PORTO VELHO, RO - O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 provocou uma reação que parte da própria militância petista de Rondônia não esperava. Acostumados a enfrentar dificuldades eleitorais em um estado de forte identificação com o bolsonarismo, dirigentes e apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegaram ao dia 04 de outubro com expectativas que não se confirmaram nas urnas.
O presidente não conseguiu encerrar a disputa nacional na primeira etapa e, pior para seus aliados, terminou atrás de Flávio Bolsonaro (PL). A diferença desencadeou uma movimentação que ganhou as ruas de Porto Velho, alcançou municípios do interior e colocou jovens, coletivos sociais e lideranças históricas da esquerda novamente diante de uma campanha presidencial ainda indefinida.
No cenário nacional, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.503 votos, equivalentes a 47,03% dos válidos. Lula conquistou 53.879.538, correspondentes a 45,16%. A vantagem do candidato do PL alcançou 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual. Embora a diferença nacional tenha sido relativamente pequena, suficiente para levar a definição da Presidência ao segundo turno de 25 de outubro, a situação encontrada pelos petistas em Rondônia foi consideravelmente mais desfavorável.
O estado apresentou um resultado singular no país. Flávio Bolsonaro venceu nos 52 municípios rondonienses, sem exceção, fazendo de Rondônia a única unidade da Federação em que o candidato do PL terminou à frente de Lula em todas as cidades. Foram 652.988 votos para Flávio, ou 67,45% dos válidos, diante de 250.667 para o presidente, equivalentes a 25,89%. A distância de 402.321 votos, correspondente a 41,56 pontos percentuais, dimensionou o tamanho da dificuldade enfrentada pela esquerda local.
Na capital, onde o PT mantém lideranças históricas, representantes eleitos e parte de sua estrutura de organização, o cenário também foi amplamente favorável ao bolsonarismo. Flávio Bolsonaro conquistou 169.992 votos em Porto Velho, representando 59,37% dos válidos, enquanto Lula recebeu 90.889, ou 31,74%. A diferença de 79.103 votos e 27,63 pontos percentuais demonstrou que a tarefa dos apoiadores do presidente não seria apenas manter o eleitorado já conquistado, mas tentar ampliar sua presença em uma cidade onde a maioria dos votos havia sido destinada ao adversário.
A resposta começou a ganhar forma fora das estruturas convencionais do partido. No domingo, 11 de outubro, exatamente uma semana depois do primeiro turno, uma grande manifestação em defesa da reeleição de Lula percorreu as ruas centrais de Porto Velho. Milhares de pessoas participaram da caminhada, que reuniu estudantes, professores, familiares, militantes e integrantes de movimentos sociais. Não houve estimativa oficial de público, mas a dimensão da mobilização surpreendeu até personagens acostumados a acompanhar manifestações políticas na capital rondoniense.
A concentração ocorreu na Praça das Três Caixas d'Água, de onde os participantes seguiram pela Avenida Presidente Dutra, passaram pela Rua 7 de Setembro e pela Avenida Percival Farquhar, retornando posteriormente ao local de partida. Bandeiras, cartazes, manifestações culturais e palavras de ordem marcaram a atividade, que ganhou repercussão nas redes sociais e passou a representar uma mudança de comportamento entre setores da esquerda depois da votação de 04 de outubro.
O protagonismo, entretanto, não pertenceu originalmente à direção do PT. A caminhada foi organizada por sete coletivos juvenis e estudantis que se articularam após o primeiro turno, incluindo movimentos como Juventude de Rondônia, Marcha pela Democracia e Jovens pela Cultura. A estrutura partidária colaborou com segurança, equipamentos e carro de som, mas a iniciativa de convocação e organização partiu dos próprios jovens, uma circunstância politicamente importante para compreender a reação progressista.
Em entrevista exclusiva concedida ao Rondônia Dinâmica, publicada em 12 de outubro, a jornalista Luciana Oliveira, candidata ao Senado pelo PT, procurou esclarecer essa diferença. "Eu acho que é importante destacar que esse não é um movimento do PT. Foi uma grande manifestação puxada, organizada pela juventude de Rondônia", declarou.
