão de Educação na Câmara Federal. O conflito de interesses é latente. Como presidente da comissão responsável por zelar pela qualidade do ensino no país, Carvalho deveria ser o primeiro a cobrar explicações e medidas corretivas. No entanto, sua reação foi o silêncio absoluto. Nem como deputado, nem como líder da bancada, nem como gestor educacional, Maurício Carvalho deu "um pio" sobre o fato de suas instituições estarem lançando no mercado profissionais com formação questionável.
A gravidade da situação foi sublinhada pelo presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), o rondoniense José Hiran Gallo. Em 20 de janeiro de 2026, Gallo afirmou que "a população não merece médico mal formado" e alertou para os riscos à vida dos pacientes. "O dado é crítico. A população brasileira vai ficar em risco quando essas pessoas receberem seu CRM e estão inaptos para atender", reforçou o presidente do CFM, defendendo inclusive um exame de proficiência obrigatório para médicos, semelhante ao da OAB.
O silêncio de Maurício Carvalho torna-se ainda mais incômodo quando se recorda que, em dezembro de 2024, o portal da FIMCA destacava sua gestão como referência de qualidade. Agora, diante de notas que colocam as faculdades na mira de sanções administrativas e redução de vagas, o discurso de excelência desapareceu. Até mesmo Confúcio Moura, que também é médico, silencia sobre o caos na formação profissional que coloca em risco a saúde pública, unindo-se ao colega de parlamento na conveniência da omissão.
Em 22 de janeiro de 2026, Jaime Bagattoli voltou a usar as redes sociais para criticar a privatização da BR-364, prometendo acionar a ANTT para suspender a cobrança até que as melhorias sejam entregues. Enquanto isso, associações como a Aprosoja Rondônia já buscam na Justiça Federal a suspensão dos pedágios, apontando a quebra de previsibilidade e o impacto econômico devastador.
A conclusão que se impõe é que, em Rondônia, os extremos políticos se tocam no silêncio. Seja na infraestrutura ou na educação, quando o debate se torna espinhoso para os detentores do poder, a estratégia é calar. No entanto, o silêncio não apaga os buracos na estrada nem a mediocridade na formação médica. Ele apenas evidencia que, para certas lideranças, a preservação da imagem política e dos interesses econômicos pesa muito mais do que o compromisso com o povo rondoniense.



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