Porto Velho, RO — Rondônia aparece no topo de uma premiação nacional de desempenho parlamentar. Segundo o Ranking dos Políticos, o estado ocupa a primeira posição do país, com média de 7,22, à frente de Santa Catarina e do Distrito Federal. Entre os deputados federais, Maurício Carvalho (União Brasil) lidera a bancada rondoniense com nota 8,09. No Senado, Jaime Bagattoli (PL) aparece como o parlamentar mais bem avaliado do estado, com nota 8,17.
A divulgação produziu comemoração imediata. Em vídeo publicado nas redes sociais, Maurício Carvalho celebrou o reconhecimento: “Pelo terceiro ano consecutivo recebendo o prêmio de melhor parlamentar de Rondônia. Esse prêmio é de vocês. Muito obrigado por acreditarem no nosso trabalho. Vamos continuar aqui em Brasília, trabalhando para melhorar a qualidade de vida da população do nosso estado. Um grande abraço”.
Em publicação posterior, o deputado reforçou a celebração e afirmou: “Muito feliz em receber, pela terceira vez, o Prêmio Excelência Parlamentar do Ranking dos Políticos e ser reconhecido como o melhor parlamentar [foi Bagattoli, não ele] do estado de Rondônia da 57ª Legislatura. Quem acompanha o nosso trabalho sabe que tudo isso é construído com muito compromisso, presença, responsabilidade e vontade de fazer a diferença de verdade pelo nosso estado. Nada disso teria sentido sem a confiança das pessoas que caminham junto comigo todos os dias. Seguimos trabalhando, com os pés no chão e pensando sempre em fazer mais por Rondônia”.
O entusiasmo é compreensível. Premiações têm peso político, produzem capital simbólico e funcionam como selo público de validação. Mas o que exatamente está sendo premiado quando Rondônia, um estado atravessado por problemas logísticos históricos e insatisfações recorrentes, surge como a unidade federativa com a melhor bancada parlamentar do Brasil?
A resposta começa pela própria metodologia do Ranking dos Políticos. Segundo a organização, 75% da nota dos parlamentares decorre das votações realizadas no Congresso Nacional. O restante da pontuação é distribuído entre gastos de gabinete, presença, privilégios, produção legislativa, articulação política e eventuais penalidades decorrentes de condenações. A entidade afirma pautar sua atuação pelos princípios de transparência, rigor técnico e acesso público à informação, mas admite não ser imparcial, ao declarar compromisso explícito com pilares como eficiência da máquina pública, ambiente de negócios e combate à corrupção.

Segundo o ranking, Bagattoli é o melhor parlamentar do Brasil / Reprodução
Nada disso invalida a metodologia. Trata-se de um recorte legítimo. Mas justamente por isso se torna inevitável a pergunta que raramente acompanha as manchetes festivas: melhor parlamentar segundo quais critérios — e melhor para quem?
A pergunta ganha densidade quando confrontada com a realidade objetiva enfrentada pela população rondoniense. A concessão da BR-364, principal corredor logístico do estado, transformou o debate sobre pedágio em um dos temas mais sensíveis da política local recente. O custo para circular pela principal rodovia de Rondônia passou a ocupar o centro das preocupações de motoristas, produtores e famílias que dependem da estrada para abastecimento, deslocamento e atividade econômica.
Ao mesmo tempo, persiste a sensação de isolamento aéreo. Sair de Rondônia continua caro. Chegar também. As passagens aéreas seguem figurando entre as reclamações mais recorrentes de moradores e empresários, especialmente diante das dificuldades de conexão do estado com outros centros do país.
Diante desse cenário, a pergunta se impõe quase naturalmente: uma bancada reconhecida como a melhor do Brasil não deveria apresentar resultados mais perceptíveis justamente em temas tão diretamente ligados à vida cotidiana da população?
O ranking não mede isso. E talvez esteja exatamente aí o centro do desconforto.
Uma premiação baseada em comportamento legislativo pode apontar eficiência técnica segundo determinados parâmetros institucionais. Mas a política, sobretudo em estados periféricos da federação, costuma ser julgada também por outra régua: capacidade de articulação, presença em momentos críticos e resultados concretos para problemas igualmente concretos.
Nesse ponto, o próprio desenho do ranking interno de Rondônia produz questionamentos inevitáveis.
Coronel Chrisóstomo (PL), conhecido pelo estilo inflamado e pelas intervenções frequentemente ruidosas em plenário, aparece como o segundo deputado federal mais bem avaliado do estado. Jaime Bagattoli, senador de atuação menos ruidosa no debate político estadual e nacional quando comparado a outras figuras da bancada, lidera a classificação geral. Já Marcos Rogério (PL), senador de forte densidade eleitoral, protagonista frequente de embates políticos nacionais e nome constantemente associado à dianteira em pesquisas sobre a disputa ao Governo de Rondônia, surge na última posição entre os três senadores do estado.
O contraste, por si só, não demonstra falha metodológica. Demonstra especificidade. O ranking mede algo bastante preciso — e essa precisão não conversa automaticamente com a percepção popular sobre quem, de fato, representa melhor os interesses do estado.

Rondônia tem a melhor bancada do Brasil, de acordo com o levantamento / Reprodução
Outra questão inevitável está nas ausências.
Sílvia Cristina (PP), deputada ligada à pauta da saúde e a ações de forte visibilidade prática em Rondônia, não aparece na lista apresentada. Cristiane Lopes (Podemos) também não figura entre os nomes contemplados. Rafael Fera, igualmente do Podemos, poderia eventualmente ter sua ausência explicada pelo período recente de mandato, mas nenhuma justificativa explícita é apresentada pelo ranking para exclusões ou critérios específicos relacionados à participação.
Quando uma premiação se apresenta como instrumento de transparência sobre atuação parlamentar e deixa de fora nomes relevantes sem explicação facilmente acessível ao público, surgem dúvidas legítimas sobre abrangência, comparabilidade e percepção de representatividade.
Nada disso apaga méritos individuais. Maurício Carvalho tem razões políticas para celebrar um reconhecimento obtido por três anos consecutivos. Jaime Bagattoli pode legitimamente exibir a maior nota parlamentar do estado. Outros nomes da bancada também podem reivindicar resultados positivos dentro da metodologia proposta.
O ponto crítico não está na comemoração.
Está na tentativa de transformar uma pontuação técnica em retrato definitivo da realidade política de Rondônia.
Porque, fora das tabelas, permanece um estado que ainda discute pedágio elevado, passagens aéreas difíceis de pagar, desafios logísticos permanentes e a sensação de distância — geográfica e política — do restante do país.
Rankings têm utilidade quando compreendidos pelo que efetivamente medem. O problema surge quando passam a funcionar como atestado absoluto de excelência.
Rondônia pode até possuir a melhor bancada do Brasil segundo os critérios de um conselho privado de avaliação parlamentar. O eleitor, no entanto, talvez continue esperando que essa excelência apareça menos nos troféus e mais nas estradas, nos aeroportos e na vida concreta de quem paga a conta.



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