Luciana recebeu 96.391 votos na disputa pelo Senado, equivalentes a 5,40% dos válidos, e terminou na quinta colocação. Apesar de não conquistar uma das duas cadeiras, permaneceu envolvida nas atividades políticas voltadas à reeleição de Lula. Na manifestação de Porto Velho, participou da mobilização e acompanhou a presença de estudantes, pais, militantes históricos e pessoas que não integravam necessariamente a organização tradicional do partido.
A ex-candidata também explicou que os sete grupos passaram a atuar conjuntamente depois da primeira etapa da eleição, enquanto o PT ofereceu o apoio necessário à realização da caminhada. Sua interpretação foi a de que a manifestação conseguiu ultrapassar as fronteiras da militância partidária, reunindo diferentes gerações e pessoas dispostas a participar da campanha presidencial.
O fenômeno chamou atenção porque a esquerda rondoniense, apesar de manter organizações políticas e sociais ativas, não havia demonstrado durante o primeiro turno a mesma intensidade de mobilização pública que passou a apresentar nos dias seguintes à votação. A diferença entre a expectativa anterior e o resultado efetivo ajuda a explicar por que o ato de 11 de outubro adquiriu importância para seus participantes.
Uma das pessoas surpreendidas foi Fátima Cleide, ex-senadora da República e deputada estadual eleita pelo PT com 13.868 votos, equivalentes a 1,47% dos válidos. Integrante de uma geração política que participou de mobilizações populares desde os anos 1980, Fátima comparou o movimento com manifestações históricas realizadas na capital.
"Há muito tempo eu não via uma manifestação tão grande nas ruas de Porto Velho, né?", afirmou ao Rondônia Dinâmica.
A parlamentar eleita mencionou as campanhas pelas eleições diretas e as grandes greves de décadas anteriores ao comentar a dimensão da caminhada. Mais do que a quantidade de participantes, chamou sua atenção a disposição da juventude de sair das redes sociais e assumir uma participação presencial na disputa política.
"A moçada resolveu se manifestar também. Entendeu que não dá para ficar parado de braços cruzados na internet, que é preciso tomar a internet e tomar também as ruas, né?", declarou Fátima Cleide.
O comentário ganha significado diante da trajetória eleitoral da própria parlamentar. Depois de exercer mandato no Senado, Fátima conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Rondônia em 2026 e, encerrada sua eleição, permaneceu associada à mobilização pela reeleição de Lula. Sua participação aproxima a experiência de antigos dirigentes petistas de uma geração de ativistas que assumiu a iniciativa das manifestações.
Outra representante do partido com presença política no período é Cláudia de Jesus, reeleita deputada estadual com 24.383 votos, equivalentes a 2,58% dos válidos. Com Fátima Cleide, ela integra a bancada de duas parlamentares que o PT terá na Assembleia a partir de 2027. Cláudia também manifestou apoio às mobilizações, reconhecendo a participação de estudantes, professores e integrantes dos movimentos sociais.
As duas deputadas representam uma parcela da esquerda que conseguiu conquistar mandatos mesmo diante do desempenho amplamente favorável aos partidos de direita na eleição estadual. A continuidade de sua atuação na campanha presidencial demonstra que, para parte das lideranças petistas, a conquista de uma cadeira parlamentar não significou o encerramento das atividades eleitorais.
A presença de Luciana Oliveira acrescenta outra dimensão a esse movimento. Diferentemente das duas deputadas, ela terminou a eleição sem mandato, mas continuou participando publicamente das ações pela reeleição do presidente. Sua atuação aproxima os candidatos derrotados dos grupos que permaneceram mobilizados, apesar do resultado desfavorável nas disputas estaduais.
O despertar da militância foi reconhecido de maneira ainda mais explícita por Ramon Cujuí, secretário estadual de Movimentos Populares do PT em Rondônia. Também ouvido pelo Rondônia Dinâmica, o dirigente apresentou uma explicação sobre o comportamento dos apoiadores de Lula antes e depois do primeiro turno.
"Olha só, me parece que havia uma certa acomodação, havia até um sentimento de vitória no primeiro turno e que o resultado espantou, deu um susto em todo mundo", afirmou.
