PORTO VELHO, RO - O tabuleiro político de Rondônia para as eleições de 2026 revela um paradoxo persistente: embora o campo progressista continue presente na disputa, suas principais lideranças enfrentam obstáculos estruturais para transformar presença política em competitividade eleitoral majoritária. Em um estado historicamente inclinado ao conservadorismo e fortemente identificado com o bolsonarismo, os nomes ligados direta ou indiretamente à esquerda transitam entre o pragmatismo e o enfrentamento ideológico, tentando encontrar espaço em um eleitorado pouco receptivo às suas bandeiras.
Nesse contexto, o senador Confúcio Moura, do MDB, aparece como o principal nome de centro-esquerda no estado, seja na hipótese de buscar a reeleição ao Senado ou até mesmo de disputar o Governo de Rondônia. A posição, contudo, carrega custos políticos evidentes. Confúcio é hoje o único aliado declarado do presidente Lula na bancada federal rondoniense, circunstância que o coloca sob pressão constante em um ambiente eleitoral marcadamente conservador. A associação com o governo petista transforma-se em alvo recorrente de críticas, especialmente quando somada a cobranças relacionadas a temas sensíveis no estado.
Entre essas cobranças estão as discussões sobre as onze reservas ambientais existentes em Rondônia, frequentemente apontadas por críticos como fator que teria deixado populações sem moradia, além do apoio do senador à concessão da BR-364, rodovia que atualmente concentra um dos pedágios mais caros do país. A soma desses elementos compõe um quadro de desgaste político que se soma à própria autodefinição de Confúcio como integrante do campo de centro-esquerda — posição que, por si só, já o coloca em situação delicada diante de parcela expressiva do eleitorado local.
Ainda assim, o senador procura equilibrar discurso e atuação institucional. Em suas falas públicas, adota frequentemente uma postura pragmática, destacando a destinação de recursos federais ao estado e procurando manter uma atuação que dialogue com diferentes setores políticos e econômicos.
No outro extremo do espectro discursivo progressista surge Samuel Costa, filiado à Rede Sustentabilidade. Diferentemente da estratégia mais moderada de Confúcio, Costa se destaca como um dos mais enfáticos defensores do governo Lula em Rondônia, posição que assume inclusive com intensidade superior à de muitos quadros regionais do próprio PT. Utilizando sobretudo as redes sociais como arena política, Costa confronta lideranças bolsonaristas e exalta o que considera avanços da gestão petista no país.
Essa postura, porém, o insere em um cenário eleitoral incerto. Suas posições são frequentemente impopulares no contexto regional, e sua trajetória política tem sido marcada pela tentativa de conquistar cargos majoritários, sem ainda ter testado, ao menos recentemente, sua capacidade eleitoral em disputas legislativas, como vereador ou deputado. A insistência em voos políticos elevados lembra a trajetória do pastor Aluízio Vidal, outro nome identificado com o campo progressista que acabou diluído eleitoralmente após tentar disputas consideradas maiores do que sua base política permitia.
Outro personagem relevante nesse mosaico é o ex-senador Acir Gurgacz, do PDT, que pretende retornar ao Congresso Nacional. Empresário de grande porte, com atuação tanto no setor de comunicações quanto — especialmente — no transporte interestadual de passageiros, Gurgacz construiu ao longo da carreira um perfil político que procura evitar confrontos ideológicos diretos.
Sua trajetória, contudo, também carrega peculiaridades. Durante o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o ex-senador defendeu o afastamento da petista mesmo reconhecendo que não identificava crime de responsabilidade. Essa combinação entre posições heterodoxas e pragmatismo político sempre marcou sua atuação parlamentar. Enquanto senador, Gurgacz buscou manter diálogo com diferentes lideranças nacionais e concentrou parte significativa de seu discurso na viabilização de recursos para Rondônia, evitando entrar em disputas ideológicas abertas. Essa postura permanece presente na tentativa de retorno ao Parlamento, sustentada também por forte presença publicitária nas redes sociais.
No campo petista, o nome que surge no horizonte eleitoral é o do ex-deputado federal Expedito Netto, hoje filiado ao PT e atualmente secretário nacional de Pesca Industrial no governo Lula, função vinculada ao Ministério da Pesca e Aquicultura. A filiação ao partido representou uma inflexão significativa em sua trajetória política recente.
