1- A partir de uma entrevista ao Sílvio Santos (Zekatraca)
Nascido em 19 de julho de 1945, em Porto Velho, Lúcio Jorge Guzman é uma das vozes mais críticas e inquietas quando o assunto é a preservação da memória histórica de Rondônia. Professor, radialista, contador, pesquisador e fundador da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Guzman construiu ao longo das décadas uma trajetória marcada pela defesa da pesquisa séria e pelo combate ao que chama de “história baseada no achismo”.
Filho de uma família tradicional ligada ao movimento Cutuba, Lúcio cresceu no bairro Caiari, numa Porto Velho ainda cercada por matas, rios e ruas de terra. Suas lembranças ajudam a reconstruir o cotidiano da capital nas décadas de 1940 e 1950: as brincadeiras na praça Aluízio Ferreira, as caçadas de bacurau no aeroporto Caiari, os cinemas da praça Rondon e as disputas políticas entre Cutubas e Peles Curtas.
Desde cedo, desenvolveu um olhar observador sobre os fatos históricos. Essa postura crítica o acompanha até hoje. Para ele, muitos episódios da história de Rondônia foram distorcidos ao longo do tempo por versões repetidas sem pesquisa aprofundada. Um dos exemplos citados por Guzman é a construção da BR-29, atual BR-364. Segundo ele, existe um equívoco ao atribuir a obra exclusivamente ao 5º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC). Lúcio afirma que o antigo DNER teve papel decisivo na construção da rodovia e destaca que o trajeto já existia desde os tempos da Comissão Rondon.
Ao falar sobre a evolução do estado, Guzman costuma dividir Rondônia em dois períodos históricos: antes e depois dos governos de Aluízio Ferreira e Jorge Teixeira. Para ele, Aluízio foi responsável por estruturar um território praticamente isolado, enquanto Jorge Teixeira acelerou o desenvolvimento já sobre bases existentes.
Na área acadêmica, Lúcio teve papel fundamental na criação da UNIR. Inicialmente ligado à Fundacentro, instituição que antecedeu a universidade, ele participou do processo de implantação da instituição ao lado de nomes como José Valdir Pereira, Abnael Machado e Heitor Lopes. Atuou como professor de Administração e Ciências Contábeis nos primeiros cursos oferecidos pela universidade.
Além da educação, também marcou presença na comunicação rondoniense. Como diretor da Rádio Rondônia, reformulou a programação da emissora, diversificando conteúdos musicais e populares, alcançando altos índices de audiência. Foi responsável ainda pelo retorno de comunicadores conhecidos, como Bok Léo, e criou programas voltados a diferentes públicos.
Mesmo sendo um profundo conhecedor da história local, Lúcio evita publicar textos fragmentados sobre o passado rondoniense. Prefere dedicar-se à elaboração de sua autobiografia, acreditando que suas experiências pessoais são incontestáveis por terem sido vividas diretamente por ele.
Casado com Sônia Alencar e pai de três filhos, Lúcio Jorge Guzman continua sendo uma referência para quem busca compreender a formação social, política e cultural de Porto Velho e de Rondônia. Entre lembranças da infância, debates históricos e críticas ao improviso intelectual, ele mantém viva uma postura rara: a de questionar versões prontas e exigir que a história seja construída com pesquisa, memória e verdade.
2 - Memória, cultura, inteligência crítica e a sensibilidade
Existem pessoas que atravessam a história apenas como testemunhas. Outras, raras, tornam-se intérpretes do seu próprio tempo. Lúcio Jorge Guzman pertence a essa segunda categoria. Sua trajetória mistura memória, inquietação intelectual, sensibilidade cultural e uma permanente necessidade de compreender o mundo à sua volta.
Lúcio construiu sua existência como quem organiza lentamente um grande arquivo da experiência humana. Não apenas dos fatos históricos, mas das emoções, das vozes, dos costumes e das pequenas histórias que ajudam a explicar uma sociedade.
Em Rondônia, tornou-se conhecido por sua postura crítica diante da superficialidade histórica. Sempre desconfiou das versões prontas, das narrativas simplificadas e daquilo que chamava de “achismo”. Para ele, a memória exige responsabilidade. Talvez por isso tenha desenvolvido uma relação quase afetiva com os documentos, fotografias, relatos orais, moedas antigas, músicas e fragmentos culturais capazes de preservar a passagem do tempo.
Sua paixão pela numismática transformou-se em uma das maiores coleções do estado de Rondônia. Cada moeda guardada por Lúcio parece carregar mais do que valor material: representa uma civilização, uma mudança política, uma economia, uma época. Para ele, colecionar moedas nunca foi um hobby vazio, mas uma forma silenciosa de conversar com a história.
A mesma sensibilidade aparece em sua relação com a música. Amante da boa canção popular, do rádio clássico e das melodias carregadas de memória, criou um dos programas mais singulares do rádio rondoniense. Todos os anos, no Dia de Finados, 2 de novembro, apresentava durante horas músicas interpretadas apenas por artistas já falecidos. Antes de cada canção, narrava trechos da vida do cantor, suas origens, suas dores, seus sucessos e tragédias.
O programa não era apenas uma seleção musical. Era uma reflexão sobre a finitude humana. Uma espécie de liturgia radiofônica da memória. Enquanto as vozes dos mortos ecoavam pelas ondas do rádio, Lúcio lembrava aos ouvintes que o ser humano desaparece fisicamente, mas permanece na arte, na lembrança e naquilo que deixa nos outros.