A declaração é reveladora porque parte de um integrante da própria organização partidária. O susto mencionado por Ramon não se refere apenas à ampla vantagem obtida por Flávio Bolsonaro em Rondônia, onde esse campo político já demonstrava grande força eleitoral, mas principalmente ao fato de Lula ter terminado atrás do adversário na disputa nacional.
Na prática, parte da esquerda passou a considerar necessária uma participação que não poderia ficar restrita às publicações digitais ou à expectativa de que a candidatura presidencial se sustentasse sem maior presença nas ruas. A reação envolveu o PT, organizações estudantis e setores progressistas de diferentes origens, interessados em ampliar a mobilização durante as três semanas que separam o primeiro turno da votação definitiva.
Ramon também destacou a intenção de permitir que movimentos sociais e coletivos assumissem maior protagonismo, em vez de subordinar todas as iniciativas à direção partidária. A estratégia declarada era ampliar a participação de pessoas que não necessariamente possuem filiação política, mas se identificam com a candidatura de Lula ou se opõem ao bolsonarismo.
Esse ambiente também reúne figuras da esquerda vinculadas a outras legendas, como Neidinha Suruí, do PSB, além de militantes de organizações populares, culturais e estudantis. A existência de diferentes correntes dentro da mobilização demonstra que a campanha presidencial passou a funcionar como ponto de convergência entre grupos que nem sempre compartilham a mesma estrutura partidária.
A marcha de 11 de outubro não foi concebida como uma atividade isolada. Na sequência, o PT de Rondônia passou a divulgar uma agenda unificada de manifestações e eventos de apoio à reeleição presidencial, com atividades programadas entre os dias 16 e 24 de outubro. A iniciativa reuniu atos de rua, encontros culturais, mobilizações de mulheres, manifestações de juventude, pedaladas e ações de divulgação da candidatura.
Em Porto Velho, a programação incluiu o Baile da Democracia, realizado no Bar do Calixto, na última sexta-feira, 16, além da convocação de atividades voltadas à participação feminina no sábado, 17 de outubro. Para a mesma data, foi divulgado um ato em Rolim de Moura, na Praça Durvalino de Oliveira.
Para o domingo, 18, estão previstas manifestações em Ariquemes, Ji-Paraná, Cacoal e Guajará-Mirim, além do PedalLula, com concentração na Praça das Caixas d'Água, em Porto Velho. A programação também contempla Candeias do Jamari, no dia 22, atividades culturais na capital no dia 23 e um ato de rua organizado pela juventude na Praça Aluízio Ferreira, no dia 24, véspera da eleição presidencial.
A distribuição das atividades evidencia uma tentativa de levar a mobilização para além de Porto Velho. Municípios onde Flávio Bolsonaro venceu com ampla vantagem passaram a integrar a agenda dos apoiadores do presidente, demonstrando que a esquerda pretende manter presença política mesmo em localidades onde o resultado do primeiro turno foi desfavorável.
A diversidade dos eventos também constitui uma característica dessa reorganização. Em vez de depender exclusivamente de comícios ou encontros partidários, os organizadores passaram a divulgar manifestações de caráter cultural, esportivo e comunitário, procurando aproximar a disputa eleitoral de diferentes segmentos da população.
Nada disso, evidentemente, significa que o resultado do segundo turno em Rondônia esteja sendo alterado por essas atividades. A participação em uma marcha não pode ser confundida com transferência automática de votos, assim como a presença de jovens nas ruas não representa necessariamente uma mudança de preferência do eleitorado majoritário. O que as manifestações demonstram é uma disposição de atuação política que ganhou intensidade depois de 04 de outubro.
E é justamente nesse momento de reorganização que a postura pública de Expedito Netto se transforma em uma questão relevante dentro do próprio PT.
O ex-deputado federal foi o candidato do partido ao Governo de Rondônia e recebeu 72.851 votos, correspondentes a 7,71% dos válidos. Terminou em quarto lugar, atrás de Marcos Rogério, do PL, que venceu a disputa com 537.370 votos e 56,86%; Adailton Fúria, do PSD, que alcançou 189.547 votos e 20,06%; e Hildon Chaves, do União Brasil, que recebeu 134.355 votos e 14,22%.
