Publicada em 06/02/2026 às 10h28
O debate sobre a possibilidade de o PSD indicar o vice na chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais reacende, com força, um dilema que não é apenas nacional, mas profundamente local. Em Rondônia, onde o eleitorado se identifica majoritariamente com pautas conservadoras e de direita, esse movimento cria um ruído que tende a reverberar diretamente sobre a caminhada do prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, apontado como um dos nomes em construção para disputar o Palácio Rio Madeira.
A discussão não nasce do nada. Ela se insere num processo mais amplo de reorganização partidária e de pragmatismo extremo do PSD, legenda que cresceu nacionalmente muito mais como uma massa simbiótica e adaptável a interesses alheios do que como um partido de identidade ideológica própria. Esse traço, longe de ser acidental, é fruto direto da condução de Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo e um dos mais experientes jogadores de bastidores da política brasileira contemporânea.
Em Rondônia, os efeitos dessa lógica ficaram evidentes quando Expedito Netto, atualmente secretário nacional de Pesca Industrial, ligado ao Ministério da Pesca e Aquicultura no governo Luiz Inácio Lula da Silva, formalizou sua filiação ao PT e passou a ser citado como possível ator no debate sucessório estadual. Embora o movimento político de Expedito Netto, em tese, não tenha relação direta nem com o pai, Expedito Júnior, nem com o PSD, o impacto foi imediato sobre a legenda em Rondônia.
A simples associação simbólica entre um quadro nacional do governo Lula e o ambiente político local produziu ruído suficiente para atingir o partido e, sobretudo, Adaílton Fúria, que se viu obrigado a se explicar rapidamente, reforçando seu discurso e seu posicionamento à direita para evitar leituras que o vinculassem, ainda que de forma indireta, ao campo lulista. Com o novo cenário nacional, marcado pela possibilidade de o PSD caminhar ainda mais próximo do Planalto, esse tipo de pressão tende não apenas a se repetir, mas a se intensificar.
Pouco depois, Expedito Júnior entregou o comando estadual do PSD ao governador Marcos Rocha, no exato momento em que este assinou sua ficha de filiação à legenda, em um movimento simbólico realizado na residência de Kassab. O recado foi cristalino: o PSD rondoniense passava a orbitar sob uma nova engrenagem de poder, alinhada diretamente às decisões do comando nacional.
Os rumores de bastidores indicam que Rocha não pretende disputar o Senado Federal, o que desloca sua principal missão para a reorganização interna da sigla no Estado, remanejando nomes e fortalecendo chapas proporcionais. Nesse cenário específico, se nada se alterar, sobra para Fúria a condição mais desconfortável possível: a de carregar “a bomba no colo” de ser o principal quadro estadual de uma legenda que pode caminhar nacionalmente com Lula.
É aí que a contradição se aprofunda. Fúria tenta, a todo custo, vestir a roupagem de direitista, ainda que carregue consigo uma pegada mais pragmática e realizadora, focada no mandato administrativo e distante, por natureza, das celeumas da polarização ideológica. Esse perfil, que funciona bem no exercício de uma prefeitura, torna-se frágil quando o projeto é estadual. Se quiser ser governador, Fúria terá de entender que será tragado pelo furacão ideológico, obrigado a tomar posições cada vez mais acintosas, afirmando e reafirmando quem é e o que deseja politicamente, enquanto sua legenda adota posturas cada vez mais esquizofrênicas e sabonetadas, atirando para todos os lados na tentativa de ocupar o maior número possível de espaços de poder.
Essa ambiguidade não é acidental. Ela é, no fim das contas, fruto direto da estratégia de Kassab, que conseguiu fazer o PSD crescer Brasil afora como uma estrutura altamente adaptável. A audácia do dirigente chega ao ponto de manter, simultaneamente, três peças no tabuleiro nacional com estatura de presidenciáveis: Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior. É a realpolitik em estado bruto, onde coerência ideológica cede espaço à maximização de oportunidades.
Nesse contexto, a reação da direita mais ideológica já está documentada. Em vídeo publicado em 20 de setembro de 2024, com ampla repercussão nas redes sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira, um dos maiores arquétipos do bolsonarismo-raiz, classificou o PSD como “o inimigo oculto”, afirmando que o partido sustentaria estruturas do governo Lula por meio do controle de ministérios estratégicos e de posições-chave no Congresso. No material, Nikolas afirmou, entre outras coisas, que “o PT é o nosso inimigo, você já sabe, mas tem um escondido debaixo do seu nariz, que se chama PSD”, criticou o papel da legenda em votações relevantes, citou a atuação de senadores do partido em temas como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e apontou diretamente Kassab como figura central dessa engrenagem. O vídeo, ainda hoje, circula como munição retórica entre setores da direita e não perdeu validade no debate político.
É exatamente esse arcabouço argumentativo que tende a ser usado contra Fúria numa eventual disputa estadual. A associação, ainda que indireta, entre PSD e Lula, reforçada pela possibilidade concreta de a legenda indicar o vice do petista em 2026, oferece aos adversários um roteiro pronto para questionar a autenticidade do discurso direitista do prefeito de Cacoal.
No fim das contas, independentemente de como Kassab venha a jogar suas peças no tabuleiro nacional, é Adaílton Fúria quem terá a árdua missão de rebater esse conjunto de argumentos, explicar suas escolhas partidárias, sustentar sua identidade política e convencer o eleitorado rondoniense de que seu projeto não será engolido pelas contradições de uma legenda que aposta, simultaneamente, em todos os lados do espectro de poder. A partir daí, a disputa deixa de ser apenas administrativa e passa a ser, inevitavelmente, ideológica.



Comentários
Seja o primeiro a comentar!