PORTO VELHO, RO – A disputa pelas duas vagas de Rondônia no Senado Federal deixou de ser apenas uma corrida congestionada para se transformar em um tabuleiro que já não corresponde integralmente às fotografias produzidas pelas principais pesquisas de 2026. Em poucas semanas, saiu de cena um senador que aparecia entre os primeiros colocados, consolidou-se politicamente uma candidatura que ainda depende de batalha jurídica, desapareceram pré-candidatos que chegaram a ser medidos pelos institutos e surgiram postulantes que simplesmente não existiam nos questionários apresentados aos eleitores em julho.
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É nesse cenário que dois movimentos, completamente diferentes entre si, embaralham ainda mais a eleição. De um lado está Acir Gurgacz, do PDT, ex-senador que retorna ao centro da discussão eleitoral sustentado por experiência política, estrutura partidária, memória eleitoral e uma estratégia essencialmente pragmática, embora sua situação jurídica continue sendo o ponto de interrogação mais importante de sua candidatura. Do outro está Thulio Santiago Castro, o Engenheiro Thulio, lançado pelo Partido Missão como mais uma alternativa dentro da Direita, entrando justamente num território em que já existem candidatos conhecidos, estruturas partidárias maiores e dois nomes do PL com presença eleitoral demonstrada: o deputado federal Fernando Máximo e Bruno Bolsonaro Scheid, pecuarista de Ji-Paraná cuja construção política está diretamente associada à proximidade com Jair Bolsonaro.
Nenhum dos dois fenômenos é irrelevante. Acir pode alterar a distribuição de forças principalmente porque a candidatura de Confúcio Moura deixou de existir. Thulio pode alterar o campo da Direita porque oferece ao mesmo eleitorado uma nova identidade política, vinculada ao Missão e ao ambiente do MBL, justamente quando Máximo e Scheid já disputam posições importantes dentro desse espaço.
A eleição, portanto, tornou-se simultaneamente mais pulverizada e mais difícil de interpretar.
A última pesquisa Real Time Big Data realizada antes dessa reorganização, nos dias 14 e 15 de julho, apresentava Fernando Máximo com 19% no resultado consolidado dos dois votos para o Senado, seguido por Sílvia Cristina, com 14%; Confúcio Moura e Bruno Bolsonaro Scheid, com 13% cada; Mariana Carvalho, com 12%; Acir Gurgacz, com 8%; Luís Fernando, com 4%; Luciana Oliveira e Nilton Souza, com 3% cada; e Neidinha Suruí e Anandreia Trovó, com 1%.¹ O levantamento ouviu 1.600 eleitores, tinha margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.¹
Essa fotografia continua sendo relevante para compreender de onde a campanha partiu. Para entender a eleição de agosto, contudo, ela precisa ser lida quase como uma fotografia de família na qual algumas pessoas já foram embora e outras chegaram depois do clique.
Confúcio Moura desistiu. Nilton Souza também desistiu da pré-candidatura. Anandreia Trovó, embora testada pela Real Time Big Data¹, não prevaleceu na composição final do campo que reuniu PT, PCdoB, PV, PSOL e Rede. No desenho efetivamente construído aparecem Luciana Oliveira, do PT, e Aires Mota, do PV. Thulio não foi pesquisado. Rosângela Cipriano, do PSB, também não. Aires igualmente ficou fora daquela sondagem. Assim, os percentuais permanecem válidos para a pergunta feita aos entrevistados naqueles dois dias de julho, mas não podem ser apresentados como fotografia precisa da relação atual de forças.
O caso de Nilton Souza é sintomático. O vereador de Porto Velho chegou a ser lançado pelo PSDB ao Senado e apareceu com 3% na pesquisa Real Time Big Data¹, mas posteriormente anunciou a desistência após decisão da Justiça Eleitoral relacionada a pendências financeiras do partido em Rondônia. Logo, seu percentual deve permanecer apenas como registro histórico daquela sondagem. Nilton não pode mais ser tratado como participante atual da corrida.
Com Confúcio, a mudança produz consequências muito maiores.