Dez anos antes, em 2016, Netto havia votado favoravelmente ao impeachment de Dilma Rousseff, com discursos contundentes contra a corrupção. Agora, integrado ao governo Lula e filiado ao PT, assume posição política distinta daquela adotada no passado. A mudança levanta dois tipos de interpretação nos bastidores políticos: para alguns, pode representar um movimento tático que permitiria ao grupo político ligado aos Gonçalves Ferreira, ou seja, os Expedito pai e filho, apresentar mais de uma alternativa eleitoral em 2026; para outros, trata-se de uma ruptura pessoal que levou o ex-parlamentar a alinhar definitivamente sua trajetória ao campo petista.
Independentemente da leitura, Netto enfrenta uma tarefa politicamente complexa. Por um lado, precisará convencer setores mais tradicionais da esquerda de que sua mudança de posição não representa apenas conveniência eleitoral. Por outro, terá de dialogar com um eleitorado majoritariamente inclinado à direita, buscando transferi-lo para um projeto político claramente identificado com o campo progressista.
Outro nome que apareceu recentemente no cenário político local é o de Célio Lopes, do PDT. Ele emergiu com força relativa na eleição municipal de Porto Velho em 2024, quando terminou o primeiro turno em terceiro lugar, obtendo 29.358 votos, o equivalente a 11,74% do total. Naquela disputa, ficou atrás de Mariana Carvalho, que liderou o primeiro turno, e de Léo Moraes, que avançou para o segundo turno e acabou eleito prefeito da capital.
Desde então, contudo, a movimentação política de Lopes parece ter perdido intensidade. Observadores do cenário local avaliam que o capital político apresentado naquela eleição ainda não foi preservado com a mesma visibilidade pública, o que pode enfraquecer eventuais projetos eleitorais futuros, caso se confirmem.
Vinícius Valentin Raduan Miguel, o Vinícius Miguel, atual titular da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA) na gestão do prefeito Léo Moraes, em Porto Velho, também exerce papel relevante na estrutura partidária do PSB em Rondônia, onde atua como mandatário estadual da legenda. Apesar de ainda não ter sinalizado intenção de disputar cargos nas eleições de 2026, seu histórico eleitoral costuma ser lembrado nos debates políticos locais. Em 2018, na primeira vez em que concorreu a um cargo público, disputou o Governo de Rondônia e terminou a eleição em quarto lugar, com 110.585 votos, tendo sido o candidato mais votado em Porto Velho naquele pleito. Dois anos depois, em 2020, voltou às urnas na disputa pela Prefeitura da capital e ficou em terceiro lugar, obtendo 29.369 votos. O desempenho nas urnas chamou a atenção de gestores municipais, como o então prefeito Hildon Chaves, que o convidou para ocupar funções estratégicas na administração. Posteriormente, já na gestão de Léo Moraes, Vinícius assumiu a condução da SEMA, onde permanece como secretário. No cenário político atual, sua atuação tende a concentrar-se mais na organização partidária e na estruturação das nominatas do PSB no estado, exercendo papel de dirigente político, sem indicativos, até o momento, de nova candidatura.
Esses diferentes percursos políticos foram, em determinado momento recente, reunidos sob uma mesma tentativa de articulação coletiva. Em maio de 2025, partidos progressistas, sindicatos e movimentos sociais lançaram em Porto Velho o movimento Caminhada Esperança, iniciativa que buscava construir uma agenda comum para o campo progressista rondoniense. O ato reuniu representantes de oito partidos — PT, PDT, PSB, PCdoB, PV, PSOL, Rede e MDB — além de organizações sociais e sindicais, defendendo bandeiras como democracia, justiça social, desenvolvimento sustentável e ampliação de políticas públicas.
Nos meses seguintes, o movimento ampliou sua mobilização com encontros regionais e articulações políticas. Em novembro de 2025, a coordenação reafirmou a intenção de apresentar candidaturas ao Governo e ao Senado em 2026, indicando como prioridades os nomes do senador Confúcio Moura e do ex-senador Acir Gurgacz. A estratégia previa uma plenária estadual em março de 2026 para definir a chapa majoritária e apresentar um plano de desenvolvimento sustentável e inclusivo para Rondônia, elaborado a partir de consultas a diversos setores da sociedade.