Expedito representou o PT na principal disputa estadual, depois de uma trajetória que inclui mandatos na Câmara dos Deputados e o igresso à Secretaria Nacional de Pesca Industrial, vinculada ao Ministério da Pesca e Aquicultura da gestão Lula. Sua candidatura estava associada ao campo governista, fazendo dele uma das principais figuras da legenda na eleição rondoniense.
Encerrado o primeiro turno, porém, o ex-deputado praticamente desapareceu da cena pública relacionada à campanha presidencial. Em 04 de outubro, publicou uma mensagem agradecendo os votos recebidos. Depois disso, sua atividade identificável no Instagram oficial limitou-se a uma publicação colaborativa, aceita em 13 de outubro, originada de outro usuário e relacionada à votação em uma aldeia indígena.
Até 17 de outubro, seu perfil não exibia participação na grande caminhada da juventude em Porto Velho, convocação para as manifestações seguintes, presença nas atividades partidárias ou envolvimento público com a programação organizada para apoiar Lula no segundo turno.
O contraste é expressivo. Fátima Cleide, eleita deputada estadual, participa da reorganização. Cláudia de Jesus, reeleita para a Assembleia, manifesta apoio às iniciativas. Luciana Oliveira, derrotada para o Senado, permanece envolvida nas atividades públicas. Ramon Cujuí atua na articulação entre partido e movimentos populares. Os coletivos juvenis se encarregam de convocar novos atos e levar a mobilização para municípios do interior.
Expedito Netto, que carregou o número 13 na disputa pelo Governo e obteve quase 73 mil votos, permanece distante dessa movimentação pública.
A comparação com Luciana Oliveira é particularmente significativa. A candidata petista ao Senado recebeu 96.391 votos, superando a votação de Expedito em 23.540. São disputas diferentes, sem possibilidade de comparação direta de desempenho, mas ambas envolveram candidaturas majoritárias derrotadas. Apesar disso, a atuação pública dos dois depois de 04 de outubro seguiu caminhos distintos.
O ex-deputado não precisa necessariamente ocupar todas as manifestações, nem publicar diariamente para comprovar fidelidade partidária. A participação política pode ocorrer de diferentes maneiras. Entretanto, em uma campanha presidencial na qual os próprios dirigentes petistas reconhecem a necessidade de intensificar a presença nas ruas, a falta de exposição pública do candidato que representou a legenda ao Governo chama atenção.
A questão se torna ainda mais evidente porque o PT de Rondônia está tentando superar um resultado eleitoral bastante adverso. O partido elegeu duas deputadas estaduais, mas não conquistou o Governo nem uma vaga no Senado. Sua principal candidatura estadual ficou na quarta posição, enquanto a legenda agora procura ampliar a mobilização em favor do presidente da República.
Nesse contexto, a ausência pública de Expedito Netto não é apenas um detalhe de redes sociais. Trata-se de uma diferença de comportamento entre integrantes de um mesmo campo político, justamente quando a militância passou a reivindicar maior envolvimento de suas lideranças. Os motivos desse afastamento da exposição eleitoral não estão esclarecidos, mas a diferença entre sua postura pública e a de outros nomes petistas permanece evidente.
Na outra ponta da disputa, o bolsonarismo rondoniense apresenta uma dinâmica que combina vitórias já conquistadas com mobilização para uma eleição ainda aberta. O PL saiu do primeiro turno com o Governo do Estado, as duas vagas ao Senado e uma representação expressiva no Legislativo. Parte importante das principais lideranças eleitas passou a participar de atividades em favor de Flávio Bolsonaro, utilizando as estruturas políticas e os vínculos com eleitores construídos durante a própria campanha.
O governador eleito Marcos Rogério é um dos exemplos mais visíveis. Depois de conquistar 537.370 votos, equivalentes a 56,86% dos válidos, ele não interrompeu sua participação em atividades eleitorais. Ao contrário, passou a aparecer em carreatas, encontros com apoiadores e mobilizações em municípios de Rondônia, agora identificadas com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Seu Instagram oficial tornou-se uma vitrine dessa continuidade. Fotografias e vídeos apresentam o governador eleito acompanhado de correligionários, apoiadores e lideranças locais, utilizando camisetas amarelas, bandeiras nacionais e símbolos associados ao número 22. As publicações destacam atividades em diferentes localidades, incluindo Ariquemes, onde Marcos Rogério participou de carreatas e convocou apoiadores para a etapa final da disputa.