O senador do MDB não era um figurante no tabuleiro. A Real Time Big Data lhe atribuía 13%, exatamente o mesmo percentual de Bruno Scheid e cinco pontos acima dos 8% de Acir.¹ Na pesquisa do Instituto Amazônia, realizada entre 1º e 9 de julho, Confúcio aparecia com 24,93% na soma do primeiro e do segundo votos válidos, enquanto Gurgacz registrava 16,31%.² Fernando Máximo liderava aquela medição com 50,27%, seguido por Bruno Scheid, com 33,40%; Mariana Carvalho, com 30,79%; Sílvia Cristina, com 30,25%; Confúcio, com 24,93%; Acir, com 16,31%; Luís Fernando, com 10,90%; e Neidinha Suruí, com 3,15%.²
Esses percentuais do Instituto Amazônia² não podem ser comparados mecanicamente aos números da Real Time Big Data¹ porque as pesquisas apresentaram os dois votos ao Senado de maneiras diferentes. Ainda assim, há uma informação politicamente relevante presente nas duas: Confúcio estava à frente de Acir.
Cinco dias depois de ter a candidatura à reeleição homologada pelo MDB, Confúcio anunciou, em 31 de julho, que estava deixando a disputa. A justificativa apresentada foi a mudança das condições políticas e partidárias existentes quando havia decidido concorrer. A desistência retirou das urnas um senador em exercício que aparecia num bloco competitivo das pesquisas realizadas até então.
Isso não autoriza a conclusão simplista de que os votos de Confúcio irão para Acir.
Eleitor não é filiado a candidato. Intenção de voto não é herança. Não existe transferência automática de 13%¹ ou 24,93%² de uma coluna para outra.
Mas a retirada de Confúcio evidentemente desobstrui parte do espaço político em que Acir tenta se movimentar. Sai um político experiente, conhecido em todo o Estado, pertencente a uma legenda de centro e participante do mesmo processo de articulação que, até pouco tempo atrás, tentava reunir setores do centro e da esquerda rondoniense. Para Gurgacz, é objetivamente melhor disputar sem Confúcio do que disputar contra Confúcio, ainda que o eleitor tenha dois votos para o Senado. E o desempenho apresentado até aqui pelos candidatos identificados com a Direita nas principais pesquisas torna particularmente relevante para a centro-esquerda a retirada de um concorrente que disputava espaço dentro de uma faixa política semelhante.¹²
É aí também que termina, na prática eleitoral, aquilo que se pretendia construir com a Caminhada Esperança.
O movimento havia reunido MDB, PDT, PT, PSB, PCdoB, PV, PSOL e Rede em torno de uma tentativa de articulação do campo progressista e de centro-esquerda. Confúcio Moura e Acir Gurgacz chegaram a figurar entre as prioridades para as candidaturas majoritárias de 2026. O desenho pressupunha convergência. O que efetivamente chegou ao período das convenções foi fragmentação.
Confúcio saiu da eleição. O PDT homologou Acir. PT e PV construíram as candidaturas de Luciana Oliveira e Aires Mota. O PSB seguiu com duas mulheres para o Senado, Neidinha Suruí e Rosângela Cipriano. O projeto político que pretendia aproximar esses personagens não produziu uma candidatura senatorial concentrada. Produziu vários nomes concorrendo às mesmas duas vagas.
A Caminhada Esperança pode até permanecer como referência política ou histórica de articulação entre essas forças, mas, como estratégia eleitoral de concentração para o Senado, seu desenho original chegou ao fim.
E isso cria um paradoxo para a esquerda e a centro-esquerda.
Há diversidade de candidaturas, mas ainda não apareceu nas principais pesquisas anteriores uma candidatura desse campo com musculatura semelhante à demonstrada pelos primeiros colocados. Luciana Oliveira marcou 3% na Real Time Big Data¹. Neidinha Suruí apareceu com 1% na mesma pesquisa¹ e com 3,15% na soma dos dois votos válidos do Instituto Amazônia.² Aires Mota e Rosângela Cipriano não estavam nos questionários dessas medições. O PSB já havia lançado politicamente Rosângela e Neidinha como suas duas opções ao Senado.
A ausência de Aires e Rosângela nas pesquisas não significa que ambos possuam zero intenção de voto. Significa exatamente o contrário do que uma leitura apressada poderia sugerir: não existe medição que permita dizer qual é o tamanho eleitoral deles nesse novo cenário.
Mas existe um problema estratégico evidente.
