PORTO VELHO, RO - O presidente da Câmara Municipal de Porto Velho, Gedeão Negreiros, usou entrevista ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, para enfrentar diretamente a principal controvérsia política que passou a cercar sua gestão: a acusação, reproduzida no debate público e reforçada por fala de colegas, de que o comando real da Casa estaria nas mãos de seu irmão, o ex-vereador e ex-presidente do Legislativo municipal Edwilson Negreiros. Ao longo da conversa, Gedeão negou de forma categórica essa versão, disse que as decisões administrativas partem dele, associou a reação interna ao pacote de cortes que promoveu no início da gestão e sustentou que o desconforto de parte dos vereadores nasceu no momento em que benefícios e estruturas internas começaram a ser reduzidos.
A entrevista foi conduzida desde o início sob esse eixo de tensão. Depois de lembrar a repercussão de uma conversa anterior com o vereador Márcio Pacele, Robson Oliveira afirmou ter ouvido de outros parlamentares a mesma leitura segundo a qual “o irmão manda” e Gedeão seria uma espécie de “fantoche”. Diante disso, o presidente da Câmara respondeu de forma direta, afirmando: “Sou eu, como sempre.” Mais adiante, ao retomar o centro da polêmica, ele voltou a negar a tese de subordinação ao irmão e declarou que a linha adotada dentro da Câmara decorre de sua responsabilidade como gestor e ordenador de despesas, e não de interferência externa.
Ao tentar desmontar a versão de que seria controlado politicamente por Edwilson Negreiros, Gedeão associou o conflito a um processo mais amplo de reorganização financeira e administrativa. Segundo ele, ao assumir a presidência, a primeira providência foi analisar as contas da Câmara diante da queda do orçamento da Casa e da necessidade de adequação à realidade financeira. Na sua narrativa, esse movimento exigiu cortes e correções amparadas por recomendações do Tribunal de Contas e do Ministério Público, o que teria gerado resistência entre vereadores atingidos pelas mudanças. Ele disse que, numa estrutura pública, o presidente não pode agir apenas conforme sua vontade pessoal e precisa cumprir determinações dos órgãos de fiscalização, sob pena de ser responsabilizado individualmente.
Foi nesse ponto que o entrevistado inseriu um dos argumentos centrais de sua defesa. Ao explicar por que tomou medidas impopulares, afirmou: “Quando você recebe uma recomendação, uma orientação do Tribunal de Contas, do Ministério Público, o presidente que está com o CPF em jogo, você tem que atender.” A fala foi usada para justificar o corte da verba indenizatória, a redução de comissões e a revisão de despesas internas da Câmara. Na entrevista, Gedeão sustentou que as alterações não decorreram de vontade de punir colegas nem de um gesto de austeridade abstrata, mas de necessidade institucional e legal.
Entre os pontos mais sensíveis do relato está a redução da verba indenizatória. Segundo Gedeão, o valor antes disponível era de R$ 60 mil por vereador. Ele afirmou que a Câmara passou por auditoria do Tribunal de Contas desde dezembro do ano anterior e que, embora não tenham sido apontadas ilegalidades nessa rubrica, houve indicação de falhas e orientação para reforço da segurança e revisão de valores. De acordo com sua explicação, foi realizado um estudo pelo Tribunal de Contas com base em índice inflacionário, e o entendimento do órgão foi de que a Câmara precisava diminuir os gastos. O presidente afirmou que atendeu a essa orientação.
O corte, segundo ele, não ficou restrito aos demais parlamentares. Na entrevista, Gedeão disse ter cortado também benefício ligado à presidência e relatou ter recebido, no começo do mandato, uma gratificação de R$ 10 mil associada ao cargo. Ao comentar esse episódio, vinculou o tema diretamente à inelegibilidade de seu irmão, afirmando que a situação envolvendo essa gratificação acabou tendo repercussões jurídicas no passado. Segundo seu relato, por entender que o pagamento era irregular nas circunstâncias em que foi concedido, cancelou a vantagem e determinou o desconto parcelado dos valores recebidos. Ao reconstituir essa decisão, afirmou que havia recebido dois meses, devolveu os valores ao erário e tomou a medida justamente para corrigir a situação.
Ao falar desse ponto, Gedeão expôs uma linha de contraste entre sua gestão e a do irmão. Sem romper com a defesa familiar nem atacar frontalmente Edwilson Negreiros, ele disse que pretende fazer “o que é certo dentro da lei” e afirmou expressamente que não quer repetir erros que levaram o ex-presidente da Câmara a responder judicialmente e ficar inelegível. Ao mesmo tempo, tentou preservar o irmão, atribuindo o problema anterior ao atendimento de demandas que os vereadores queriam à época. Em sua formulação, o presidente atual procurou construir a imagem de alguém que aprendeu com o custo político e jurídico enfrentado pelo próprio grupo familiar e, por isso, resolveu endurecer o controle interno da Casa.
