PORTO VELHO, RO - Sofia Andrade (PL), vereadora de Porto Velho e deputada federal eleita, tem todo o direito de pedir votos para Flávio Bolsonaro. Pode fazer campanha, criticar Lula, defender seu partido e tentar convencer o prefeito Léo Moraes (Podemos) a acompanhá-la. O problema começa quando convencer parece insuficiente e a parlamentar passa a exigir uma demonstração pública de obediência. “Quem quer o voto da direita tem que pedir o voto por Flávio Bolsonaro 22 agora”, declarou. Reparem no verbo e no prazo: tem que fazer. Agora. Quem lhe conferiu essa autoridade?
A cobrança vem acompanhada de uma sentença: “Quem fica em cima do muro, quando cai, cai pra esquerda”. É uma maneira conveniente de interditar qualquer escolha que escape ao roteiro da vereadora. O prefeito precisa falar quando ela determina, nos termos que ela estabelece, sob pena de receber o carimbo de esquerdista. A convicção alheia só parece ter valor depois de submetida à fiscalização de Sofia.
Na coluna Resenha Política, publicada nesta quinta-feira (22), o jornalista Robson Oliveira classificou a abordagem como constrangimento público e apontou uma contradição: segundo os posicionamentos anteriores mencionados pelo colunista, Léo já teria declarado seu apoio a Flávio. Se esse apoio já existe, a cobrança perde o objeto eleitoral e ganha outro significado. Passa a importar menos o voto do prefeito do que a capacidade de fazê-lo responder à convocação.
Mesmo que Léo não tivesse declarado coisa alguma, continuaria sendo dele a decisão sobre como participar da campanha. Um prefeito pode ser cobrado por suas escolhas e criticado por suas omissões. Sofia também pode ser questionada sobre a pretensão de estabelecer uma espécie de controle de qualidade ideológica dos demais. Ter sido eleita deputada federal não lhe dá ascendência sobre o mandato municipal.
Rubens Coutinho, editor do Tudo Rondônia, resumiu sua crítica dizendo que Sofia não se elegeu “imperadora de Rondônia”. A imagem encontra correspondência na postura de quem parece tratar a própria vontade como orientação obrigatória para os outros. Mas o episódio mais revelador dessa confusão aconteceu longe do gabinete do prefeito, diante de um cidadão na rua.
Na gravação comentada pelo influenciador Rato Andrade, Sofia repete ao microfone: “O senhor é a cara do PT”. Em seguida, transforma as compras do homem em argumento de campanha: “Três sacolinhas porque o PT roubou o resto”. A parlamentar dispõe de som amplificado e de audiência. O cidadão tem suas sacolas e o direito de seguir a vida sem virar personagem involuntário de uma provocação política.
Que informação as compras daquele homem permitem concluir sobre sua vida? Sofia conhece sua renda, suas necessidades, o que havia em casa? A quantidade de sacolas não responde a nenhuma dessas perguntas. Serve apenas de pretexto para uma frase de efeito, produzida à custa de alguém que está ao alcance do microfone.
Ao responder à crítica de Rato, a deputada eleita afirmou que estava na rua pedindo “fora PT” para ajudar aquele senhor a comprar o que quisesse no supermercado. A justificativa não enfrenta o problema. Defender uma política econômica, combater um governo ou prometer melhores condições de vida não concede licença para expor uma pessoa ao deboche. A intenção de ajudar precisa ser compatível com a maneira de tratar quem supostamente receberá a ajuda.
Na mesma resposta, Sofia disse que lutará pelo direito de expressão do influenciador. É um compromisso que merece ser cobrado na prática. A liberdade política inclui a manifestação de quem discorda, a autonomia de quem escolhe outra forma de fazer campanha e o direito de quem simplesmente não deseja participar da encenação.
Em vídeo publicado nas redes sociais para explicar o episódio, Sofia sustentou que sua fala se referia à situação econômica do cidadão. Segundo ela, o homem fazia o gesto do “L”, e suas três sacolas representariam as dificuldades de quem compra o que pode, em vez do que deseja. A parlamentar atribuiu esse cenário ao PT, classificou as críticas como “indignação seletiva” e reafirmou a cobrança por posicionamento na disputa presidencial. “Quase 38 mil rondonienses me conferiram a obrigação de falar a verdade”, declarou.
A explicação apresenta a interpretação que Sofia diz ter dado à cena, mas não resolve a questão do tratamento dispensado ao homem. Mesmo que ele estivesse manifestando apoio a Lula, continuaria tendo direito ao respeito. E os votos recebidos pela deputada eleita lhe conferem representação política, sem transformar suas interpretações em verdades acima de contestação. Criticar a abordagem de uma parlamentar tampouco obriga ninguém a apresentar, antes, um inventário de indignações sobre todos os demais problemas do país.
Não é preciso adivinhar uma candidatura futura à Prefeitura para avaliar o que está diante dos olhos. Eventuais ambições municipais pertencem ao terreno das hipóteses. A cobrança ao prefeito e a abordagem ao cidadão já oferecem material suficiente para discutir a relação da parlamentar com os limites do próprio poder.
Sofia conquistou um mandato e terá uma tribuna para defender suas posições. Quanto maior essa tribuna, maior a responsabilidade por seu uso. O prefeito não lhe deve obediência. O homem das sacolas não lhe deve explicações. E os dois, como qualquer cidadão de Porto Velho, têm o direito de não caber no roteiro que ela escreveu.


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