| ● CONTEXTO HISTÓRICO DA IMAGEM “Alemães! Defendam-se! Não comprem de judeus!” À esquerda, uma vitrine em Berlim, em 1933, marcada pela propaganda nazista de boicote aos comerciantes judeus. À direita, uma lista contemporânea intitulada “Empresários que apoiam o PT”, representando episódios de identificação e exposição de comerciantes por suas posições políticas no Brasil. Separadas por quase um século, as imagens evidenciam semelhanças nos mecanismos de estigmatização e incentivo à exclusão econômica de grupos considerados adversários. Embora os contextos históricos e a gravidade dos acontecimentos não sejam equivalentes, a comparação chama atenção para os riscos da intolerância quando divergências políticas se transformam em campanhas de constrangimento e perseguição econômica. CRÉDITO DA IMAGEM · Montagem ilustrativa: fotografia histórica de 1933, de autoria desconhecida, e reprodução de lista contemporânea com nomes ocultados. |
PORTO VELHO, RO – Em 1º de abril de 1933, os nazistas identificaram estabelecimentos pertencentes a judeus, posicionaram militantes diante das vitrines e convocaram os alemães a não comprar daqueles comerciantes. Noventa e três anos depois, em Rondônia, grupos bolsonaristas divulgam listas de empresas e profissionais considerados petistas, recomendando que consumidores deixem de frequentar seus negócios. Mudaram os instrumentos, as motivações e as circunstâncias históricas, mas reaparece um método de exclusão econômica: identificar pessoas, expô-las publicamente e mobilizar terceiros para puni-las por suas diferenças. Na Alemanha, a perseguição antissemita organizada pelo Estado avançaria da discriminação para a segregação, os trabalhos forçados e o extermínio.
"Não compre nada e não dê nem água". A frase acompanha uma relação de aproximadamente 30 estabelecimentos e profissionais divulgada em Guajará-Mirim, num grupo de WhatsApp denominado "Patriotas", que reunia 536 participantes no registro noticiado. Campanhas semelhantes foram identificadas em Porto Velho e Vilhena depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026. Restaurantes, padarias, academias, salões e prestadores de serviços passaram a figurar em relações destinadas a orientar retaliações comerciais por preferências eleitorais reais ou presumidas.
A ofensiva não se restringe aos comerciantes. Em diferentes regiões do país, publicações passaram a recomendar que empregadores investiguem as redes sociais de seus funcionários para descobrir quem votou em Lula. O movimento ganhou expressões como "Demita um petista", transformando a escolha eleitoral em suposto critério de permanência no emprego. Há relatos de desligamentos, ameaças de dispensa e manifestações públicas de pessoas que afirmam ter demitido trabalhadores por razões políticas, algumas posteriormente contestadas pelos próprios autores.
Em Mato Grosso do Sul, uma ex-parlamentar chegou a afirmar nas redes sociais que havia demitido um funcionário e pretendia dispensar outros oito, utilizando a expressão "em nome de Jesus". Em outro episódio, um empresário declarou num grupo de WhatsApp ter demitido uma empregada doméstica por descobrir que ela apoiava Lula. Procurado pela imprensa, negou a demissão e disse que a declaração havia sido uma brincadeira. O episódio demonstra como a exposição pública da suposta punição trabalhista também passou a fazer parte da disputa política.
A gravidade ultrapassa a possibilidade de prejuízo financeiro. O comerciante deixa de ser avaliado por seus produtos e serviços para ser classificado por suas convicções. O trabalhador passa a temer que o voto determine sua permanência no emprego. A divergência política abandona o terreno das ideias e alcança o sustento de famílias.
Foi justamente pela exclusão econômica que o regime nazista promoveu uma de suas primeiras campanhas nacionais contra os judeus. Em abril de 1933, integrantes da organização paramilitar SA intimidavam consumidores diante de lojas e consultórios, enquanto cartazes e inscrições identificavam negócios judaicos. A Estrela de Davi, símbolo tradicional do judaísmo, foi apropriada como instrumento de estigmatização. O objetivo era transformar a origem dos proprietários numa advertência pública, estimulando seu isolamento comercial.
