PESQUISA
Há quem trate pesquisa eleitoral como quem consulta búzios em noite de tempestade: interpreta os números conforme as conveniências e vende certeza onde só existe volatilidade. Pesquisa é retrato, nunca profecia. Congela o instante, mas não o futuro. Basta um escândalo, uma operação policial, um tropeço verbal ou uma crise econômica para o humor do eleitorado mudar com a velocidade de manchete ruim em grupo de WhatsApp.
TRACKES
O que realmente interessa aos comitês eleitorais não é a pesquisa quantitativa exibida em horário nobre para animar militância e inflar ego de marqueteiro. O ouro está nas qualitativas. É ali, no subterrâneo das campanhas, que os estrategistas descobrem medos, rejeições, fadigas e percepções que não aparecem em gráfico colorido de televisão. É nas qualitativas que candidatos mudam discurso, recalculam postura e abandonam personagens fabricados por consultores que ainda acreditam viver na era do horário eleitoral de 2002.
MANIPULADAS
Claro que há pesquisas sérias. E há também as que parecem sair da prancheta de ficcionistas estatísticos. A legislação eleitoral é rígida no papel, mas o histórico brasileiro - e Rondônia conhece bem essa fauna - mostra levantamentos suspensos por suspeitas de indução, coleta enviesada ou metodologia criativa demais. Em eleições passadas, não foram poucas as pesquisas que serviram mais para fabricar ambiente psicológico do que para revelar realidade.
CICLONES
Mesmo assim, a influência delas já não é a mesma. As mídias digitais implodiram o monopólio narrativo das campanhas tradicionais. O eleitor de hoje recebe estímulos simultâneos, contraditórios e incessantes. O resultado é que pesquisa já não determina voto como antigamente. Em Rondônia, inclusive, há precedentes eloquentes de candidatos que chegaram às urnas muito maiores do que apareciam nos levantamentos divulgados na véspera. A urna, às vezes, humilha institutos e deixa comentaristas engravatados com cara de quem errou a previsão do tempo em dia de ciclone.
PREVISÃO
Os empolgados adoram tripudiar sobre adversários quando um número lhes favorece. Tratam pesquisa como troféu definitivo e campanha como campeonato encerrado antes do apito final. No fim, quase sempre acabam ridicularizados pela própria realidade que fingiam dominar. As redes sociais desmontaram velhas fórmulas de marketing político, aposentaram teorias mofadas e expuseram consultores que sobrevivem reciclando estratégias tão ultrapassadas quanto santinho jogado em porta de escola.
CENÁRIO
A pesquisa divulgada pela Atlas sobre a disputa presidencial surge justamente sob o impacto do desgaste sofrido por Flávio Bolsonaro após as revelações envolvendo suas relações com Vacaro, personagem encarcerado no escândalo do Banco Master. O levantamento mostra uma queda relevante do filho de Jair Bolsonaro num eventual segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, indicando descolamento do petista no cenário projetado.
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A AtlasIntel/Bloomberg entrevistou 5.032 eleitores, entre os dias 13 e 18 de maio, por meio de recrutamento digital. A margem de erro é de 1 ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada com recursos do próprio instituto e está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o protocolo BR-06939/2026.
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REJEIÇÃO
Para Lula, o dado é simultaneamente alívio e preocupação. Sai do empate incômodo com o herdeiro político bolsonarista, mas continua carregando um índice de rejeição perigosamente elevado. E rejeição acima de 50% não é detalhe estatístico; é um campo minado eleitoral. Reeleição não se constrói apenas ampliando intenção de voto. Exige reduzir resistência, diminuir fadiga e convencer parcela do eleitorado de que o desgaste acumulado não inviabiliza novo mandato.
EXAUSTÃO
O desafio do petista talvez seja menos eleitoral e mais emocional. Parte do eleitorado demonstra sinais claros de exaustão política. Lula ainda preserva musculatura popular, mas já não mobiliza com a mesma espontaneidade dos tempos em que transformava comício em celebração messiânica. Há um cansaço difuso no ambiente nacional, e ele precisará administrar isso com habilidade cirúrgica.
LINHA
A Atlas traz, portanto, boa notícia para o projeto de reeleição lulista, mas ainda muito distante de justificar foguetório. Há gordura para queimar e turbulências pela frente. Campanha presidencial brasileira raramente é linha reta; costuma parecer estrada amazônica em inverno rigoroso: lama, atoleiro e surpresa a cada curva.
EFEITOS
Em Rondônia, contudo, o eventual desgaste de Flávio Bolsonaro tende a produzir efeitos mais modestos sobre os candidatos estaduais do PL. A razão é simples: o campo competitivo local permanece essencialmente dominado pela direita. Os postulantes mais robustos ao governo orbitam o mesmo espectro ideológico, enquanto a esquerda rondoniense segue sem densidade eleitoral suficiente para sonhar realisticamente com segundo turno.