Se todos permanecerem candidatos, Luciana Oliveira, Aires Mota, Neidinha Suruí, Rosângela Cipriano e o próprio Acir Gurgacz ocuparão, em diferentes graus e com diferenças partidárias importantes, um ambiente que anteriormente discutia convergência. Como cada eleitor pode votar em dois candidatos ao Senado, essa pulverização não funciona exatamente como numa eleição para governador, em que um voto dado a A necessariamente deixa de ser dado a B. Há espaço para combinações.
Ainda assim, fragmentação continua sendo fragmentação.
Cada candidatura precisa de estrutura, exposição, palanque, capacidade de comunicação e convencimento. Quanto mais nomes tentarem construir suas próprias trajetórias, maior será a dificuldade para que uma candidatura ainda pequena concentre rapidamente força suficiente para ultrapassar adversários que já chegaram a julho com dois dígitos nas pesquisas.
Esse quadro pode mudar, e provavelmente mudará quando a campanha efetivamente chegar ao eleitor. Mas, se permanecer próximo do formato atual, será muito difícil para figuras novas ou ainda pouco testadas se imporem diante de candidatos que começaram a corrida em patamares significativamente maiores.
É nesse espaço que Acir Gurgacz possui uma vantagem que os demais nomes do campo progressista não possuem na mesma proporção: ele já foi medido.
Na Real Time Big Data, tinha 8%.¹ No Instituto Amazônia, somava 16,31% considerando os dois votos válidos.² Não liderava nenhuma das duas pesquisas. Tampouco ocupava a zona mais alta formada por Máximo, Scheid, Sílvia, Mariana e, até sua retirada, Confúcio. Mas também não partia do ponto zero.
É justamente essa posição intermediária que torna sua candidatura pragmática.
Acir não precisa se apresentar a Rondônia como uma figura desconhecida. Precisa provar que continua eleitoralmente viável e, principalmente, solucionar a controvérsia jurídica que acompanha sua candidatura.
Esse ponto exige precisão.
O PDT homologou seu nome para o Senado. Em outra frente, a Procuradoria-Geral da República manifestou-se favoravelmente ao pedido de revisão criminal apresentado pelo ex-senador ao Supremo Tribunal Federal, defendendo a anulação da condenação. Essa manifestação constitui um elemento jurídico favorável à tese de Gurgacz, mas não equivale, por si só, a uma decisão final do Supremo.
Na Justiça Eleitoral de Rondônia, por outro lado, o TRE-RO rejeitou o pedido de declaração de elegibilidade apresentado pelo ex-senador e concluiu que a causa de inelegibilidade decorrente da condenação permanece até 19 de novembro de 2030. A disputa, portanto, não está resolvida pela simples homologação partidária de seu nome.
Acir está no jogo político, mas ainda trava uma disputa jurídica decisiva para garantir sua presença nas urnas.
Essa distinção não é detalhe. É o elemento central de sua candidatura.
O cenário é: Gurgacz possui uma candidatura politicamente constituída, percentual mensurável nas pesquisas de julho e uma pendência jurídica que ainda pode decidir se sua postulação chegará efetivamente às urnas.
Se a situação de Acir embaralha o centro e a centro-esquerda, a entrada do Engenheiro Thulio adiciona outra camada de incerteza justamente do lado em que se encontram alguns dos candidatos mais fortes das pesquisas.
Thulio Santiago Castro foi homologado ao Senado pelo Partido Missão. Sua candidatura veio acompanhada de Cleidson Moura da Silva e Miguel Constance Martins como suplentes. A legenda montou uma estrutura estadual pequena, com candidatura ao Senado e cinco nomes à Câmara dos Deputados, sem chapa para deputado estadual.
O tamanho da estrutura partidária é claramente diferente daquele disponível aos candidatos das maiores forças do Estado. Isso constitui uma dificuldade organizacional, não uma previsão de votos.
E há justamente uma ausência essencial: Thulio não estava nas pesquisas Real Time Big Data¹ ou Instituto Amazônia² utilizadas como referência deste cenário.
Não há, portanto, qualquer fundamento para colocar 0%, 1% ou qualquer outro número ao lado de seu nome.
Thulio é eleitoralmente não medido.
Isso o transforma em uma variável que ainda não pode ser quantificada, mas não em uma variável irrelevante.