O movimento também realizou, em dezembro daquele ano, um encontro em Vilhena, reunindo lideranças políticas, sindicais e representantes da sociedade civil de municípios do Cone Sul. O objetivo declarado era consolidar uma agenda programática baseada em inclusão social, fortalecimento da agricultura familiar, estímulo à produção e valorização de serviços públicos.
Naquele momento, o clima era de mobilização e expectativa. A diversidade de partidos e organizações presentes transmitia a imagem de um campo progressista disposto a atuar de forma coletiva e coordenada nas eleições de 2026.
Entretanto, passados poucos meses, a atmosfera inicial parece ter se dissipado. Entre o final de 2025 e meados de março de 2026, a ideia de unidade que marcou o lançamento da Caminhada Esperança perdeu parte de sua intensidade política. A empolgação demonstrada nos atos iniciais cedeu espaço a movimentações mais discretas e individualizadas, com lideranças reposicionando estratégias de maneira menos pública e com menos gestos de convergência entre si.
O cenário reforça uma característica recorrente da esquerda rondoniense: a dificuldade de transformar articulação política em unidade eleitoral consistente. A fragmentação reaparece justamente no momento em que o campo progressista precisaria de maior coesão para enfrentar um ambiente eleitoral amplamente dominado por forças conservadoras.
Em outro editorial publicado pelo site Rondônia Dinâmica em novembro de 2025 destacou que o voto progressista, embora minoritário no estado, desempenha papel decisivo nas disputas majoritárias. Segundo a análise, essa parcela do eleitorado não possui força suficiente para conduzir uma candidatura própria ao governo, mas exerce influência determinante quando a disputa chega ao segundo turno. Nesse contexto, o voto da esquerda transforma-se em elemento de equilíbrio político, capaz de definir o vencedor quando as forças conservadoras se fragmentam.
RELEMBRE:
Voto da esquerda é o “santo graal” para chegar ao Governo de Rondônia em 2026
Essa lógica permanece presente no horizonte eleitoral de 2026. A esquerda rondoniense tende novamente a ocupar a posição de fiel da balança: pequena demais para governar sozinha, mas suficientemente relevante para influenciar o resultado final.
Ao mesmo tempo, os desdobramentos do cenário nacional podem alterar rapidamente esse equilíbrio. A dinâmica política brasileira atravessa um período de forte volatilidade. O presidente Lula enfrentou recentemente desgaste após as tarifas impostas pelos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, mas recuperou parte de sua aprovação após negociar a retirada de sanções relacionadas à Lei Magnitsky. Na sequência, porém, novos episódios voltaram a tensionar o ambiente político nacional, incluindo desdobramentos da CPI do INSS e menções envolvendo o Banco Master.
Esse ambiente de instabilidade política aparece refletido nas pesquisas eleitorais. Levantamento da *Quaest divulgado em março de 2026 mostrou, pela primeira vez, empate numérico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno presidencial, ambos com 41% das intenções de voto. Em dezembro, a vantagem do presidente era de dez pontos; em janeiro caiu para sete; em fevereiro para cinco; e agora desapareceu.
As oscilações indicam que o cenário nacional permanece aberto e sujeito a mudanças rápidas. Em estados como Rondônia, onde a polarização ideológica tem forte impacto eleitoral, essas variações podem repercutir diretamente na disputa local.
Diante desse quadro, o campo progressista rondoniense entra na corrida de 2026 dividido entre pragmatismo e identidade política. Suas lideranças buscam caminhos distintos para sobreviver eleitoralmente em um território conservador. A questão central permanece a mesma: transformar presença política em viabilidade eleitoral.
Até agora, a esquerda do estado segue mais próxima de influenciar resultados do que de conquistá-los diretamente. Ainda assim, na matemática eleitoral de Rondônia, mesmo uma minoria pode continuar tendo peso suficiente para decidir quem governará.
___________________
*A pesquisa citada no editorial está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-05809/2026. Foi realizada entre os dias 5 e 9 de fevereiro. Foram feitas 2.004 entrevistas presenciais, com brasileiros de 16 anos ou mais. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais.



Comentários
Seja o primeiro a comentar!