Essa tentativa de diferenciação, porém, conviveu com uma admissão importante na própria entrevista. Depois de dizer que o irmão não frequenta a Câmara há oito meses e que não tem autonomia administrativa dentro do Legislativo, Gedeão reconheceu que recebe dele orientação política. Disse também que, se Edwilson recuperar condições jurídicas para disputar eleição, será pré-candidato e terá seu apoio. Em outra passagem, ao falar sobre as pessoas que mais o orientam administrativamente, incluiu a esposa e o irmão entre os nomes que mais o aconselham. Com isso, a entrevista ao mesmo tempo negou o domínio formal de Edwilson sobre a Câmara e confirmou a permanência de sua influência no entorno político e pessoal do presidente.
Ao responder diretamente sobre a origem da acusação de fantoche, Gedeão tentou deslocar o foco da relação familiar para a reação dos vereadores atingidos pelas medidas de contenção. Ele afirmou que ninguém fica satisfeito quando perde benefícios e disse ter certeza de que a narrativa que o desqualifica politicamente nasceu desse ambiente de insatisfação. Em uma das passagens mais expressivas da entrevista, declarou: “Ninguém é feliz quando você tira algum benefício.” Segundo seu raciocínio, a tentativa de vinculá-lo a um comando oculto do irmão serviria para desconstituí-lo politicamente no momento em que ele promove alterações administrativas impopulares.
Esse argumento foi reforçado quando detalhou outras providências adotadas. Gedeão disse que reduziu as comissões internas da Câmara de 80 para 50, diminuição de 30 estruturas, e também cortou cargos comissionados. Afirmou que a Casa perdeu R$ 6 milhões em função da queda de arrecadação e ainda sofreu, no início do ano, a notícia de que o repasse do duodécimo seria reduzido de 5% para 4,5%. Segundo ele, a Câmara buscou judicialmente a manutenção do percentual aprovado na Lei Orçamentária Anual de 2026 e obteve êxito com base em entendimento que citou como já reconhecido no Supremo. Mesmo com o retorno de 0,5 ponto percentual, sustentou que a obrigação de enxugar as contas permaneceu, inclusive para permitir a posse de concursados ainda em 2026.
Dentro dessa mesma linha de defesa, Gedeão afirmou que a Câmara nunca teve um controlador interno oriundo do próprio quadro da Casa e que, no início da gestão, corrigiu essa situação conforme recomendação do Tribunal de Contas. Relatou também que concede liberdade ao controlador e à procuradora para opinarem tecnicamente sobre legalidade e risco administrativo. Em uma das falas mais incisivas da entrevista, resumiu o que diz a esses dois auxiliares: “Me ajudem a salvar o meu CPF.” A frase sintetiza a maneira como o presidente tenta justificar sua condução: menos como opção política autônoma de enfrentamento aos colegas e mais como reação preventiva a riscos de responsabilização pessoal.
A entrevista ainda mostrou que a acusação de fantoche atingiu o presidente em dimensão pessoal e política. Em diversos momentos, Gedeão disse ter ficado triste com o rótulo, afirmou que é ruim ver pessoas dizendo nas redes sociais que ele apenas repete o que o irmão escreve e sustentou que aceitaria ser criticado por sua própria gestão, mas não por um suposto controle familiar sobre seu mandato. Também recordou que sua entrada na política ocorreu como substituição da candidatura do irmão, a poucos dias da eleição, e reconheceu que isso reforçou a associação pública entre os dois. Segundo ele, durante a campanha, seu nome político era “Gedeão do Edwilson Negreiros”, o que ajuda a explicar por que a separação entre as duas imagens não ocorreu plenamente.
No terço final da entrevista, o diálogo deslocou-se para outros temas administrativos e políticos do município. Gedeão reafirmou apoio ao prefeito Léo Moraes e se definiu como vereador da base, dizendo que não tem perfil de oposição. Segundo sua fala, a relação com a prefeitura é importante porque o vereador precisa ter entrega à população. Ao ser questionado sobre cargos na administração, respondeu genericamente que possui o necessário para atender a demanda de quem o ajudou e classificou isso como algo normal na vida pública, desde que o trabalho seja feito corretamente.
Também abordou a discussão sobre IPTU em Porto Velho. Ao comentar a possibilidade de revisão de critérios, defendeu uma espécie de justiça tributária que diferencie a cobrança conforme o padrão da moradia e a oferta de serviços públicos. Disse considerar injusto que moradores de áreas periféricas sem asfalto, saneamento, creche ou posto de saúde paguem valores semelhantes aos cobrados de imóveis de padrão elevado em áreas estruturadas. Afirmou que ouviu compreensão semelhante por parte do Ministério Público e do Tribunal de Contas e antecipou a intenção de apresentar projeto para permitir desconto a contribuintes que vivem em regiões menos assistidas.