A linguagem da comunicação também passou a associar diretamente a vitória estadual à campanha presidencial. Em uma das publicações, Marcos Rogério utilizou a expressão "RONDÔNIA É 22 DE PONTA A PONTA!", relacionando a identidade política construída nas eleições locais ao apoio a Flávio Bolsonaro.
A mensagem demonstra a continuidade pretendida pelo grupo. O governador eleito já possui mandato assegurado para os próximos quatro anos, mas sua imagem permanece vinculada ao projeto político nacional representado pelo candidato do PL. Em suas atividades, a vitória em Rondônia funciona como referência para a participação no segundo turno presidencial.
Essa situação apresenta uma diferença importante em relação ao primeiro turno. Marcos Rogério não precisa mais convencer o eleitorado a escolhê-lo para governador. Sua presença nas ruas agora está associada à candidatura de outro político, ainda que pertencente ao mesmo campo partidário. O capital eleitoral acumulado na disputa estadual passa a integrar a estrutura de mobilização nacional.
O mesmo comportamento pode ser observado em Fernando Máximo, eleito senador com 570.799 votos, correspondentes a 31,97% dos válidos na disputa pelas duas vagas. Sua votação foi numericamente superior à de Marcos Rogério, embora as regras eleitorais dos dois cargos sejam distintas.
Depois de garantir uma cadeira no Senado, Fernando Máximo continuou percorrendo municípios rondonienses e participando de atividades de campanha. Seu Instagram apresenta uma sequência de convocações e registros de carreatas em localidades como Seringueiras, São Miguel do Guaporé, Pimenta Bueno, Cacoal, Rolim de Moura, Ouro Preto do Oeste, Alta Floresta do Oeste, Machadinho do Oeste e Ariquemes.
Em Seringueiras, o senador eleito agradeceu os 4.355 votos recebidos no município e relacionou sua presença na cidade à campanha de Flávio Bolsonaro. Em São Miguel do Guaporé, mencionou os 7.125 votos que conquistou e apresentou a continuidade das atividades eleitorais como parte de seu compromisso com os apoiadores.
Em Pimenta Bueno, também publicou conteúdo sobre a participação em atividades noturnas nas ruas. A presença de Fernando Máximo em diferentes municípios mostra uma estratégia de manutenção do contato com eleitores que acabaram de participar de sua própria eleição para o Senado.
O elemento mais relevante dessa movimentação é a continuidade da campanha depois de alcançado o objetivo individual. Fernando Máximo já está eleito, mas segue participando de carreatas, publicando convocações e associando sua imagem à candidatura de Flávio. Trata-se de uma atuação presencial que permite ao grupo bolsonarista manter parte de sua estrutura eleitoral mobilizada.
Bruno Scheid, segundo senador eleito pelo PL, também permanece envolvido na disputa presidencial. Com 474.226 votos, equivalentes a 26,56% dos válidos, conquistou a segunda vaga de Rondônia no Senado e passou a utilizar suas redes sociais para divulgar mensagens favoráveis a Flávio Bolsonaro, críticas a Lula e conteúdos associados ao bolsonarismo.
Seu Instagram apresenta publicações com o número 22, referências à identidade conservadora e mensagens de continuidade da mobilização política. Entre os conteúdos aparecem manifestações sobre o debate da escala de trabalho 6x1, críticas ao governo federal e materiais de apoio ao candidato presidencial do PL.
A atuação de Bruno Scheid acrescenta um componente digital ao movimento. Enquanto Marcos Rogério e Fernando Máximo aparecem frequentemente associados a carreatas e encontros presenciais, a comunicação do senador eleito também se concentra na difusão de mensagens políticas pelas redes sociais.