A perseguição não terminou naquele boicote. Em 1935, as Leis de Nuremberg institucionalizaram a discriminação racial. Em 1938, a Noite dos Cristais marcou uma escalada de violência contra sinagogas, residências e estabelecimentos judaicos. Durante a Segunda Guerra Mundial, vieram os guetos, a fome, os trabalhos forçados, as deportações e o genocídio de aproximadamente seis milhões de judeus. A Alemanha nazista demonstrou como uma política de exclusão, sustentada por propaganda, legislação e violência estatal, pode avançar até consequências devastadoras.
Não se pode — nem se deve — comparar o nazismo, em toda a sua dimensão histórica, ao fenômeno que ocorre atualmente no Brasil, como se fossem realidades equivalentes. O que se pode — e se deve — é apontar suas semelhanças, especialmente no começo, no nascedouro, na efervescência da intolerância, quando práticas aparentemente isoladas podem encontrar terreno fértil para se transformar, num futuro às vezes nem tão distante, em algo minimamente parecido com aquilo que a humanidade já testemunhou. Hoje, determinadas campanhas procuram destruir adversários políticos economicamente; amanhã, o desejo pode ser pela extinção de suas vidas. Essa possibilidade não pode ser tratada como exagero, tampouco como consequência inevitável. A história demonstra que a identificação pública de grupos, sua exclusão econômica, a perseguição sistemática e a desumanização podem integrar processos que culminam na violência e até no extermínio. Não significa que acontecerá novamente, mas que pode acontecer. É possível. Já ocorreu. E pode ocorrer de novo.
E há um precedente brasileiro no qual a semelhança chegou à própria estrela.
Em novembro de 2022, poucos dias depois da eleição de Lula, apoiadores de Jair Bolsonaro na cidade de Casca, no interior do Rio Grande do Sul, passaram a compartilhar mensagens recomendando que comerciantes petistas colocassem adesivos com a estrela vermelha do PT nas portas de seus estabelecimentos. A campanha circulou em grupos de WhatsApp e Telegram acompanhada de listas de empresas que deveriam ser boicotadas. Uma das mensagens incentivava os comerciantes a identificar seus negócios com a estrela partidária, sob a aparência de uma convocação para demonstrar orgulho pela escolha eleitoral.
A estratégia foi documentada pela GaúchaZH em 7 de novembro de 2022 e pelo UOL no dia seguinte. Segundo as reportagens, aproximadamente 20 estabelecimentos integravam uma relação de boicote. Mais de 120 negócios chegaram a fechar suas portas durante uma mobilização contrária ao resultado eleitoral, em meio a relatos de intimidação. As denúncias foram levadas ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que passou a examinar as mensagens e as pressões contra comerciantes e profissionais liberais.
A proposta de marcar estabelecimentos com estrelas conferiu ao episódio uma dimensão histórica particularmente perturbadora. O símbolo mudara. No lugar da Estrela de Davi, aparecia a estrela do Partido dos Trabalhadores. Mas a finalidade da campanha descrita nas reportagens era identificar negócios associados a um grupo rejeitado pelos organizadores e estimular a população a não comprar deles. A identificação pública funcionava como instrumento de segregação comercial.
O pesquisador Michel Gherman, ligado aos estudos judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, classificou o boicote e a proposta de marcar comerciantes como reprodução da linguagem nazista, em entrevista publicada pelo UOL em novembro de 2022. A análise aproxima os episódios pelo método utilizado: identificar um grupo, expô-lo publicamente e estimular seu isolamento econômico.
O episódio de Casca torna insuficiente tratar essa comparação apenas como uma imagem retórica distante. A proposta de utilizar uma estrela para identificar estabelecimentos apareceu efetivamente nas mensagens documentadas, assim como as listas e a convocação para que consumidores evitassem determinados negócios. A linguagem histórica da perseguição econômica encontrou uma nova manifestação, dirigida a pessoas identificadas por suas preferências partidárias.
O paralelo não depende de atribuir a todos os conservadores uma ideologia nazista. As práticas documentadas podem ser examinadas pelo que fizeram e pelo que propunham. Quando a identificação pública, a marcação de estabelecimentos e o boicote aparecem reunidos, a semelhança não é abstrata. Trata-se da reprodução de elementos concretos de um método histórico de estigmatização.