Outro tema tratado foi a atualização do código de postura do município. Gedeão disse que a norma está defasada e que a prefeitura deverá enviar projeto à Câmara para reformulá-la. Relatou conversa com o secretário municipal de Habitação, doutor Alencar, sobre imóveis abandonados, acúmulo de usuários de drogas e necessidade de impor obrigações aos proprietários para conservar esses espaços. Também mencionou lei aprovada no ano anterior com multas pesadas para queimadas e para manutenção de terrenos baldios em condições irregulares.
Na parte mais pessoal da entrevista, o presidente da Câmara falou sobre a própria trajetória, disse estar se adaptando à vida política, afirmou que gosta de atender a comunidade e destacou a influência da família em sua formação. Citou o tio, a prima e o irmão com passagem pela política e reconheceu que ainda se vê como aprendiz. Também atribuiu papel relevante à esposa, pré-candidata a deputada federal segundo a conversa, dizendo que ela o orienta tecnicamente e administrativamente com base na experiência acumulada na gestão pública municipal.
A entrevista foi encerrada com nova tentativa de Gedeão de fixar sua versão sobre a crise. Ele agradeceu o espaço para exercer o contraditório e insistiu que quer ser cobrado por seus próprios atos de gestão, não por uma imagem construída a partir da atuação passada do irmão. Ao fazer esse movimento, deixou claro o traço dominante de toda a conversa: a defesa de que a impopularidade interna causada pelos cortes abriu caminho para uma narrativa política que tenta esvaziar sua autoridade, justamente quando ele diz estar reorganizando a Câmara para atender exigências legais, conter despesas e evitar que a presidência repita problemas que já atingiram o grupo político de sua família.
FRASES DE GEDEÃO NEGREIROS NO RESENHA POLÍTICA:
01) “Sou eu, como sempre.”
A frase foi a resposta mais direta de Gedeão Negreiros à pergunta sobre quem manda na Câmara de Porto Velho, numa entrevista marcada justamente pela acusação de que ele seria comandado pelo irmão, Edwilson Negreiros.
02) “Quando você recebe uma recomendação, uma orientação do Tribunal de Contas, do Ministério Público, o presidente que está com o CPF em jogo, você tem que atender.”
A declaração apareceu no momento em que o presidente tentou justificar os cortes e mudanças internas, sustentando que sua margem de decisão está condicionada às recomendações dos órgãos de controle e ao risco de responsabilização pessoal.
03) “Lá no início do meu mandato, eu recebi um valor indevido do meu salário, que era uma gratificação do presidente, que por conta dessa gratificação, que o meu irmão deixou de estar elegível hoje.”
Ao comentar a devolução de valores recebidos na presidência, Gedeão ligou diretamente a discussão sobre gratificação ao caso que atingiu o irmão e acabou transformando o tema em um dos pontos mais sensíveis da entrevista.
04) “Eu não vou perder minhas coisas por conta de situações que eu não posso fazer.”
A fala surgiu quando o vereador explicou por que decidiu rever despesas, benefícios e atos administrativos, apresentando a presidência da Câmara como um posto de alto risco pessoal e patrimonial.
05) “Reduzir verba indenizatória. Reduzir comissões dentro da casa, os jetons. Reduzir cargo comissionado.”
A frase resume o pacote de cortes apresentado por Gedeão como causa principal do desgaste político que passou a enfrentar dentro da Câmara Municipal.
06) “Meu irmão, administrativamente, dentro da casa, não tem nenhuma autonomia.”
Essa foi a negativa mais enfática do presidente sobre eventual interferência de Edwilson Negreiros nas decisões formais da Câmara, ponto central da controvérsia enfrentada na entrevista.
07) “Mas assim, o meu irmão tem uma força de me orientar politicamente.”
Logo depois de negar autonomia administrativa do irmão, Gedeão reconheceu influência política dele, produzindo uma das passagens mais delicadas e contraditórias da conversa.
08) “Ninguém é feliz quando você tira algum benefício.”
A frase foi usada para explicar por que, na visão do entrevistado, as críticas e a narrativa de que ele seria um fantoche ganharam força após os cortes promovidos em sua gestão.
09) “Me ajudem a salvar o meu CPF.”
Ao revelar o que diz ao controlador e à procuradora da Câmara, Gedeão resumiu em termos crus sua principal preocupação administrativa: evitar irregularidades que possam lhe trazer consequências futuras.
10) “Eu quero fazer, tudo que o meu irmão, não criticando o meu irmão, tudo que ele fez no mandato dele como presidente, eu quero fazer o que é o certo dentro da lei.”
A declaração foi dada quando o presidente tentou marcar diferença entre sua gestão e a do irmão, sem romper politicamente com ele, mas deixando claro que quer ser visto como alguém que escolheu outro caminho administrativo.



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