PORTO VELHO, RO - A vinda do senador Flávio Bolsonaro a Rondônia para anunciar a pré-candidatura de Marcos Rogério, do PL, ao Governo do Estado, marcada para o dia 14 de março, às 10h, no Espaço Vera Cruz, em Ji-Paraná, marca um ponto de inflexão na política local. O movimento, realizado ao lado de lideranças da legenda comandada nacionalmente por Valdemar Costa Neto e de aliados que orbitam o projeto político da sigla tanto em âmbito nacional quanto regional, implica dizer que, de fato, o bolsonarismo escolheu seu nome para a disputa estadual. Ao observar o passado recente, nota-se que o cenário de 2026 dialoga diretamente com memórias ainda muito vivas de 2018.
Naquele momento, Jair Bolsonaro, então filiado ao PSL, tinha como principal representante em Rondônia o atual governador Coronel Marcos Rocha. Rocha chegou ao Palácio Rio Madeira impulsionado por essa associação direta com o então candidato ao Planalto, vocalizando pautas contrárias à esquerda e se apresentando como o arquétipo perfeito do conservadorismo. Essa exclusividade foi decisiva para que derrotasse outros nomes, entre eles o ex-senador Expedito Júnior, que tentou vocalizar apoio a Bolsonaro apenas no segundo turno, quando o pleito já estava consolidado em favor do então candidato do PSL.
A trajetória política posterior alterou significativamente essa equação. O governador e o ex-presidente acabaram se afastando, e Marcos Rocha conseguiu se reeleger em 2022 sem o apoio formal de Bolsonaro, que naquele mesmo ano perdeu a eleição presidencial para Lula, do PT. O detalhe relevante é que, naquele pleito estadual, o candidato associado diretamente ao bolsonarismo era justamente Marcos Rogério. Mesmo carregando essa marca política, o senador não conseguiu superar o governador na disputa pelo Executivo estadual.
Esse histórico demonstra que o bolsonarismo permanece uma força política relevante em Rondônia, mas também revela que o fenômeno eleitoral que impulsionou candidaturas em 2018 já não se reproduz com a mesma mecânica automática. A direita conservadora continua forte e pujante no estado, mas o contexto político mudou.
A própria dinâmica eleitoral recente ajuda a ilustrar esse novo ambiente. Em 2024, a então candidata Mariana Carvalho trouxe Jair Bolsonaro a Porto Velho durante a campanha municipal, mas acabou derrotada por Léo Moraes, do Podemos, hoje prefeito da capital. Por outro lado, a força simbólica da família Bolsonaro segue sendo um ativo político expressivo. Em Ji-Paraná, o ex-deputado estadual Affonso Cândido venceu a eleição para prefeito com apoio maciço do bolsonarismo e do próprio Jair Bolsonaro, derrotando o então prefeito Isaú Fonseca mesmo diante da estrutura administrativa da segunda maior cidade rondoniense.
Ao mesmo tempo, outro fator altera a dinâmica política nacional e estadual. Jair Bolsonaro encontra-se atualmente preso na unidade conhecida como Papudinha, em Brasília, cumprindo pena superior a 27 anos em decorrência da denominada “trama golpista”. A ausência do ex-presidente no cenário político direto obrigou o grupo a reorganizar suas lideranças. Nesse contexto, Flávio Bolsonaro passou a assumir papel mais ativo na articulação política, sendo frequentemente apresentado como o membro mais moderado e conciliador da família.
É nesse ambiente que o lançamento da pré-candidatura de Marcos Rogério ganha significado. A presença de Flávio Bolsonaro no evento de Ji-Paraná funciona como gesto político claro de alinhamento. Em termos simbólicos, significa que o bolsonarismo, enquanto identidade política reconhecida pelo eleitorado conservador, passa a estar oficialmente associado ao senador do PL.
Esse movimento reorganiza o tabuleiro eleitoral e coloca adversários em potencial em posição delicada. O prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, do PSD, que desponta como possível candidato associado ao Palácio Rio Madeira e apoiado pelo governador Marcos Rocha, além de contar com as bênçãos políticas de Expedito Júnior, pode até se apresentar como alinhado ao campo conservador, mas enfrenta a barreira de não ser o nome escolhido pela família Bolsonaro.
A situação se torna ainda mais complexa diante de movimentos recentes na política estadual. A entrada do filho de Expedito Júnior, o ex-deputado federal Expedito Netto, no Partido dos Trabalhadores introduziu um elemento adicional de pressão política no campo da direita. Netto surge como pré-candidato ao Governo com o aval direto do presidente Lula, o que obriga adversários a redobrar esforços para reafirmar sua identidade conservadora.