TERREMOTO
A menos que aconteça algum fato extraordinário - daqueles capazes de implodir candidaturas consolidadas em poucos dias - o cenário estadual parece caminhar para um duelo doméstico entre forças conservadoras. E este velho cabeça-chata, desconfiado por natureza e calejado por muitas eleições, duvida bastante que surja um terremoto político capaz de alterar drasticamente essa configuração.
SOMBRAS
A política rondoniense, sempre tão afeita aos personagens improváveis, agora assiste à ascensão de um candidato que saiu das sombras das caravanas bolsonaristas para tentar ocupar a ribalta do Senado. O podcast Resenha Política entrevista hoje o empresário e pré-candidato ao Senado Bruno Scheid, homem que deseja ser conhecido não pelo sobrenome, mas pelo apelido político que virou selo ideológico: “Zero Cinco” da família Bolsonaro. Num país em que a política virou franquia familiar, faltava mesmo apenas abrir mais uma filial.
DRAMA
Sua entrada no mundo político não veio pela liturgia partidária, tampouco pela lenta mastigação das bases eleitorais. Surgiu de um episódio traumático transformado em combustível ideológico. Scheid relata que, em 2018, teria sido sequestrado e torturado por integrantes da Liga dos Camponeses Pobres, organização marcada por conflitos agrários e métodos radicais de enfrentamento. O caso atravessou Rondônia e chegou aos ouvidos de Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, que o telefonou para prestar solidariedade. Naquele instante, um drama regional virou narrativa nacional. E, na política contemporânea, narrativa vale quase tanto quanto voto - às vezes mais.
CONFIANÇA
Bolsonaro incorporou o episódio aos discursos de campanha como símbolo da violência no campo e da falência do Estado diante dos conflitos agrários. Scheid, por sua vez, passou de vítima de um episódio policial a personagem útil dentro do imaginário bolsonarista: o homem comum perseguido pelos inimigos ideológicos da direita. A amizade floresceu rápido. Convites ao Palácio do Planalto vieram depois. Em seguida, o posto informal de acompanhante constante nas viagens do ex-presidente. Algo entre escudeiro político e motorista de confiança das peregrinações eleitorais do PL. Em Brasília, proximidade física costuma valer mais que décadas de militância.
IMPOSIÇÃO
O resultado dessa convivência é que Bruno Scheid deixou de ser apenas um aliado e virou patrimônio simbólico do bolsonarismo. Sua candidatura ao Senado em Rondônia não nasceu exatamente do desejo orgânico do partido local. Foi empurrada de cima para baixo, como uma dessas encomendas que chegam de Brasília e ninguém ousa devolver ao remetente. O PL rondoniense engoliu a indicação sem mastigar muito. Há quem torça o nariz internamente, segundo o próprio candidato admite, mas Scheid reage ao desconforto partidário com a delicadeza de um trator de esteira: diz que “caga” para a opinião desses correligionários.
BRUTO
E talvez esteja justamente aí uma de suas forças. Bruno Scheid fala como quem não passou pelos cursos de media training que transformam candidatos em bonecos de isopor institucional. Seu vocabulário é bruto, sem verniz, embalado naquele estilo “anti-sistema” que continua encontrando audiência num eleitorado cansado da retórica plastificada. Certo ou errado, ele transmite autenticidade - qualidade rara numa República onde muitos políticos parecem textos revisados por assessoria jurídica antes mesmo de pensarem.
DOUTRINA
O curioso é que o personagem surpreende quando sai do cercado ideológico. Embora se apresente como bolsonarista radical e não rejeite o rótulo de extremista de direita, Scheid demonstra formulações menos simplistas em temas econômicos e ambientais. Defende reforma agrária dentro dos limites constitucionais, posição quase herética para setores mais histéricos do conservadorismo rural. Mas impõe uma linha de aço às invasões de propriedade: para ele, movimentos considerados ilegítimos devem ser combatidos com “força total estatal”. Inclusive pelos próprios proprietários. É a velha doutrina do porrete legalizado travestida de legítima defesa patrimonial.
IMAGEM
Ao contrário de parte da bancada bolsonarista que transformou o Senado numa espécie de tribunal inquisitorial contra ministros do STF, Scheid tenta vender a imagem de alguém interessado também em economia, fiscalização e desenvolvimento social. Sem deixar de abraçar as pautas morais da direita, afirma ter estudado durante três anos para entender os mecanismos legislativos e chegar preparado ao Congresso. É uma tentativa evidente de escapar do destino de certos parlamentares monotemáticos que passam o mandato inteiro caçando fantasmas ideológicos enquanto o país continua atolado em problemas concretos.