A intolerância que se manifesta no comércio e nas relações de trabalho também encontrou uma expressão particularmente perturbadora na assistência aos mais pobres. Depois do resultado eleitoral, empresas, empresários e organizações de diferentes regiões do país publicaram comunicados anunciando a suspensão ou o encerramento de ações sociais. As medidas divulgadas incluem doações de cestas básicas, brinquedos, roupas, materiais escolares e até medicamentos. Parte das mensagens associou a decisão à insatisfação com o resultado das urnas e com pessoas que recebem benefícios governamentais.
Em alguns comunicados, os responsáveis declararam estar cansados de ajudar quem, segundo eles, prefere depender do governo. Em outros, foram apresentadas preocupações financeiras e decisões de reorganização das atividades. A interrupção voluntária de doações possui circunstâncias distintas em cada caso. Mas transformar o auxílio aos necessitados em instrumento de protesto contra escolhas eleitorais expõe uma contradição moral que merece ser confrontada, especialmente quando a solidariedade é apresentada publicamente como demonstração de valores cristãos.
É difícil encontrar expressão mais distante do Evangelho do que a ideia de retirar alimento de quem tem fome porque um candidato venceu a eleição. Jesus Cristo se sentava à mesa com publicanos e pessoas consideradas pecadoras, acolhia os marginalizados, aproximava-se dos enfermos e ensinava a oferecer a outra face diante da agressão. Compartilhou pão com multidões, colocou o amor ao próximo no centro de seus ensinamentos e, na crucificação, dirigiu palavras de acolhimento a um condenado que estava ao seu lado. Nos Evangelhos, também reconheceu a possibilidade de redenção de prostitutas e cobradores de impostos, frequentemente desprezados pela sociedade de seu tempo.
O Cristo apresentado pelas Escrituras não exigia demonstração de fidelidade para alimentar os famintos. Não perguntava a preferência de quem procurava ajuda antes de estender a mão. A mensagem cristã de misericórdia, perdão e cuidado com os vulneráveis entra em conflito com a utilização da fome como instrumento de represália. Uma criança que depende de uma cesta básica não participou de disputa presidencial alguma. Uma pessoa com deficiência que necessita de medicamentos não pode ser transformada em destinatária da frustração eleitoral de quem antes anunciava ajudá-la.
A caridade convertida em recompensa por obediência deixa de representar o amor desinteressado ao próximo e passa a funcionar como instrumento de poder. A ajuda exibida como troféu nas redes sociais, acompanhada posteriormente de anúncios de sua retirada por ressentimento político, convida a uma reflexão incômoda sobre os limites daquele altruísmo. Solidariedade que exige concordância ideológica se aproxima mais de uma relação de submissão do que do compromisso cristão de amparar quem necessita.
Há uma contradição especialmente evidente quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar a hostilidade. Invocar Jesus Cristo ao anunciar demissões, enquanto se despreza a condição de quem depende do salário para alimentar a família, confronta diretamente o ensinamento de amor ao próximo. A fé professada em público não ganha consistência pelo número de versículos compartilhados, pela exposição de símbolos religiosos ou pela frequência com que o nome de Deus aparece numa publicação. Sua dimensão moral também se revela na maneira como são tratados aqueles que discordam, dependem de ajuda ou se encontram em situação de vulnerabilidade.
A fome não tem partido. A doença não escolhe candidato. A infância não distingue esquerda de direita. Quando a assistência a essas necessidades passa a depender de ressentimentos eleitorais, o problema já não está apenas na polarização política. Está na substituição da compaixão por uma lógica de castigo, em que a miséria alheia se transforma em oportunidade para demonstrar inconformismo diante do resultado das urnas.
Rondônia já experimentou consequências desse comportamento. Depois das eleições de 2022, manifestações contrárias à vitória de Lula provocaram bloqueios de rodovias, interrupções de atividades e pressões sobre comerciantes. Em Colorado do Oeste, participantes das mobilizações chegaram a exigir demonstrações públicas de alinhamento político. Uma profissional foi pressionada a comparecer aos protestos e publicar símbolos favoráveis a Jair Bolsonaro, sob ameaça de consequências econômicas para seu estabelecimento.
