Publicada em 31/01/2026 às 10h07
A decisão do governador Marcos Rocha de se filiar ao PSD, comandado nacionalmente por Gilberto Kassab, não foi apenas um movimento partidário. Trata-se de uma inflexão estratégica que altera, de forma profunda, o desenho político de Rondônia para as eleições de 2026. Ao trocar o União Brasil por uma legenda de centro pragmático, Rocha reconfigura alianças, reabre hipóteses eleitorais e reposiciona atores que, até poucas semanas atrás, pareciam fora do jogo majoritário.
O primeiro impacto está no discurso. Em janeiro, em entrevista ao programa SIC News, o governador havia sido categórico ao afirmar que não renunciaria ao cargo para disputar o Senado. Ancorou a decisão em um argumento de confiança institucional, ao declarar que não entregaria o governo “nas mãos de alguém que me traiu”, numa referência direta — ainda que sem nomear — ao vice-governador Sérgio Gonçalves. Naquele momento, a fala parecia encerrar qualquer especulação sobre uma candidatura à Câmara Alta.
A filiação ao PSD, porém, desloca esse eixo. Tecnicamente, não faria sentido uma mudança tão brusca — com direito à assunção da presidência estadual do partido, antes ocupada por Expedito Júnior — se o Senado não estivesse novamente no horizonte. A leitura dominante nos bastidores é que, ainda que Rocha não tenha vocalizado publicamente, o gesto partidário sinaliza revisão de rota. Ao entrar em uma sigla que lhe oferece controle local, musculatura nacional e alinhamento estratégico, o governador passa a operar com outra margem de manobra.
Se essa hipótese se consolidar, o efeito cascata é imediato. Voltam ao tabuleiro a primeira-dama Luana Rocha, tratada pelo próprio governador como pré-candidata a deputada federal, e Sandro Rocha, irmão de Marcos Rocha, cotado para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. Ambos haviam sido mencionados pelo governador, na mesma entrevista de janeiro, como diretamente impactados por sua decisão de não concorrer. Com a filiação ao PSD, o cenário muda: a engrenagem familiar-política volta a girar.
Outro reflexo relevante ocorre no campo adversário. A saída de Rocha do União Brasil abre espaço para que a legenda, agora sob forte influência do ex-chefe da Casa Civil Júnior Gonçalves, possa finalmente trabalhar a pré-campanha de Sérgio Gonçalves sem a sombra do titular do cargo. Rompido publicamente com o governador, a quem passou a chamá-lo de traidor, o vice ganha liberdade para se apresentar como alternativa interna, sobretudo se a renúncia de Rocha vier a se confirmar.
Nesse contexto, surgem também rumores cada vez mais insistentes sobre uma possível tentativa de cooptação do ex-prefeito de Porto Velho Hildon Chaves, atualmente no PSDB. Não está claro qual seria o desenho dessa eventual parceria — governo, Senado ou Câmara Federal —, mas a simples especulação já amplia o leque de possibilidades. Caso Sérgio Gonçalves assuma o governo, terá uma vitrine robusta para se reposicionar politicamente, recuperando palatabilidade junto ao eleitorado após um período de esvaziamento administrativo e político.
Se, além disso, o União Brasil conseguir agregar um “cacique” como Hildon Chaves, o ganho simbólico e estrutural seria significativo. A legenda passaria a operar com dois polos de visibilidade: o Palácio Rio Madeira e uma liderança com recall eleitoral consolidado na capital.
É nesse mesmo ambiente de rearranjos que entra em cena o empresário Everton Leoni, apontado nos bastidores como possível nome para compor uma chapa majoritária, especialmente na condição de vice. A hipótese, ventilada desde o começo de janeiro, dialoga com a própria lógica expansiva do PSD em Rondônia: agregar perfis com forte presença midiática, capilaridade regional e capacidade de comunicação direta com o eleitorado. Há, nesse movimento, uma dose evidente de megalomania política — no sentido literal do termo —, na medida em que a legenda parece disposta a montar uma estrutura de poder que extrapola o padrão local, somando governador em exercício, prefeitos estratégicos, controle partidário e figuras com alcance comunicacional próprio. Não se trata de improviso, mas de um desenho que revela ambição elevada e disposição para ocupar todos os espaços possíveis do debate público.
No plano do Senado, o movimento de Rocha ganha ainda mais peso. A eleição de 2026 terá duas vagas em disputa, o que, historicamente, amplia a competitividade e atrai um número elevado de nomes fortes e populares. Pesquisa recente feita pelo instituto Real Time Big Data, no fim de 2025, já indicou um cenário fragmentado, com o próprio Marcos Rocha aparecendo nas primeiras posições. Caso decida rumar à Câmara Alta, ele larga com uma vantagem objetiva: é o detentor da máquina pública estadual, com capacidade de agenda, visibilidade e articulação institucional — um ativo decisivo em disputas majoritárias.
O PSD, por sua vez, também joga em múltiplos tabuleiros. Em Rondônia, o partido tem como pré-candidato ao governo o prefeito de Cacoal Adailton Fúria, que lidera um projeto próprio ao Palácio Rio Madeira. Nacionalmente, a legenda comandada por Kassab vem acumulando pretensões mais ousadas. Hoje, abriga três governadores frequentemente citados como potenciais presidenciáveis: Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite. A filiação de um governador da Região Norte como potencial pré-candidato ao Senado reforça essa ambição de projeção nacional para, eventualmente, criar elasticidade em termos de governabilidade.
No plano local, Expedito Júnior permanece como peça-chave. Ao abrir mão do comando estadual para Rocha, não saiu de cena. Ao contrário, mantém influência em uma sigla que elegeu sete prefeitos em 2024 — em municípios como Cacoal, Ministro Andreazza, Monte Negro, Nova União, São Felipe d’Oeste, Theobroma e Vale do Paraíso — tornando-se a terceira força municipal do estado, atrás apenas do União Brasil e do PL. Não se trata de um ator que “dá ponto sem nó”.
Há, contudo, um fator de tensão permanente. Em um estado politicamente polarizado como Rondônia, a filiação de Expedito Netto, filho de Expedito Júnior, ao PT, com intenção declarada de disputar o governo, impõe um ônus retórico ao PSD. Netto obriga Expedito Júnior, Fúria e agora também Marcos Rocha a reforçarem, reiteradamente, compromissos com a direita e com pautas conservadoras, numa tentativa constante de afastar o espectro do “comunismo-lulismo-petismo” do discurso partidário.
Ainda assim, o saldo é inequívoco.
A filiação de Marcos Rocha ao PSD não é um gesto isolado nem meramente burocrático. Ela reabre cenários que pareciam encerrados, recoloca personagens em movimento e altera a correlação de forças tanto para o governo quanto para o Senado. Em política, timing é substância. E, neste momento, o passo dado por Rocha mudou tudo.



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