PORTO VELHO, RO - A crise envolvendo a Linha Boa Esperança, antiga Linha Zé Guedes, em Candeias do Jamari, acabou resolvida, ao menos sob o aspecto imediato do bloqueio físico que isolou dezenas de famílias rurais. A estrada às margens da BR-364, próxima ao pedágio, deverá ser reaberta, conforme anunciado pelo prefeito Lindomar Garçon. Mas a resolução do impasse não elimina a gravidade do episódio nem apaga o sinal de alerta institucional e social deixado pela atuação da concessionária Nova 364. Pelo contrário: o caso escancarou, de maneira talvez inédita desde o início da concessão, uma percepção crescente de que a relação entre o empreendimento e a população rondoniense tem sido marcada por desencontros, insensibilidade territorial e uma lógica excessivamente econômica.
O episódio ganhou repercussão após a instalação de um guard rail pela Nova 364 em um trecho historicamente utilizado por moradores da Linha Boa Esperança. A medida, segundo relatos locais, teria ocorrido diante de suspeitas de que motoristas estariam utilizando a rota para desviar do pedágio da BR-364. A justificativa, porém, encontrou resistência imediata da própria comunidade afetada. Moradores contestaram a lógica da decisão, argumentando que um eventual desvio envolveria aproximadamente 30 quilômetros de estrada sem condições adequadas de tráfego, circunstância que, segundo eles, tornaria pouco razoável a utilização contínua daquele caminho como rota alternativa.
A controvérsia extrapolou rapidamente o debate sobre engenharia viária ou controle operacional da concessão. O centro da discussão passou a ser outro: o direito de ir e vir. Afinal, não se tratava de uma via improvisada ou de um acesso recém-criado. A Linha Boa Esperança é considerada histórica no município, apontada como a primeira linha rural implantada ainda quando Candeias do Jamari era apenas uma vila, há mais de quatro décadas. Atualmente, mais de 100 famílias dependem diariamente do trajeto, assim como produtores responsáveis pelo abastecimento agrícola da região, transporte de mercadorias, deslocamento de insumos e acesso regular à cidade.
Os impactos práticos do fechamento foram imediatos. Produtores relataram prejuízos logísticos, elevação dos custos de deslocamento e dificuldades operacionais para manter atividades essenciais. Famílias passaram a enfrentar obstáculos adicionais para acessar serviços e se locomover, em um trecho situado a aproximadamente seis quilômetros da entrada de Candeias do Jamari. O bloqueio físico de uma estrada rural tradicional, portanto, rapidamente assumiu contornos simbólicos: para os moradores, a medida representou mais do que um transtorno; tornou-se um exemplo concreto de como decisões operacionais podem atingir diretamente direitos básicos da população.
A reação política veio de diferentes frentes, e com um tom incomum de convergência. O senador Jaime Bagattoli classificou o caso como mais uma evidência de que a concessão da BR-364 necessita de revisão urgente. Em posicionamento público, afirmou: "Mais um episódio que prova que a concessão da BR-364 precisa ser revista urgentemente! Desta vez, famílias inteiras da Linha Boa Esperança, em Candeias do Jamari, estão isoladas após a instalação de uma barreira metálica que tem impedido o acesso à rodovia. Por isso, eu cobrei da concessionária uma série de pontos que deveriam ter sido esclarecidos antes de terem instalado essa estrutura. Se isso não for contornado, vamos ter sérios prejuízos sobre toda uma comunidade rural que já estava ali antes dessa concessão chegar."
O deputado federal Lúcio Mosquini também adotou tom crítico e relacionou o episódio a um contexto mais amplo de insatisfação com a BR-364. Em manifestação pública, declarou: "A BR-364 não pode parar o povo de Rondônia! A situação na nossa BR-364 chegou a um limite inaceitável. O que deveria ser um caminho de desenvolvimento tornou-se um cenário de transtornos diários, com pedágios abusivos, acessos bloqueados em Candeias e uma sucessão de acidentes que travam a nossa rotina. Não podemos aceitar que o direito de ir e vir dos rondonienses seja desrespeitado desta forma. O que deveria trazer melhoria trouxe apenas mais complicação para quem precisa da estrada para trabalhar e viver. Estamos lutando e cobrando da Justiça Federal uma solução imediata. É hora de dar provimento ao nosso processo e colocar um fim a essa injustiça. Rondônia merece respeito!"
A presença de representantes no local reforçou a gravidade do episódio. O deputado federal Fernando Máximo esteve em Candeias do Jamari acompanhando a situação ao lado do prefeito Lindomar Garçon e do vereador Fábio Costa, que representou a Câmara Municipal. As autoridades ouviram os moradores diretamente afetados, debateram alternativas para reverter o bloqueio e articularam providências junto aos órgãos responsáveis. Segundo informações apuradas, a própria Câmara Municipal iniciou encaminhamentos administrativos na tentativa de assegurar o direito de acesso das famílias e dos produtores rurais atingidos.
Em Porto Velho, o vereador Breno Mendes também se posicionou publicamente sobre o episódio, classificando como uma vitória provisória a solução construída após a repercussão do caso. Em publicação nas redes sociais, afirmou: "Vitória para quem usa a BR-364! Atendendo ao direito de ir e vir da população, o GUARD RAIL que estava na rodovia foi retirado. A medida garante mais fluidez e segurança para motoristas, caminhoneiros e todos que dependem dessa via no dia a dia. Trabalho feito, demanda atendida. Seguimos fiscalizando e cobrando para que a BR-364 seja uma estrada de verdade para o nosso povo. Obrigado a todos que enviaram as demandas. Juntos a gente consegue!"
Em âmbito local, o prefeito Lindomar Garçon anunciou o desfecho do impasse ao informar que a BR-364 abriria uma estrada às margens da rodovia, próxima ao pedágio em Candeias, solução construída após a repercussão do caso. O anúncio representou alívio imediato para as famílias afetadas, mas não encerrou o debate sobre os limites de atuação da concessionária e os riscos que esse modelo de gestão representa para as comunidades rurais ao longo do trecho concedido.
Ainda assim, o encerramento prático da crise não impede um diagnóstico mais amplo sobre o significado do episódio. Se houve solução, ela veio depois da indignação coletiva, da mobilização política e da exposição pública do problema. O caso da Linha Boa Esperança deixou evidente que a Nova 364 não apenas enfrenta críticas relacionadas às tarifas cobradas ao longo da rodovia, mas agora carrega também a acusação simbólica de ter ultrapassado um limite sensível: o da interferência sobre o direito fundamental de circulação de comunidades estabelecidas muito antes da concessão existir.
O episódio resolvido não elimina a impressão deixada. Ao contrário, reforça uma percepção que ganhou força entre moradores e representantes políticos: a de que, diante de interesses operacionais e econômicos, a população pode acabar sendo tratada como variável secundária. A Nova 364 já demonstrou, com clareza, que não está nem aí para o povo de Rondônia. Se for necessário passar por cima das pessoas, violando direitos fundamentais — como o de ir e vir, tal qual ocorreu em Candeias do Jamari —, o fará sem hesitar. A sanha econômica do empreendimento só não é pior do que a letargia daqueles que, por omissão ou ausência de fiscalização efetiva, permitiram que uma situação dessa magnitude se instalasse antes de qualquer correção. A crise em Candeias do Jamari demonstrou que, se não houver reação institucional, pressão social e vigilância permanente, direitos básicos podem se tornar vulneráveis. A sanha econômica de um empreendimento jamais deveria se sobrepor ao cotidiano de famílias inteiras, especialmente quando se trata de populações rurais historicamente estabelecidas.



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