O episódio integrou o processo nº 7002530-61.2022.8.22.0012, que reuniu denúncias relacionadas aos bloqueios na BR-435 e a constrangimentos durante as manifestações. Depoimentos também mencionaram listas de boicote contra pessoas consideradas contrárias ao movimento. A lógica era reveladora: quem não aderisse às manifestações poderia ser classificado como petista e sofrer represálias. Até comerciantes que compartilhavam preferências eleitorais com os manifestantes, mas discordavam dos bloqueios, podiam enfrentar hostilidade.
A pressão para demonstrar fidelidade política transformava a neutralidade em suspeita e a discordância em motivo para punição. Os acontecimentos antecederam os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília, durante um período de intensa contestação ao resultado eleitoral.
O caso rondoniense teve consequências judiciais concretas. Em junho de 2023, sete acusados foram condenados criminalmente. Após o julgamento das apelações, em setembro de 2024, o Tribunal de Justiça de Rondônia manteve as sete condenações por associação criminosa, embora tenha reformado outras imputações e reduzido penas. Os condenados receberam penas de dois a quatro anos de reclusão. O Tribunal também reconheceu tentativa de constrangimento ilegal contra a profissional pressionada a demonstrar apoio político.
As decisões fixaram reparação mínima de R$ 5 mil por condenado pelos danos coletivos, totalizando R$ 35 mil, além de R$ 2 mil à vítima do constrangimento reconhecido. A existência de penas de reclusão não significa que todos tenham sido efetivamente encarcerados, mas demonstra que a atuação criminosa naquele contexto produziu responsabilização penal e obrigações reparatórias.
Quatro anos depois, a intolerância eleitoral retorna também às relações de trabalho. Publicações nas redes sociais passaram a incentivar empresários a dispensar funcionários identificados como eleitores de Lula. O Ministério Público do Trabalho informou, na última terça-feira, 27, ter recebido 2.364 denúncias de assédio eleitoral naquele ano, incluindo 427 novos registros contabilizados após o encerramento da votação. As comunicações abrangem diferentes situações e dependem de apuração, mas revelam a dimensão nacional do problema.
A legislação prevê consequências. A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho. Uma dispensa reconhecida judicialmente como discriminatória pode resultar em reintegração, com ressarcimento das remunerações do afastamento, ou pagamento em dobro da remuneração correspondente ao período, além de eventual indenização por dano moral. Conforme a infração, também existem multas administrativas e outras sanções. Ameaças e constrangimentos podem configurar crimes previstos no Código Penal.
As autoridades já adotam medidas concretas. No Rio de Janeiro, uma decisão da Justiça do Trabalho, também proferida ontem, determinou a retirada de publicações que incentivavam demissões por preferência política, estabelecendo multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento. Na ação, o Ministério Público do Trabalho também pediu indenização de R$ 500 mil por dano moral coletivo, valor ainda sujeito a julgamento.
No Paraná, o Ministério Público do Trabalho recomendou que um deputado federal eleito se retratasse por publicações incentivando empresários a demitir empregados considerados petistas. O órgão exigiu a interrupção da divulgação de mensagens dessa natureza e advertiu sobre possíveis providências administrativas e judiciais. A atuação demonstra que a exposição pública da perseguição, apresentada por alguns como demonstração de inconformismo político, também pode provocar intervenção institucional.
Em Rondônia, trabalhadores ameaçados ou demitidos por suas convicções podem denunciar ao Ministério Público do Trabalho da 14ª Região, pelo endereço https://peticionamento.prt14.mpt.mp.br/denuncia. Mensagens, áudios, documentos, registros de ameaças e testemunhas podem auxiliar a investigação. A instituição admite solicitações de sigilo e denúncias anônimas nas condições de seus procedimentos. Sindicatos e assistência jurídica também podem orientar trabalhadores sobre pedidos de reintegração e reparação.
