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PORTO VELHO, RO - O caso de Confúcio Moura, em 2026, já não pode ser lido como um episódio solto, restrito ao debate sobre a BR-364. O que se vê é uma sequência política que começou antes, ganhou forma em 2023 e desembocou, agora, numa postura feroz, enfática e eleitoralmente autodestrutiva. Em ano de eleição, enquanto a lógica convencional recomendaria prudência, cálculo e tato com o humor do eleitorado, o senador do MDB escolheu o caminho inverso: expôs convicções, endureceu o discurso e resolveu abraçar sozinho justamente a pauta mais impopular do momento. Em Rondônia, isso não é gesto banal. É quase ingestão continuada de estricnina eletiva.
Em suma, não se trata de um desvio recente. Há pelo menos três anos o senador vem tensionando sua relação com o eleitorado majoritariamente conservador do estado, batendo de frente com esse campo e reafirmando, de forma cada vez mais explícita, sua posição dentro do espectro progressista. Esse movimento, por si só, já carregava custo político evidente. No entanto, no caso da BR-364, o debate ultrapassa a fronteira ideológica. Ao assumir a defesa direta da concessão e do pedágio, Confúcio inaugura uma fase mais aguda e autofágica de sua própria estratégia política, avançando mesmo ciente do potencial danoso dessa escolha. Não há, nesse ponto, sinal de recuo ou tentativa de amortecer o impacto. Ao contrário, há a decisão de ir à forra, sustentando o posicionamento mesmo diante da previsível reação negativa.
O marco dessa mudança ficou claro em 5 de dezembro de 2023, quando Confúcio publicou em seu blog o texto “Vou deixar bem claro”. Ali, deixou de lado a velha zona de conforto do topo do muro e fez uma demarcação pública de identidade política. Escreveu: “1- Eu sempre tive posição bem clara. Em toda minha vida política. Eu sou um político de centro. Eu sempre fui um político de centro-esquerda. Nunca neguei isto a ninguém”. E foi além, em tom ainda mais delimitador: “Não queira me ajustar aos freios da direita. Não sou de direita. Deixo bem claro. Os meus votos no Senado ou minhas posições, como cidadão, são claramente, contra a ditadura e este mundo de radicalismos que se vê e ouve por aí”.
Dentro da normalidade democrática, nada há de irregular nessas declarações. O problema não está na legitimidade da posição, mas no ambiente em que ela é assumida. Em Rondônia, estado de eleitorado majoritariamente conservador, esse tipo de movimento nunca seria neutro do ponto de vista eletivo. Ao abandonar a ambiguidade e cair diretamente nos braços de Lula, Confúcio também se afastou de um tipo de conforto político que durante muito tempo lhe permitiu transitar com menos atrito entre campos distintos. A partir dali, passou a existir, de forma mais nítida, um senador alinhado ao governo federal petista em uma bancada predominantemente colocada em outra direção.
Esse realinhamento, por si só, já produzia custo. Mas 2026 mostrou que o senador não pretendia reduzir danos. Pelo contrário. Em 24 de janeiro de 2026, pressionado pelas cobranças em torno do pedágio da BR-364, Confúcio resolveu entrar no debate em tom de confronto. Em vídeo e texto, afirmou que o processo de concessão começou em 2019, no governo de Jair Bolsonaro, sob Tarcísio de Freitas no Ministério da Infraestrutura. Também ressaltou que o procedimento foi debatido institucionalmente e homologado pelos órgãos competentes. Mais do que isso, reagiu às críticas com visível irritação, dizendo: “O que existe agora é conversa fiada nesse estado, gente fazendo vídeo e querendo jogar nas minhas costas, sozinho, a responsabilidade pelo preço do pedágio. Isso não é verdade. É politicalha, é pré-campanha, é colocar o povo em alvoroço”. Ao final, ainda arrematou com um seco “Boa sorte a todos”.
Naquele instante, já se percebia algo maior do que uma simples defesa técnica da concessão. O senador deixava de falar apenas como quem deseja esclarecer um processo administrativo e passava a agir como quem aceita pagar o preço político do que diz. Em vez de amortecer a rejeição popular, preferiu peitá-la. Em vez de calibrar a linguagem para reduzir desgaste, elevou o grau de sincericídio. Em vez de procurar abrigo numa explicação institucional menos abrasiva, resolveu bancar a narrativa num estado em que o pedágio se transformou em sinônimo de revolta.