Seu perfil funciona como mais um arquétipo da Direita numa eleição que já tem várias versões da própria Direita disponíveis ao eleitor. O Partido Missão representa uma construção liberal identificada com o ambiente político do MBL. Thulio apresenta bandeiras relacionadas à redução de impostos, combate à corrupção e ao crime organizado, industrialização, agronegócio e compatibilização entre atividade produtiva e preservação ambiental.
Não é a mesma embalagem política do PL.
Fernando Máximo entra na corrida como deputado federal, político já conhecido e, principalmente, como o nome que liderou as duas pesquisas mais recentes consideradas nesta análise: 19% na Real Time Big Data¹ e 50,27% na soma dos dois votos válidos do Instituto Amazônia.²
Bruno Scheid possui construção diferente. Pecuarista de Ji-Paraná, aproximou sua identidade eleitoral de Jair Bolsonaro, incorporou Bolsonaro ao nome político e transformou a proximidade com o ex-presidente num elemento central de sua candidatura. Nas pesquisas, também mostrou força: 13% na Real Time Big Data¹ e 33,40% na soma dos dois votos válidos do Instituto Amazônia.²
Thulio chega, portanto, para disputar atenção dentro de um segmento que não estava desocupado. É uma candidatura de Direita, mas construída fora do eixo político representado pelo bolsonarismo do PL.
Ele não precisa necessariamente retirar votos de Máximo ou Scheid para existir eleitoralmente porque Rondônia escolherá dois senadores. Um eleitor pode votar em Fernando Máximo e Thulio. Pode votar em Bruno Scheid e Thulio. Pode combinar Sílvia Cristina com Thulio ou construir qualquer outra dupla entre candidatos diferentes.
Difícil? Sim. Mas, no cenário para o Senado Federal, até por conta das possibilidades de pulverização em diferentes campos políticos, não há nada fácil adiante.
A candidatura do Missão acrescenta concorrência por identidade, narrativa e reconhecimento.
Para um eleitor que procura uma candidatura explicitamente posicionada à direita, passa a existir mais uma alternativa. Para quem deseja votar no campo liberal, surge uma escolha diferente daquela apresentada pelo bolsonarismo do PL. Para quem pretende usar seus dois votos ideologicamente no mesmo campo, aumenta o número de combinações possíveis.
A mesma multiplicação ocorre no restante do espectro.
Sílvia Cristina, do Progressistas, aparecia com 14% na Real Time Big Data¹ e 30,25% na soma do Instituto Amazônia.² Mariana Carvalho surgia com 12%¹ e 30,79%², respectivamente. Luís Fernando registrava 4%¹ e 10,90%². Enquanto candidatos novos precisam conquistar espaço, esses nomes chegam à etapa decisiva carregando pelo menos algum grau de reconhecimento já quantificado.
É por isso que uma nova pesquisa realizada pós-convenções, com o quadro atualizado, terá importância maior do que uma simples atualização numérica.
As medições anteriores carregam fantasmas eleitorais.
Confúcio continuava há pouco nas tabelas, mas desistiu. Nilton Souza chegou a ter 3% na Real Time Big Data¹, mas largou a disputa. Anandreia Trovó surgiu com 1%¹, embora não tenha prevalecido na configuração senatorial final construída por seu campo. Thulio não aparece. Aires Mota não aparece. Rosângela Cipriano não aparece.
O cenário pesquisado em julho já não existe integralmente em agosto.
Até mesmo a pesquisa do Instituto Veritá³, que havia acrescentado outra fotografia à disputa, precisa ser colocada numa categoria separada. O levantamento, registrado sob o número RO-02673/2026 para aferir intenções de voto aos cargos de governador e senador de Rondônia, teve a divulgação de seus resultados suspensa liminarmente pelo TRE-RO depois que a Justiça identificou divergência entre o período de coleta informado no sistema PesqEle e aquele constante do relatório e do questionário apresentados pelo instituto.³ A determinação alcançou os resultados da pesquisa registrada como um todo, inclusive a aferição para o Senado. Por isso, seus números podem integrar o histórico da pré-campanha, desde que acompanhados dessa ressalva, mas não devem funcionar neste editorial como régua equivalente às duas sondagens utilizadas na análise principal.
A eleição para o Senado de Rondônia passa, assim, por uma espécie de reinicialização.
