Publicada em 10/02/2026 às 09h06
PORTO VELHO, RO - Em entrevista ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, o governador de Rondônia, Marcos Rocha, foi direto ao tentar encerrar especulações eleitorais e, ao mesmo tempo, reposicionar seu grupo para 2026. Ele negou de forma definitiva qualquer candidatura ao Senado, mesmo citando levantamentos em que aparece “à frente”, e disse que sua escolha é cumprir integralmente o segundo mandato até a posse do sucessor, em 5 de janeiro de 2027. Ao responder à pergunta sobre uma eventual pré-candidatura, Rocha afirmou: “você já viu que quando eu falo algo, eu não tô blefando… eu não sou um homem de blefe, de tentar enganar as pessoas pra tentar conseguir algo… eu não sou candidato ao Senado, apesar das pesquisas estarem me colocando à frente”. No mesmo trecho, ele criticou levantamentos que, segundo ele, seriam “direcionados”, diferenciando-os do que chamou de “pesquisas verdadeiras”, e declarou que não compra pesquisas, usando-as apenas para leitura de cenário.
A negativa veio acompanhada de um recado político mais amplo. Rocha disse que parte do debate público em redes sociais distorce o que a população realmente deseja e que a disputa eleitoral costuma se alimentar de interpretações e movimentos calculados. Ao tratar do ambiente pré-eleitoral, ele afirmou que as pessoas “não estão acostumadas com gente como eu” e elevou o tom ao afirmar: “cuidado, muito cuidado com as falsas promessas, com os enganadores, com aqueles que vão usar técnicas de programação neurolinguística. Tem gente que faz cursinho lá em São Paulo para poder aprender como enganar você”. Na leitura do governador, há “arte da enganação” na política, e críticas ao governo podem ter motivação eleitoral, não necessariamente técnica.
A entrevista também expôs a costura partidária que reposiciona Rocha e, por consequência, o xadrez local para 2026. Ele confirmou a saída do União Brasil e a filiação ao PSD, vinculando a decisão a convites de lideranças nacionais — Ratinho Júnior, Caiado e Gilberto Kassab — e ao aval do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com quem relatou ter conversado antes de trocar de sigla. Segundo Rocha, comunicou a decisão ao presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, por “educação”, e sustentou que tentou permanecer, mas optou por alinhar o projeto político ao partido do prefeito de Cacoal, Adailton Fúria. Na entrevista, Robson Oliveira mencionou que o partido “era seu” mas “continuaram na mão de outra pessoa”, citando nomes como Júnior Gonçalves e o deputado federal Maurício Carvalho; Rocha respondeu dizendo que não estava “brigando com ninguém” e reafirmou que a decisão estava tomada.
A sucessão estadual apareceu como um dos pontos mais sensíveis e, ao mesmo tempo, mais explícitos da conversa. Rocha deu sinais claros de endosso a Adailton Fúria como nome preferencial para o governo, descrevendo o prefeito como alguém “íntegro” e com “humildade” por reconhecer publicamente parcerias com o Estado. Ele relatou que passou a observar prefeitos que recebiam recursos estaduais e, segundo sua narrativa, nem todos atribuíam o crédito ao governo.
Ao justificar por que Fúria se destacaria, disse: “ A capacidade de humildade da pessoa de falar a verdade”. Rocha ainda citou apoio político recebido em 2022 e afirmou que o prefeito teria “subido no carro de som” em sua reeleição, mencionando votação expressiva em Cacoal.
Ainda no campo político, já na reta final da entrevista, surgiu um dos momentos mais delicados do ponto de vista pessoal e político envolvendo o vice-governador. Após o apresentador afirmar que o ano teria começado com uma “traição”, Rocha respondeu adotando tom de encerramento do assunto e de tentativa de pacificação pública. Ele declarou: “Já virou a página. A gente tem que sair do ciclo vicioso… Agora eu simplesmente esqueci. Deixa para lá. O meu vice tem direito a ser candidato? Claro que tem. Ele vai ser o candidato a senador, a governador, ele tem lá o partido para fazer isso… e eu sei que vai fazer um grande trabalho e dar continuidade aperfeiçoada ao trabalho que a gente vem desenvolvendo.” No trecho, o governador não detalha o episódio citado pelo apresentador, não faz acusação direta e trata o cenário como superado, reforçando apenas que considera legítimo o direito político do vice de disputar cargos majoritários.