Talvez seja exatamente essa consciência da impermanência que o mantenha intelectualmente inquieto. Mesmo com mais de 80 anos, continua estudando. Atualmente cursa Direito, não por ambição profissional, mas por curiosidade existencial. Porque ainda deseja compreender melhor as estruturas da sociedade, os conflitos humanos e os mecanismos que organizam a convivência coletiva.
Há nisso uma dimensão profundamente filosófica: a recusa em envelhecer intelectualmente. Enquanto muitos aceitam a acomodação da idade, Lúcio insiste em aprender. Continua lendo vorazmente, pesquisando, questionando e debatendo ideias. Para ele, estudar não é obrigação acadêmica; é uma forma de permanecer vivo diante do mundo.
Sua trajetória revela um homem que nunca se satisfez apenas em existir. Sempre buscou interpretar a realidade, compreender as transformações do tempo e preservar aquilo que considerava essencial na experiência humana: a memória, a cultura, a inteligência crítica e a sensibilidade.
3 - Memória, consciência e construção histórica de Rondônia
Há homens que vivem o seu tempo e há outros que ajudam a construí-lo. Lúcio Jorge Guzman pertence a essa segunda linhagem humana: a dos indivíduos que se confundem com a própria formação histórica do lugar onde viveram. Sua trajetória atravessa praticamente todas as grandes transformações sociais, políticas e culturais de Rondônia, desde os anos do antigo Território Federal até a consolidação do Estado moderno amazônico.
Falar de Lúcio Jorge Guzman é, de certo modo, falar de Rondônia e, especialmente, da formação social e urbana de Porto Velho. Sua presença em diferentes espaços públicos, acadêmicos e culturais revela uma figura que nunca se limitou ao exercício burocrático dos cargos que ocupou. Em cada função pública, atuou como alguém comprometido com a ideia de desenvolvimento humano, memória coletiva e responsabilidade histórica.
Desde os tempos do Território Federal de Rondônia, quando a região ainda buscava consolidar suas estruturas administrativas, políticas e institucionais, Lúcio já participava ativamente da vida pública. Pertence à geração que testemunhou — e ajudou a organizar — a transição de uma sociedade ainda marcada pelo isolamento amazônico para a constituição do Estado de Rondônia, oficialmente criado em 1981. Não foi apenas espectador desse processo: tornou-se uma de suas consciências críticas.
Sua atuação como professor fundador da Universidade Federal de Rondônia possui um significado que ultrapassa a dimensão acadêmica. Em regiões periféricas do país, a universidade não é apenas um espaço de ensino; ela representa um instrumento civilizatório, um centro produtor de identidade, pensamento e autonomia regional. Ao lecionar Administração e Contabilidade, Lúcio ajudou a formar gerações de profissionais que participariam da organização econômica, administrativa e institucional de Rondônia.
Mas talvez sua maior contribuição esteja em algo menos visível: a formação ética e intelectual das pessoas. Em sociedades marcadas pela velocidade, pelo improviso e pelas relações frágeis, Lúcio sempre representou a figura do homem da coerência. Sincero, leal, avesso à superficialidade, construiu ao longo da vida uma reputação fundada na honestidade intelectual e na fidelidade aos amigos.
Seu interesse pela leitura, pela história, pela música, pela numismática, pela Ordem Maçônica, pelo espiritismo kardecista e pela observação da vida amazônica demonstra alguém que compreende a cultura não como ornamento, mas como patrimônio existencial de um povo.
Sua paixão pelos livros revela um traço essencial de sua identidade: a recusa permanente da ignorância. Em Lúcio, a leitura nunca foi mero passatempo erudito. Ler era compreender o homem, os conflitos sociais, as mudanças políticas e os mecanismos invisíveis que organizam a vida coletiva. Talvez por isso sempre tenha cultivado uma visão crítica diante das simplificações históricas e das interpretações superficiais da realidade amazônica.
Do ponto de vista filosófico, sua trajetória simboliza uma resistência silenciosa contra o empobrecimento intelectual do tempo moderno. Enquanto a sociedade contemporânea transforma tudo em velocidade e descartabilidade, Lúcio permanece ligado à reflexão, ao estudo, à escuta e à memória. Sua vida demonstra que o verdadeiro conhecimento exige paciência, profundidade e compromisso humano.
Há homens que ocupam cargos. Outros ocupam lugares na memória coletiva. Lúcio Jorge Guzman pertence a esta categoria. Sua importância para Rondônia não pode ser medida apenas pelas funções públicas que exerceu, pelos anos de magistério ou pelas atividades culturais que desenvolveu. Sua relevância está no fato de ter ajudado a formar consciências, preservar histórias e construir, silenciosamente, parte da identidade intelectual de Rondônia.
Num estado ainda jovem como Rondônia, figuras como Lúcio tornam-se fundamentais porque representam continuidade histórica. São pontes entre gerações. Homens capazes de lembrar às novas gerações que o desenvolvimento de uma sociedade não depende apenas de obras materiais, mas também da preservação da cultura, da memória, da ética e da inteligência crítica.
Lúcio Jorge Guzman é, acima de tudo, um homem que compreendeu algo essencial: uma sociedade só amadurece quando aprende a valorizar aqueles que dedicaram a vida à construção do conhecimento, da memória e da dignidade humana.
OBS: O título da coluna “CULTURA & HISTÓRIA EM TRÊS TEMPOS” é uma homenagem ao jornalista Paulo Queiroz.



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