A liberdade de escolher onde comprar não autoriza ameaças, coações ou discriminação ilícita. Tampouco a preferência partidária de um empresário justifica que seus funcionários e fornecedores sejam transformados em vítimas indiretas de campanhas de retaliação. Esses princípios devem proteger igualmente petistas, bolsonaristas e cidadãos de qualquer outra orientação política.
A história do nazismo recorda as consequências da institucionalização do ódio e da transformação de grupos humanos em inimigos a serem excluídos. Rondônia, por sua vez, possui um precedente judicial recente demonstrando que a intimidação política pode ultrapassar o discurso, provocar danos concretos e terminar em condenações criminais.
A estrela que paira simbolicamente sobre Rondônia não depende de tinta nas vitrines. Está nas relações utilizadas para identificar comerciantes, nas campanhas destinadas a afastar clientes e nas ameaças contra quem trabalha. A experiência de 1933 ensina a reconhecer os mecanismos da exclusão. O episódio de Casca, em 2022, demonstra que até a ideia de marcar estabelecimentos com estrelas voltou a circular no Brasil, agora associada à identificação de supostos eleitores do PT.
Há também uma responsabilidade que não cabe exclusivamente aos tribunais. A sociedade precisa examinar a distância entre os valores que proclama e os comportamentos que pratica. Não é coerente defender a família e estimular que trabalhadores sejam privados de sua renda por causa do voto. Não é coerente apresentar a caridade como missão religiosa e utilizar sua suspensão como punição simbólica pelo resultado de uma eleição. Não é coerente invocar o perdão cristão e transformar adversários políticos em pessoas indignas de ajuda.
A fé cristã possui diferentes expressões políticas, mas seus ensinamentos centrais sobre misericórdia e amor ao próximo não dependem da vitória de um candidato. A própria parábola do bom samaritano confronta a ideia de que a solidariedade deve ser reservada aos integrantes do mesmo grupo. O auxílio é prestado justamente por alguém de uma comunidade desprezada por aquela à qual pertencia o homem ferido. A lição ultrapassa pertencimentos e hostilidades coletivas.
A imagem do samaritano socorrendo um desconhecido contrasta com os comunicados que anunciam a retirada de ajuda por descontentamento político. Um procura atender à necessidade humana apesar das diferenças. Os outros, quando condicionam a solidariedade à concordância eleitoral, transformam essas diferenças em justificativa para negar auxílio. Essa contradição merece ser enfrentada sobretudo por quem faz da identidade cristã um elemento central de sua apresentação pública.
A nova medida de tentativa de boicote em Rondônia representa, portanto, mais do que um alerta sobre listas comerciais. Ela convida a reconhecer a intolerância que se manifesta quando o emprego, o sustento, a reputação e até a ajuda aos necessitados passam a ser tratados como instrumentos de disputa política.
Sete pessoas receberam condenações criminais pelos acontecimentos de 2022. Em 2026, autoridades já investigam novas ameaças, buscam interromper publicações discriminatórias e recorrem à Justiça para exigir reparações.
O recado institucional é concreto: o voto de um cidadão não concede a terceiros o direito de ameaçá-lo, constrangê-lo ou submetê-lo à discriminação ilícita. Quando a divergência política atravessa os limites da lei, as consequências podem incluir condenações criminais, penas de reclusão, multas, indenizações e reintegrações trabalhistas. Em Rondônia, a história recente demonstra que essas consequências podem sair do papel e alcançar os responsáveis.
O recado moral é igualmente importante. A liberdade de escolher um candidato não elimina a obrigação humana de reconhecer a dignidade de quem escolheu outro. Quem utiliza o nome de Cristo para apresentar a própria fé precisa confrontar seus atos com a mensagem de misericórdia que afirma seguir. O pão repartido com os famintos, o acolhimento dos desprezados e o ensinamento de amar o próximo não foram condicionados à vitória de qualquer disputa terrena.
A democracia não pode ser submetida à intolerância dos que não aceitam o voto alheio. E a fé cristã não encontra sua expressão mais profunda na punição dos adversários, mas na capacidade de reconhecer humanidade até naqueles de quem se discorda. Entre a mão que oferece pão e a mão que escreve uma lista para negar ajuda, existe uma escolha moral que nenhuma derrota eleitoral é capaz de justificar.


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