São formas distintas de participação dentro de um mesmo campo eleitoral. A campanha presidencial depende tanto da mobilização de pessoas nas ruas quanto da circulação de mensagens nos ambientes digitais. As publicações dos três eleitos demonstram a utilização simultânea dessas frentes por integrantes do PL rondoniense.
A representação bolsonarista também se estende à Câmara dos Deputados. Lúcio Mosquini, eleito pelo PL com 158.421 votos, equivalentes a 16,93% dos válidos, integra o conjunto de lideranças do partido que saíram fortalecidas das urnas. Coronel Chrisóstomo, também eleito pela legenda, recebeu 51.487 votos, enquanto Sofia Andrade conquistou uma cadeira com 37.984.
Os deputados federais eleitos representam outra parcela do capital político acumulado pelo PL em Rondônia. A legenda também conquistou sete das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa, consolidando a maior bancada partidária da próxima legislatura estadual.
A eleição de Marcos Rogério, Fernando Máximo e Bruno Scheid, somada à presença de deputados federais e estaduais ligados ao mesmo campo político, criou uma situação de concentração de representação que pode favorecer a organização de atividades de campanha. Isso não significa que todos estejam dedicando o mesmo esforço ao segundo turno, mas demonstra a dimensão da estrutura política disponível ao bolsonarismo depois das eleições estaduais.
É nesse ponto que surge um fenômeno peculiar dentro da própria direita: o monitoramento público da participação de políticos na campanha presidencial por meio do Flaviômetro.
A plataforma digital, disponível em flaviometro.com, acompanha manifestações de apoio a Flávio Bolsonaro nas redes sociais, reunindo informações sobre publicações de políticos de diferentes estados, partidos e cargos. A ferramenta permite selecionar governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais e prefeitos, apresentando indicadores sobre a frequência e o conteúdo das manifestações.
Seu funcionamento distingue políticos que mencionam Flávio Bolsonaro daqueles que pedem votos expressamente ao candidato. Também identifica integrantes que não realizaram publicações detectadas dentro de determinados períodos, organizando informações em painéis e classificações acessíveis ao público.
A plataforma passou a circular entre integrantes do bolsonarismo justamente em um momento de cobranças sobre a participação de políticos que já haviam conquistado seus próprios mandatos. A preocupação não é difícil de compreender: encerradas as eleições estaduais e parlamentares, a campanha presidencial depende de manter envolvidos representantes que já não precisam disputar diretamente uma vaga em 2026.
Nesse ambiente, o Flaviômetro funciona como uma espécie de placar público da mobilização digital. O político que publica e pede votos pode aparecer identificado como participante ativo, enquanto outro que permanece sem manifestações detectadas passa a integrar um grupo diferente. A classificação permite comparações entre aliados e oferece aos militantes informações que podem ser utilizadas em cobranças públicas.
A ferramenta também produz um componente de exposição política. Em uma disputa marcada pela valorização do engajamento nas redes sociais, a ausência de publicações passa a ser observada e comparada com o comportamento de outros integrantes do mesmo campo ideológico.
Isso não demonstra que exista uma orientação oficial para punir, constranger ou repreender parlamentares que apareçam entre os menos ativos. A autoria técnica e os objetivos internos da plataforma não estão estabelecidos de forma conclusiva. Entretanto, sua utilização cria condições para uma pressão política real: representantes que já conquistaram mandatos podem ser questionados sobre o empenho dedicado à candidatura presidencial.
O fenômeno não é exclusivo de Rondônia. Levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo em 16 de outubro apontou que aproximadamente 52% dos 1.521 políticos acompanhados pelo Flaviômetro não haviam mencionado Flávio Bolsonaro nas redes sociais nos dois dias anteriores. O percentual indica que a cobrança por maior participação encontra fundamento em diferenças efetivas de atividade digital, ainda que a ausência de publicações não signifique necessariamente afastamento de todas as ações de campanha.
No recorte de Rondônia, em uma janela de 24 horas consultada no dia 17 de outubro, a plataforma apresentava 37 políticos monitorados, dos quais 14 registravam manifestações relacionadas ao candidato. Entre os governadores incluídos, havia um participante em um universo de um. No grupo dos senadores, três de três. Entre os deputados federais, três de sete. No conjunto dos deputados estaduais, cinco de 14. Entre os prefeitos, dois de 12.
