Diz a lenda urbana — e a geografia — que existe em Porto Velho uma rua pacata cujo metro quadrado concentra uma densidade histórica por habitante acima da média nacional. Ali, separados por poucos muros, moram dois sujeitos que compartilham o mesmo passado, o mesmo antigo emprego e, principalmente, o mesmo azar com a burocracia dos homens. Falo de José Alves Vieira Guedes, o Zé Guedes, e de seu vizinho, Roberto Eduardo Sobrinho.
Em tempos diferentes, ambos cometeram a audácia de governar a capital. Guedes foi prefeito nos anos noventa; Roberto, nos anos dois mil. Mas as coincidências de portão não começaram aí.
O professor Roberto Sobrinho sempre teve a vocação para o barulho organizado. Em 1989, ajudou a parir o Sintero, o maior sindicato de servidores públicos do estado, costurando apoios que iam de Pimenteiras a Guajará-Mirim. Como no Brasil daquela época a defesa dos professores costumava ser punida com o olho da rua, Roberto foi demitido, mais de uma vez. Coisas do ofício.
Já o Zé Guedes, contador de formação, preferiu o caminho das leis. Foi deputado constituinte em 1988, daqueles aplicados, ganhando nota máxima do DIAP por votar a favor das causas sociais. Depois, no racha que dividiu o velho MDB entre os que queriam o parlamentarismo e os que preferiam o presidencialismo, Guedes debandou com os perdedores para fundar o PSDB, ao lado de luminares como Fernando Henrique e Mário Covas.
A ironia — essa deusa que adora pregar peças em políticos — fez com que o destino de ambos se cruzasse em 1992. Guedes se candidatou a prefeito e o PT, vejam só, decidiu apoiá-lo. Eleito, Guedes olhou para o vizinho Roberto, especialista em organizar greves, e teve um estalo:
— Vou dar a Secretaria de Educação para ele.
Os adversários riram. "Um grevista gerindo a máquina? Vai dar errado." Não deu. Roberto e sua equipe fizeram uma belíssima gestão. O problema veio depois.
Guedes descobriu que o Tribunal de Contas da época, ainda povoado por herdeiros políticos do velho Coronel Jorge Teixeira, não tinha muita simpatia por prefeitos que não rezassem pela cartilha oficial.
O jovem prefeito passou a viver um verdadeiro inferno astral. Eram tantas punições, processos e auditorias que sua carreira política foi sumariamente asfixiada. Sem dinheiro para pagar advogados, Guedes tomou uma decisão pragmática: matriculou-se na faculdade de Direito apenas para advogar em causa própria. Venceu todas as ações, mas o preço foi a própria biografia política.
Anos mais tarde, em 2004, foi a vez de Roberto Sobrinho surpreender os analistas e se eleger prefeito, repetindo a dose em 2008 no primeiro turno. O homem voava alto. Cotadíssimo para o governo do Estado numa aliança com o MDB de seu vice, Emerson Castro, Roberto parecia imbatível. Mas a política é uma máquina de moer certezas. Fofocas e querelas internas do próprio PT implodiram sua candidatura.
A partir daí, o roteiro de Roberto passou a imitar o de Guedes, com requintes de crueldade jurídica. Não terminou o mandato e, para coroar a tragédia, acabou preso em 2011 sob o argumento kafkiano de que "poderia influenciar nas investigações". Uma humilhação pública que serviu de banquete para os adversários em debates eleitorais futuros.
Na semana passada, contudo, a justiça de Rondônia finalmente absolveu Roberto na última ação penal que restava. Quinze anos depois. Descobriu-se que as três ações que quase destruíram sua vida derivavam de um único e mesmo fato. Uma tática de guerrilha jurídica digna de um velho procurador que certa vez me confessou o segredo do sucesso:
— Quer condenar alguém? Divida o mesmo caso em vários processos. Algum há de colar.
Toda essa comédia dramática me faz lembrar de São João Evangelista exilado na Ilha de Patmos, escrevendo suas cartas apocalípticas. Na carta à igreja de Pérgamo, o anjo promete que, aos que perseverassem, seria dada uma "pedra branca".
Quem visita as ruínas da Turquia hoje descobre com os guias locais o significado da metáfora. Na antiguidade, a pedra branca era o ingresso VIP para as festas do Imperador, concedida a heróis militares e atletas. Mas tinha outro uso: ao final de um julgamento, se o réu fosse considerado inocente, o magistrado lhe entregava uma pedra branca. Era o símbolo da absolvição.
Na teologia ou na crônica da vida real, a lição é clara. Quem consegue sobreviver às injustiças dos homens ganha a sua pedra branca. Talvez não para entrar nas festas profanas dos poderosos de plantão, mas para ter o direito de andar de cabeça erguida entre os seus.
Imagino os dois ilustres moradores da rua agora, finalmente livres do peso dos tribunais, sentados na varanda tomando um café e lembrando que sofrer injustiças, afinal, é o preço histórico que se paga quando se contraria os interesses dos egoístas — uma tradição que, bem sabemos, começou há mais de dois milênios com um certo Mestre da Galileia.
Moro aqui perto, tão perto que posso falar com eles num grito de calçada. Espero, um dia desses, ser convidado para esse café dos justos. E que a pedra branca de outros injustiçados também não demore a chegar, pois, como diz o texto sagrado, bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Eles serão fartos. Nem que demore quinze anos.
Daniel Pereira. Advogado e ex-governador de Rondônia (2018), vizinho dos homens que merecidamente receberam suas pedras brancas.



Boa análise! Não havia analisado "as maquinas de triturar políticos em ascensão e suas reputações!