Fernando Máximo continua sendo o candidato que entrou nessa etapa com a melhor posição nas principais pesquisas utilizadas aqui.¹² Bruno Scheid, Sílvia Cristina e Mariana Carvalho chegaram logo atrás em diferentes configurações.¹² Acir permanece numa faixa intermediária, mas agora sem Confúcio na disputa. A retirada do senador do MDB abre um espaço que Gurgacz poderá tentar ocupar, sem que seja possível presumir transferência automática de votos. Luís Fernando procura crescer a partir de patamares inferiores. Luciana Oliveira tenta ampliar sua presença. Neidinha Suruí enfrenta desafio semelhante. Aires Mota e Rosângela Cipriano precisam ser medidos. Engenheiro Thulio estreia sem qualquer número que permita antecipar o efeito de sua candidatura.
E essa configuração contém uma dificuldade particular para todos os novos postulantes.
Campanha eleitoral pode modificar intenção de voto. Propaganda, alianças, exposição, debates e acontecimentos políticos podem transformar o cenário. Seria intelectualmente preguiçoso pegar uma pesquisa de julho e declarar que a eleição de outubro já está resolvida.
O contrário, porém, também seria pouco realista.
Quem começa muito atrás precisa percorrer uma distância maior. Quem nem sequer foi testado precisa primeiro tornar-se conhecido. E, numa disputa tão povoada, conseguir atenção suficiente para romper o bloco dos candidatos mais estabelecidos torna-se uma tarefa especialmente difícil.
É por isso que a pulverização pode produzir uma eleição curiosa: há muitos candidatos, mas essa abundância não necessariamente aumenta as chances de cada um deles. Pode produzir justamente o inverso. Se vários nomes permanecerem buscando parcelas semelhantes do eleitorado enquanto Máximo, Scheid, Sílvia, Mariana e outros candidatos mais conhecidos conservarem suas bases, o espaço disponível para uma ascensão tardia ficará mais estreito.
Do lado da esquerda, esse risco está evidente. Luciana Oliveira, Aires Mota, Neidinha Suruí e Rosângela Cipriano representam candidaturas distintas, mas, por enquanto, o campo não concentrou sua força eleitoral em um único nome capaz de aparecer nas pesquisas no mesmo patamar daqueles que comandaram as primeiras posições. Acir também está nesse universo mais amplo de centro-esquerda, embora sua trajetória, seu perfil e sua estratégia sejam consideravelmente mais pragmáticos do que uma candidatura ideológica tradicional.
Do lado da Direita, o problema não é ausência de musculatura. É excesso de oferta.
Fernando Máximo tem mandato e liderança nas pesquisas anteriores.¹² Bruno Scheid carrega a vinculação direta ao bolsonarismo e números competitivos.¹² Sílvia Cristina apresenta mandato federal e desempenho relevante nas duas medições.¹² Mariana Carvalho também aparece dentro do bloco competitivo.¹² E agora Thulio oferece uma alternativa pelo Missão.
Nenhum desses candidatos disputa exatamente o mesmo eleitor. Mas todos precisam encontrar lugar numa eleição em que a identidade política importa e em que as fronteiras entre voto ideológico, voto pessoal, voto regional e segundo voto podem se cruzar.
É justamente o segundo voto que impede qualquer leitura simplista.
Rondônia elegerá dois senadores em 2026. Cada eleitor terá direito a votar em dois candidatos diferentes. A eleição não procura apenas descobrir quem é o nome preferido do Estado, mas quais candidatos conseguirão acumular individualmente os dois maiores totais de votos num ambiente em que cada eleitor dispõe de duas escolhas.
Isso favorece uma dimensão que pesquisas exclusivamente lidas como corrida de cavalos não conseguem explicar inteiramente: o pragmatismo.
Um candidato pode não ser a primeira opção de um eleitor e ainda assim tornar-se a segunda. Uma candidatura pode conversar com alguém que jamais abandonaria seu favorito, mas está procurando o outro nome para completar o voto. Uma pessoa identificada com a Direita pode escolher dois candidatos do mesmo campo ou atravessar a fronteira partidária no segundo voto. O mesmo vale para quem se identifica com a esquerda.
Acir Gurgacz, caso consiga superar definitivamente o obstáculo jurídico, é provavelmente um dos candidatos que mais podem explorar essa lógica. Está no PDT, legenda situada no campo da centro-esquerda, mas sua carreira política e sua forma de articulação permitem buscar votos além de uma identidade partidária fechada. Com Confúcio fora, essa possibilidade ganha ainda mais importância.
