RESENHA POLITICA
ROBSON OLIVEIRA
MUDANÇA
Não duraram mais que algumas horas as juras de fidelidade de parte da bancada federal de Rondônia ao empresariado local contrário à PEC que reduz a jornada de trabalho e enterra a escala desumana do 6x1. A pressa da Fecomércio em distribuir nota pública elogiando deputados rondonienses que votariam contra a proposta revelou muito mais que simples divergência ideológica: escancarou a velha aliança entre setores patronais e políticos que ainda enxergam o trabalhador apenas como peça de reposição barata da engrenagem econômica.
JOGO
Enquanto o país discute qualidade de vida, produtividade e equilíbrio entre trabalho e dignidade humana, parte da elite econômica rondoniense segue estacionada no século passado, defendendo jornadas extenuantes como se descanso fosse privilégio e não direito civilizatório. Nada surpreendente. Entidades patronais existem para defender lucro. Faz parte do jogo. O problema começa quando parlamentares eleitos pelo povo se apresentam como representantes exclusivos dos interesses empresariais.
CONVERSÃO
Acontece que a política possui um detalhe inconveniente: voto. E o voto costuma ter memória quando o assunto mexe diretamente no cotidiano da maioria esmagadora da população. Bastou a pressão popular crescer nas redes, nos sindicatos, nas ruas e nos grupos de WhatsApp para que deputados que posavam de soldados do mercado descobrissem, de uma hora para outra, as virtudes sociais da redução da jornada de trabalho. A conversão foi tão rápida quanto constrangedora.
CONVICÇÃO
Os mesmos parlamentares que horas antes eram celebrados pela Fecomércio como defensores da manutenção da escala 6x1 passaram a apoiar a PEC diante do risco de carregarem nas costas, em ano pré-eleitoral, a pecha de inimigos do trabalhador. Não houve mudança de convicção. Houve mudança de cálculo político.
SOBREVIVÊNCIA
No íntimo, muitos continuam contrários à redução da carga horária. Consideram a proposta um excesso, um custo, uma ameaça ao modelo econômico que sempre privilegiou lucro acima de bem-estar social. Mas perceberam que há momentos em que o instinto de sobrevivência eleitoral fala mais alto que qualquer fidelidade ideológica.
DESGASTE
A reação expõe uma verdade incômoda sobre a política brasileira: boa parte do Congresso Nacional não se move por convicção, mas pela direção do vento. Quando a pressão vem de cima, dos financiadores e das entidades patronais, adotam um discurso. Quando o calor sobe nas ruas e o eleitor começa a prestar atenção, ajustam rapidamente o voto para evitar desgaste.
FOTO
A bancada rondoniense apenas repetiu um comportamento antigo da política nacional: fingir resistência enquanto acredita que o tema não mobilizará a sociedade e, diante do risco eleitoral, correr para o lado mais seguro da fotografia.
MEDO
A Fecomércio, por sua vez, terminou exposta numa situação embaraçosa. Correu para aplaudir parlamentares antes da votação e acabou assistindo, poucas horas depois, os mesmos deputados abandonarem publicamente a trincheira patronal para salvar a própria pele política. No fim, venceu menos a consciência social e mais o medo das urnas. E isso diz muito sobre Brasília.
SENTENÇA
A absolvição do ex-prefeito de Porto Velho, Roberto Sobrinho, encerra um dos capítulos mais duros da política rondoniense recente. Durante anos, Roberto carregou a pecha de corrupto em razão das denúncias surgidas na operação policial “Liminus”, espetáculo midiático que o empurrou para o isolamento político e praticamente o baniu das disputas eleitorais.
FATOS
A sentença absolutória não devolve o tempo perdido, as humilhações sofridas nem os prejuízos pessoais e eleitorais acumulados ao longo da travessia. Mas representa, ao menos, um alívio moral para quem passou mais de uma década lutando para provar inocência nos fatos investigados na Emdur.
EXCESSOS
Em tempos de condenações antecipadas pela opinião pública, a decisão judicial recoloca em debate os excessos cometidos contra agentes públicos antes do trânsito final dos processos. Roberto sai menor politicamente do que entrou na tormenta, porém mais leve diante da história. E maior na intimidade.
INELEGIBILIDADE
O parecer do Ministério Público Federal contrário ao afastamento da inelegibilidade de Natan Donadon joga água fria nas especulações sobre um possível retorno eleitoral do ex-deputado. O MPF sustentou que o indulto presidencial não alcança os efeitos da Lei da Ficha Limpa, mantendo válidas as restrições eleitorais decorrentes da condenação criminal.
VIGILÂNCIA
A manifestação acompanha o entendimento predominante no STF e no TSE, que diferenciam extinção da pena e elegibilidade. Politicamente, a posição do Ministério Público cria mais um obstáculo jurídico no caminho de Donadon. Em Rondônia, onde as disputas eleitorais nunca descansam, o caso volta a movimentar bastidores e alimentar debates sobre justiça, política e memória pública. O MPF em Rondônia está vigilante contra candidatos enrascados na justiça.



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