DIFERENÇA
A comparação indireta com Jaime Bagattoli aparece inevitavelmente. Bagattoli muitas vezes se projeta mais pelas cruzadas contra o STF e pela defesa dos interesses do agro do que por formulações institucionais amplas. Scheid parece perceber esse desgaste e tenta ocupar um espaço híbrido: manter o radicalismo identitário sem parecer intelectualmente raso. Quer ser o bolsonarista que lê planilhas.
FENÔMENO
E o que parecia apenas uma candidatura ornamental começa a ganhar musculatura eleitoral. Há poucos meses, Bruno Scheid era visto como uma imposição ideológica de Brasília sobre Rondônia. Hoje, já aparece crescendo nas pesquisas e incomodando concorrentes tradicionais. Seu nome circula entre conservadores com velocidade superior àquela que os caciques locais gostariam de admitir. Porque existe um fenômeno que a velha política insiste em subestimar: candidatos associados diretamente a Bolsonaro podem até carregar rejeição elevada, mas possuem um núcleo de lealdade eleitoral fanática que nenhum marqueteiro tradicional consegue fabricar em laboratório.
PARADOXO
Scheid compreendeu isso cedo. Não tenta parecer moderado. Não pede desculpas pelo extremismo. Não suaviza frases para agradar editorialistas ou professores de ciência política. Navega no sentido oposto da prudência estética contemporânea. E, paradoxalmente, isso lhe rende simpatia entre eleitores que enxergam nos políticos tradicionais apenas frases ensaiadas e gravatas vazias.
ANORMALIDADE
Pode soar como exagero de pré-campanha quando ele afirma que será o senador mais votado de Rondônia. Mas a política brasileira já produziu absurdos maiores. Em tempos normais, um homem que surgiu como personagem periférico de uma narrativa de campanha dificilmente ameaçaria estruturas consolidadas. O problema é que o Brasil político deixou de operar em tempos normais faz tempo.
CULTO
Há personagens que a universidade produz e há aqueles raríssimos espécimes que parecem ter sido moldados para lembrar à própria universidade o que significa inteligência. Encontrei ontem, durante o aniversário da amiga Regina - esposa do advogado Dr. José Filho - o ex-reitor da Universidade Federal de Rondônia, Ari Ott. O ex-magnífico continua exatamente como a memória coletiva da academia o preservou: culto, ferino, espirituoso e perigosamente lúcido.
REFINAMENTO
Ott segue sendo, de longe, o intelectual mais refinado já produzido pelos corredores da Unir. Conversar com ele continua exigindo duas qualidades raras nos tempos atuais: repertório e fôlego. Cada frase vem ornamentada por referências filosóficas, citações literárias e observações tão sofisticadas que, às vezes, o interlocutor ri primeiro e só entende a piada vinte minutos depois.
CONTEMPORANEIDADE
Seu humor permanece ácido em nível industrial. Há quem saia das conversas com Ari mais sábio; outros saem apenas feridos. Mas todos saem divertidos. O ex-reitor continua antenado com o tempo presente, embora enxergue a contemporaneidade como quem observa o Apocalipse sentado numa confortável cadeira de biblioteca. Para ele, o cidadão médio é fruto desse caldo civilizatório produzido pela digitalização da vida e pela substituição do pensamento pela dancinha verticalizada.
GRAÇA
Naturalmente, o tema “influencers” surgiu à mesa. Ott demonstrou sincera perplexidade com o fato de pessoas serem milionárias apenas filmando a própria rotina ou ensinando receitas de miojo motivacional. Sua opinião sobre o conteúdo produzido por essa nova aristocracia algorítmica, entretanto, é praticamente impublicável. E aí reside a graça: o refinado professor abandona subitamente Schopenhauer, Nietzsche e Ortega y Gasset para definir certos influenciadores com expressões tão populares e devastadoras que fariam corar até caminhoneiro em fila de posto.
VELOCISTA
Fisicamente, Ari Ott já não exibe a mesma velocidade dos tempos de juventude. As cartilagens do joelho direito resolveram pedir aposentadoria antecipada e impõem um ritmo mais lento às caminhadas. Mas só às caminhadas. Porque no raciocínio, no tirocínio e na língua afiada, Ott continua um velocista olímpico. Talvez mais perigoso agora do que antes. A idade lhe retirou a pressa, mas ampliou a precisão.
CELEBRAÇÃO
Foi uma noite para celebrar o aniversário de uma amiga, mas acabou transformada numa celebração involuntária da inteligência e do humor. Perto de Ari Ott, a gente percebe duas coisas: o quanto ainda sabemos pouco e o quanto a burrice contemporânea faz barulho demais.



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