Com a migração para o PSD, o governador projetou um partido em expansão e insinuou que pretende comandar a formação de nominatas competitivas. Disse que prefeitos e nomes fortes o procuraram, afirmou que pretende “repetir a dose” de eleger bancadas e projetou que o PSD terá candidatura ao Senado, sem revelar quem. Ao falar do tema, Rocha adotou uma linguagem de mobilização e aposta política: “Quem não entrar no nosso barco depois vai se arrepender… Quem não vier, quem cair na lábia de outros, depois falar por que eu não fui para lá”. Também citou a primeira-dama Luana Rocha como nome de peso eleitoral, ao lembrar conversa com Rueda na qual o dirigente teria dito que ela seria “arrastadora de votos”.
O roteiro polêmico avançou para temas sensíveis de governo e para disputas públicas sobre saúde, infraestrutura e tributos. Na parte dedicada à crise hospitalar e às críticas recorrentes ao sistema estadual, Rocha contestou a classificação de “saúde falha” e reagiu ao argumento de que a área seria o principal ponto frágil de sua gestão. Ele disse que filas de cirurgias eletivas teriam sido eliminadas, citando procedimentos como catarata, coluna, perna e coração, e listou melhorias em unidades como Hospital de Base e Cemetron, onde afirmou ter havido ampliação de leitos de UTI e regularidade de medicamentos.
O ponto mais controverso apareceu quando tratou do Hospital João Paulo II: reconheceu o problema de estrutura antiga e superlotação, mas disse que imagens divulgadas seriam, em parte, “fotos antigas” e que haveria filmagens feitas apenas nos momentos de maior movimento. “Somente filmam quando lota”, afirmou, acrescentando que isso “fica na mente da gente”. Ao relatar uma experiência pessoal de décadas atrás, contou que presenciou a falta de espaço e descreveu a unidade como sobrecarregada já naquele período, usando o episódio para reforçar a tese de que a pressão hospitalar é histórica e ampliada pelo atendimento regional.
O governador, contudo, reafirmou que a solução passa por um novo pronto-socorro e disse estar trabalhando com o Tribunal de Contas para evitar erros burocráticos e travas administrativas. Ele citou o presidente do TCE-RO, Wilber Coimbra, e o conselheiro Edilson de Sousa, além de técnicos mencionados na conversa, como atores que estariam ajudando a “ver possíveis falhas” no processo. Também colocou na mesa uma informação que classificou como inédita na entrevista: admitiu a possibilidade de compra do Hospital 9 de Julho, desde que o preço seja “justo”, após dizer que não avançou antes porque o valor teria “triplicado” e, segundo ele, estaria “superfaturado”. “Isso tem um furo para mim. É a primeira vez que estou falando. Se nos buscar e for preço justo, estou à disposição”, declarou, dizendo que a aquisição permitiria “dois grandes centros hospitalares” na capital.
Outra frente de tensão tratada no programa foi o projeto aprovado na Assembleia Legislativa sobre grandes devedores, descrito por críticos como “anistia fiscal”. Rocha rejeitou o rótulo e disse que o texto não perdoa o principal da dívida, mas trata de negociação de encargos, como juros e multas, com objetivo de destravar valores antigos, judicializados e de difícil recuperação. Na entrevista, ele comparou o mecanismo a uma negociação bancária e afirmou que, em 2019, tentou fazer algo semelhante, mas o debate público teria transformado o tema em “perdão”, chegando a uma CPI que, segundo ele, “não deu em nada”. Ele sustentou que o impulso para o projeto veio de prefeitos, que teriam pedido formalmente a medida por necessidade de recursos. “Quando na verdade o que a gente queria era trazer os recursos para o Estado”, disse, alegando que “aproveitadores políticos” estariam gritando por interesse eleitoral. Ao explicar o destino da arrecadação, afirmou que 25% iriam aos municípios, citando um exemplo mencionado no programa de que Porto Velho poderia receber cerca de R$ 40 milhões, e que o restante teria repartição vinculada a percentuais para educação e saúde, além de obras.
No mesmo bloco, Rocha citou um segundo objetivo: encerrar a disputa histórica envolvendo débitos cruzados entre a CAERD e a companhia de energia, numa dinâmica descrita no programa como “bola de neve”. Ele afirmou que a medida buscaria tirar o tema do centro do debate eleitoral, ao dizer que a questão “não vai ser mais questão de debate na campanha eleitoral, porque vai estar solucionado”.