A diferença entre as categorias mostra que a presença digital identificada não é uniforme. Governador e senadores apresentavam participação no período, enquanto os índices entre deputados estaduais e prefeitos eram proporcionalmente menores. O painel, naturalmente, mede publicações captadas e classificadas pela ferramenta, não toda a atuação presencial ou reservada de cada político.
Mesmo com essa limitação, a lógica do Flaviômetro revela uma característica do segundo turno bolsonarista: além de mobilizar apoiadores, parte do movimento acompanha o comportamento de suas próprias lideranças. O engajamento passa a ser observado não apenas pelos adversários políticos, mas também por integrantes do mesmo campo eleitoral.
A comparação com a esquerda rondoniense é especialmente interessante. Entre os petistas, a reação ao primeiro turno foi impulsionada por coletivos juvenis, organizações sociais e dirigentes que reconheceram publicamente a acomodação anterior. No campo bolsonarista, representantes eleitos participam de carreatas e utilizam suas redes sociais em favor de Flávio Bolsonaro, enquanto uma plataforma digital permite verificar diferenças de atuação entre políticos ligados à candidatura.
De um lado, a derrota e a desvantagem eleitoral produziram uma reorganização da militância. Do outro, a vitória estadual não encerrou a participação de lideranças que permanecem envolvidas na campanha presidencial. Em ambos os casos, o desafio consiste em transformar estrutura partidária, presença pública e mobilização digital em votos no dia 25 de outubro.
Os números do primeiro turno demonstram que os dois grupos partem de posições distintas em Rondônia. Flávio Bolsonaro obteve 67,45% dos votos válidos no estado, venceu em todos os municípios e conta com o apoio público de figuras importantes que acabaram de conquistar mandatos. Lula recebeu 25,89% e depende de uma mobilização capaz de dialogar com eleitores que não escolheram o PT na primeira etapa, além de buscar maior comparecimento entre seus apoiadores.
Nenhuma dessas condições, isoladamente, permite antecipar o resultado da votação definitiva. Uma carreata não equivale a um voto conquistado, uma manifestação numerosa não representa necessariamente a opinião da maioria e a quantidade de publicações nas redes sociais não substitui a decisão individual do eleitor. O significado político dos movimentos está na maneira como cada grupo utiliza suas lideranças e organizações depois do primeiro turno.
O caso de Expedito Netto permanece como um contraste particular dentro desse cenário. Enquanto uma parcela expressiva dos representantes eleitos pelo PL continua participando da campanha de Flávio Bolsonaro, o candidato que representou o PT na disputa pelo Governo não aparece entre os protagonistas da mobilização pública pela reeleição de Lula. E isso ocorre justamente quando o partido tenta ampliar sua presença nas ruas e quando antigas lideranças reconhecem que a primeira etapa da eleição exigiu uma reação.
A ausência pública do ex-deputado também contrasta com o comportamento de Luciana Oliveira, derrotada para o Senado, e com a atuação de Fátima Cleide e Cláudia de Jesus, eleitas para a Assembleia. São trajetórias eleitorais diferentes, mas unidas pela mesma candidatura presidencial. Até o momento, entretanto, a participação de Expedito Netto não apresenta a visibilidade adquirida pelas demais lideranças petistas.
O segundo turno transformou Rondônia em um cenário de mobilizações paralelas. A esquerda tenta ampliar seu espaço com manifestações conduzidas pela juventude, coletivos e representantes partidários. O bolsonarismo procura aproveitar a presença de um governador e dois senadores recém-eleitos, além de deputados e outras lideranças, enquanto enfrenta suas próprias cobranças por engajamento.
O Governo de Rondônia já está definido. A Presidência da República, não. Até 25 de outubro, a campanha continuará expondo tanto a capacidade de mobilização dos dois campos políticos quanto o comportamento de seus principais representantes. Entre manifestações, carreatas, convocações e cobranças digitais, o estado apresenta uma disputa em que a eleição local terminou, mas a atividade eleitoral de seus personagens continua — com a notável exceção pública, até aqui, de Expedito Netto.


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