Nesse contexto, figuras como Adaílton Fúria tendem a reforçar episódios que os aproximam do discurso bolsonarista, como quando o prefeito relembra que manteve o comércio aberto em Cacoal durante a pandemia, contrariando diretrizes estaduais e alinhando-se às orientações defendidas por Jair Bolsonaro à época. Ainda assim, a diferença simbólica permanece evidente. Outros postulantes podem se inserir no campo da direita, podem se apresentar como conservadores, neoliberais ou antiesquerdistas, mas o selo político mais visível do bolsonarismo, aquele que funciona como um verdadeiro colar identitário no debate público, tende a ficar concentrado nas mãos de Marcos Rogério.
Diferente de 2022, quando sua candidatura foi marcada por forte apelo ideológico, o senador agora passa a contar com a presença de um interlocutor considerado mais conciliador dentro da família Bolsonaro. A participação de Flávio Bolsonaro na construção desse palanque pode abrir espaço para um equilíbrio maior entre identidade ideológica e pragmatismo político, algo essencial para ampliar alianças e consolidar um projeto eleitoral mais competitivo.
No entanto, a pré-candidatura de Expedito Netto pelo PT não altera apenas os planos do PSD e de Adaílton Fúria. Ela tende a se transformar em um eixo central do debate político estadual. O ex-deputado, atual secretário nacional de Pesca Industrial no Ministério da Pesca e Aquicultura, ligado ao governo federal, deverá representar em Rondônia o projeto político defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O entusiasmo da direção nacional do PT em relação à filiação de Netto foi manifestado publicamente pelo presidente da legenda, Edinho Silva, em vídeo divulgado nas redes sociais ao lado do político rondoniense. Na gravação, o dirigente afirmou que o presidente Lula está “muito feliz” com a chegada do ex-deputado ao partido e destacou que ele deverá representar no estado o projeto político defendido pelo governo federal, mencionando investimentos no agronegócio e iniciativas econômicas como o Plano Safra.
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No mesmo vídeo, Expedito Netto afirma que pretende trabalhar para transformar Rondônia e defende a ampliação do crescimento econômico no estado. O ex-deputado também elogia o presidente Lula ao afirmar que o país vive um momento de retomada econômica, com recordes na bolsa de valores, redução da taxa de desemprego e ampliação de investimentos em políticas públicas.
A entrada de Netto no PT, no entanto, tende a produzir um efeito político que vai além da disputa direta pelo governo estadual. Sua candidatura pode acabar funcionando como um trampolim ideológico para adversários que buscam nacionalizar o debate eleitoral. Em um ambiente polarizado, a presença de um candidato associado diretamente ao governo Lula oferece material político abundante para campanhas baseadas mais na contraposição ideológica do que na discussão de propostas administrativas para Rondônia.
Temas nacionais como Banco Master, CPMI do INSS, política fiscal, carga tributária ou decisões do Supremo Tribunal Federal tendem a ser trazidos para o centro da arena eleitoral estadual, muitas vezes deslocando o debate das questões concretas que afetam o cotidiano rondoniense. Nesse cenário, candidatos sem estrutura programática robusta, especialmente da famigerada direita chucra, como denomina o jornalista Reinaldo Azevedo, podem encontrar conforto em explorar a polarização política em vez de apresentar projetos claros para o futuro do estado. Importa registrar, contudo, que essa expressão não se refere à totalidade do campo conservador: trata-se de uma ala minoritária e ruidosa, distinta de outros segmentos da direita que abrigam quadros respeitáveis, intelectualmente consistentes, com boas ideias e orientação pragmática para a administração pública.
Assim, o tabuleiro eleitoral de 2026 começa a se desenhar a partir de dois polos simbólicos bastante nítidos. De um lado, o bolsonarismo consolidado em torno da candidatura de Marcos Rogério e respaldado pela presença de Flávio Bolsonaro. De outro, a aposta do PT na candidatura de Expedito Netto como representante do projeto político associado ao governo Lula.
Entre esses dois polos, o restante do campo político precisará encontrar espaço para construir uma narrativa própria. O risco, no entanto, é que a eleição estadual se transforme em uma arena dominada por disputas ideológicas nacionais, onde o debate sobre o futuro administrativo de Rondônia acabe sendo empurrado para o segundo plano.



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