Dois dias depois, em 26 de janeiro, o padrão se manteve. Em nova manifestação, Confúcio sustentou que a concessão “não é uma decisão individual, nem recente” e insistiu na ideia de que se tratava de “um processo de Estado, iniciado em 2019, conduzido por órgãos técnicos e fiscalizado pelos órgãos de controle”. Já em 28 de janeiro, fez a terceira defesa pública em menos de uma semana. Dessa vez, usando a pergunta “Quanto vale uma vida?” como eixo de argumentação, reconheceu que “a preocupação com o valor do pedágio é legítima” e que “a tarifa do pedágio pode e deve ser questionada”, mas reforçou, ao mesmo tempo, que “não há dúvida: a concessão da BR-364 existe para levar segurança, obras e salvar vidas numa rodovia que há anos ameaça quem nela trafega”.
Confúcio deixa claro, em todas essas manifestações, que defende o pedágio. E faz isso sabendo do incômodo real da população com os valores praticados. Ainda que, de forma tímida e quase protocolar, reconheça que as tarifas “podem e devem ser questionadas”, sua postura não avança para além desse reconhecimento. Não há, no mesmo grau de ênfase, a defesa de medidas concretas ou enérgicas voltadas à revisão dos valores. O que se estabelece, na prática, é um discurso que admite o problema, mas não o enfrenta com a mesma intensidade com que sustenta o modelo.
Três movimentos em sequência, no intervalo de poucos dias, não indicam tropeço retórico. Indicam linha escolhida. E a linha escolhida foi justamente a de justificar o injustificável aos olhos do humor popular do momento. O pedágio, em Rondônia, não era um detalhe técnico de contrato. Era o tema mais sensível, a faísca mais inflamável, a pauta com maior capacidade de contaminar eleitoralmente quem se dispusesse a segurá-la no colo. Ainda assim, Confúcio resolveu fazer isso sozinho.
O isolamento político ficou ainda mais escancarado em 27 de janeiro de 2026, quando Maurício Carvalho, coordenador da bancada federal de Rondônia, declarou que só não se reuniu com Confúcio e que o restante da bancada inteira foi contrário “a esse movimento da concessão do jeito que foi”. Também afirmou: “Não adianta a gente ficar mentindo pra população”. Na prática, Maurício fez duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, ajudou a cristalizar a imagem de Confúcio como ponto fora da curva dentro da representação federal do estado. Segundo, ensaiou usar esse contraste como ativo político.
É exatamente aí que surge o efeito trampolim. Ao abraçar quase sozinho o pedágio, Confúcio entrega de bandeja aos demais parlamentares — inclusive aos mais letárgicos, apagados ou inócuos — a possibilidade de posar como contraponto popular. A pauta mais impopular do momento transforma-se, então, em escada. O que um carrega como peso, outros aproveitam como impulso. O senador passa a funcionar, assim, como trampolim eletivo para quem pouco produziu politicamente, mas encontra no desgaste alheio uma chance de se reposicionar diante do eleitorado.
Esse processo avança ainda mais na última sexta-feira, 27, quando Confúcio lança a série “Entenda a BR-364 — Parte 1”. O conteúdo, dividido em dez slides, parte da frase de impacto “A BR-364 sempre matou. E por décadas, ninguém fez nada” e organiza, em sequência, uma defesa estruturada da concessão. A série menciona concentração de mortes no trecho entre Jaru e Presidente Médici, relaciona os acidentes à pista simples, ao tráfego pesado, à ausência de faixas adequadas para ultrapassagem e à falta de atendimento emergencial. Depois, introduz o problema do financiamento e apresenta o valor de R$ 10,2 bilhões como montante previsto para a BR-364, com duplicação, terceiras faixas, monitoramento e socorro ao longo da via. Só então entra de vez na discussão sobre a cobrança, sustentando que “o debate sobre pedágio é legítimo. E tem que acontecer”.
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Novamente, não se tratou de um comentário lateral. Foi uma série planejada, com cinco partes anunciadas, para justificar politicamente a concessão e tentar enquadrar o pedágio como consequência de um problema estrutural histórico. Em outras palavras, Confúcio não apenas mencionou o tema: mergulhou nele, construiu uma sequência explicativa e assumiu o ônus integral de defender o argumento mais indigesto do debate público local.