Sílvia Cristina representa uma variação semelhante do outro lado. Filiada ao Progressistas e situada no campo da Direita e da centro-direita, ela apareceu competitiva tanto na Real Time Big Data¹ quanto no Instituto Amazônia² e pode disputar precisamente aquele eleitor que, depois de definir um candidato de preferência mais ideológica, procura uma segunda escolha orientada por trajetória, mandato, relacionamento político ou conveniência eleitoral.
É nesse território que o Senado de Rondônia deverá ser decidido.
De um lado, candidatos mais marcadamente ideológicos. De outro, candidatos cuja principal força pode estar no pragmatismo e na capacidade de composição. No meio, políticos estabelecidos, estreantes, deputados federais, lideranças partidárias, representantes de legendas maiores e uma candidatura nova da Direita pelo Missão tentando entrar numa disputa em que os espaços aparentemente já estavam ocupados.
A desistência de Confúcio removeu uma das peças mais fortes e abriu espaço. A saída de Nilton Souza diminuiu a lista, mas não simplificou o cenário. A fragmentação da antiga Caminhada Esperança distribuiu candidaturas em vez de concentrá-las. Acir tenta transformar a ausência de Confúcio em oportunidade, desde que consiga superar a controvérsia jurídica que ainda cerca sua postulação. Thulio tenta transformar novidade em voto numa Direita que já possui nomes consolidados.
E as pesquisas¹², paradoxalmente, ajudam a compreender por que ninguém deveria confiar demais nas próprias pesquisas.
Elas dizem muito sobre o ponto de partida.
Mas o tabuleiro que elas mediram já mudou.
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¹ Real Time Big Data — pesquisa realizada nos dias 14 e 15 de julho de 2026, com 1.600 eleitores de Rondônia. Margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. Levantamento contratado pelo próprio instituto e registrado na Justiça Eleitoral sob o número RO-04369/2026. No resultado consolidado apresentado para os dois votos ao Senado: Fernando Máximo, 19%; Sílvia Cristina, 14%; Confúcio Moura, 13%; Bruno Bolsonaro Scheid, 13%; Mariana Carvalho, 12%; Acir Gurgacz, 8%; Luís Fernando, 4%; Luciana Oliveira, 3%; Nilton Souza, 3%; Neidinha Suruí, 1%; e Anandreia Trovó, 1%. Confúcio Moura e Nilton Souza desistiram posteriormente, portanto seus percentuais representam apenas o cenário existente no momento da coleta.
² Instituto Amazônia de Pesquisa — levantamento realizado entre 1º e 9 de julho de 2026, com 2.500 entrevistas nos 52 municípios de Rondônia, margem de erro de 2,45 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Registro na Justiça Eleitoral sob o número RO-04350/2026. Na soma do primeiro e do segundo votos válidos: Fernando Máximo, 50,27%; Bruno Bolsonaro Scheid, 33,40%; Mariana Carvalho, 30,79%; Sílvia Cristina, 30,25%; Confúcio Moura, 24,93%; Acir Gurgacz, 16,31%; Luís Fernando, 10,90%; e Neidinha Suruí, 3,15%. Como cada eleitor escolhe dois senadores, a soma dos percentuais pode ultrapassar 100%.
³ Instituto Veritá — levantamento registrado na Justiça Eleitoral sob o número RO-02673/2026, destinado à aferição das intenções de voto para governador e senador de Rondônia, com 1.220 entrevistas e margem de erro divulgada de 3 pontos percentuais. Em 19 de maio de 2026, no âmbito da Representação nº 0600128-42.2026.6.22.0000, a relatora Letícia Botelho determinou liminarmente que o Instituto Veritá se abstivesse de divulgar, publicar, compartilhar, impulsionar, encaminhar à imprensa, republicar ou manter acessíveis ao público os resultados da pesquisa até ulterior deliberação judicial. Entre os pontos que deveriam ser esclarecidos estava a divergência entre o período de coleta informado no PesqEle, de 4 a 8 de maio, e aquele constante do relatório/questionário, de 6 a 10 de maio. A ordem alcançou o levantamento registrado como um todo, inclusive os resultados referentes ao Senado. Portanto, a pesquisa não é tratada neste editorial como “cancelada”, mas como levantamento cuja divulgação foi suspensa liminarmente.


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