Enquanto isso, o restante da bancada seguiu pelo caminho oposto ou, no mínimo, mais conveniente. Lúcio Mosquini judicializou a discussão, questionando os critérios de cálculo da tarifa e sustentando que, com os dados atuais de fluxo, o preço deveria cair pela metade ou os investimentos deveriam dobrar. Jaime Bagattoli e Marcos Rogério se manifestaram contra o pedágio no auge da revolta popular. Maurício Carvalho manteve o discurso de que o problema não são as obras em si, mas a cobrança antes da entrega das melhorias prometidas. Uns fizeram enfrentamento mais explícito, outros reduziram o ritmo depois, mas nenhum deles abraçou o pedágio como Confúcio abraçou.
A consequência política é quase didática. Ao insistir nessa defesa em pleno 2026, o senador opera contra a própria conveniência eleitoral. Trata-se de um ato de alto custo, de reduzido retorno popular imediato e de baixíssima aderência ao humor predominante do eleitorado rondoniense. É, politicamente falando, um gesto suicida. E não no sentido figurativo banal, mas no sentido objetivo de quem escolhe sustentar uma bandeira tóxica, de enorme rejeição, sem rede de proteção coletiva, sem amortecedor partidário local e sem sinal visível de recuo.
Esse conjunto de fatos ajuda a sustentar uma leitura que circula com força nos bastidores: a de que Confúcio pode estar cada vez menos interessado em disputar a reeleição com a prioridade total que normalmente move um político em reta de pré-campanha. Porque quem pretende vencer costuma alisar arestas, aparar discurso, esconder convicções que produzam rejeição excessiva e evitar virar vidraça sozinho. Confúcio fez o contrário. Escolheu a contundência. Escolheu a impopularidade. Escolheu a exposição máxima. Escolheu, inclusive, insistir no tema.
Não se está diante de uma renúncia formal nem de uma declaração explícita de saída de cena. Mas os sinais objetivos apresentados ao longo do período apontam para uma conduta que enfraquece as condições típicas de quem deseja renovar mandato. O sincericídio, nesse caso, não parece acidente. Parece método. E, quando o método passa a ser dizer o que pensa mesmo sob forte custo eleitoral, a hipótese de retração estratégica deixa de ser fantasia adversária e passa a integrar o campo das possibilidades políticas reais.
Há, ainda, outro efeito concreto nesse processo. Sendo o único aliado de Lula na bancada federal de Rondônia, Confúcio tende a concentrar em si uma carga simbólica que ultrapassa o debate sobre a BR-364. Sua defesa do pedágio acaba servindo como vitrine negativa não apenas para si, mas como ponto de contraste útil para quem desejar se vender ao eleitorado como antagonista do lulismo, da concessão e da impopularidade tarifária. Em outras palavras, o senador não apenas se desgasta: ele facilita o discurso dos outros. Vira referência negativa útil. Vira degrau. Vira trampolim.
No fim, o que está em curso é uma combinação particularmente corrosiva para qualquer projeto eleitoral: alinhamento assumido a um campo minoritário no estado, discurso sem anestesia, defesa reiterada da pauta mais impopular do momento e isolamento dentro da própria bancada. Confúcio Moura, ao trocar o conforto do muro por um mergulho frontal nas convicções que decidiu explicitar, terminou por se colocar numa posição em que o custo político é todo seu, enquanto o proveito potencial pode ser colhido por adversários, concorrentes e oportunistas de ocasião.
Ao insistir na justificativa do pedágio, ele não só compra uma briga difícil. Ele oferece ao restante da classe política de Rondônia um enredo pronto: basta apontá-lo, criticá-lo e subir. Para um senador experiente, isso dificilmente pode ser chamado de ingenuidade. Mas, eleitoralmente, o efeito é o mesmo. A defesa solitária da concessão, em pleno ano decisivo, funciona como estricnina eletiva em doses sucessivas. E, ao transformar a própria impopularidade em palco, Confúcio corre o risco de descobrir tarde demais que, na política, o sincericídio de um pode ser o trampolim de muitos.



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