A privatização da CAERD foi tratada como um próximo embate de alto impacto. Rocha confirmou a intenção de estruturar uma PPP e afirmou que o Estado “nem sempre é bom de realizar”, mas seria “bom de cobrar”, defendendo o modelo como forma de universalizar água e saneamento e reduzir problemas de saúde pública. Ele disse que o projeto foi desenhado com apoio do BNDES, e citou a privatização da Sabesp em São Paulo como referência de operação que, segundo ele, funcionou apesar da resistência inicial enfrentada por Tarcísio. Na entrevista, contudo, o próprio governador reconheceu o risco político do tema e admitiu preocupação com tarifas “abusivas” em processos de concessão, usando como exemplo o pedágio na BR-364, que também dominou a parte mais crítica do programa.
No trecho sobre a BR-364, Rocha afirmou apoiar a duplicação da rodovia por considerá-la uma “necessidade do povo” e citou que formalizou pedidos desde 2018/2019, encaminhando documentos tanto ao governo Bolsonaro quanto ao governo Lula. Ao mesmo tempo, fez críticas duras aos valores e ao desenho de cobrança. “Eu não sou contra o pedágio, mas não dessa forma… valores altíssimos e antes de existir realmente a duplicação, isso é um absurdo”, disse, classificando a tarifa como “absurda”. O ponto mais politicamente sensível veio quando atribuiu à bancada federal a responsabilidade pela fiscalização do contrato e afirmou que não adiantaria reagir após a assinatura. “Infelizmente, eu preciso dizer… não adianta a bancada federal, depois do contrato assinado, depois de não ter tomado o cuidado devido, fazer reunião com a população… a audiência pública é feita depois que tu já deu o contrato assinado, vai servir para quê? Tem validade? Nenhuma”, afirmou. Ao ser questionado se foi avisado das tarifas, respondeu que não, e reforçou que o acompanhamento do formato seria tarefa ligada à esfera federal.
No terço final da conversa, o tom ficou mais leve e passou por pormenores do próprio programa e do estilo pessoal do entrevistado. Rocha disse estar “em paz”, afirmou que não tem “ganância por poder” e repetiu a ideia de missão cumprida, fazendo referência à própria formação militar. Também comentou bastidores de relacionamento institucional, dizendo que conversou com lideranças e citou nomes de jornalistas e interlocutores com quem fala por telefone ou mensagens. Houve momentos de informalidade, como a troca sobre chocolate produzido em Rondônia e a brincadeira sobre culinária com tambaqui. Rocha também entrou no clima do apresentador ao falar de karatê e aceitou, em tom de brincadeira, um desafio citado por Robson Oliveira envolvendo o presidente do Conselho Federal de Medicina, Hiran Gallo. Ao final, o apresentador reforçou que o programa iria ao ar “sem cortes”, mencionou dificuldades técnicas durante a gravação e encerrou com agradecimentos, enquanto Rocha reiterou que ficará no cargo até 5 de janeiro de 2027 e que sua prioridade, segundo ele, é deixar projetos “engatilhados” para continuidade.
DEZ FRASES DE MARCOS ROCHA NO RESENHA POLÍTICA:
01) “Eu não sou um homem de blefe… eu não sou candidato ao Senado, apesar das pesquisas estarem me colocando à frente.”
A fala surge quando ele tenta encerrar especulações sobre 2026 e reage diretamente à narrativa de que estaria simulando desistência para depois entrar na disputa. Ele reforça que a decisão é definitiva e diz que prefere cumprir o mandato até 2027.
02) “Existem pesquisas que as pessoas fazem que são direcionadas… e tem as pesquisas verdadeiras.”
Ele diferencia levantamentos que, segundo ele, seriam manipulados daqueles que considera confiáveis, ao mesmo tempo em que diz que não compra pesquisa e usa dados apenas para leitura de cenário político e administrativo.
03) “As pessoas não estão acostumadas com gente como eu.”
A frase aparece quando ele tenta explicar por que parte da classe política e analistas não acreditam na decisão de não disputar cargo em 2026, sugerindo que sua postura foge ao padrão tradicional de articulação eleitoral.
04) “Cuidado… com os enganadores… com aqueles que vão usar técnicas de programação neurolinguística… tem gente que faz cursinho lá em São Paulo para aprender como enganar você.”
Ele associa técnicas de comunicação política a tentativa de manipulação do eleitor, colocando o debate em tom de alerta e insinuando que há preparo técnico para influenciar comportamento eleitoral.
05) “Quem não entrar no nosso barco depois vai se arrepender.”
A declaração aparece ao falar da construção do PSD em Rondônia e da atração de prefeitos e lideranças políticas, com recado indireto a aliados e adversários sobre o tamanho do grupo político que pretende montar.
06) “Somente filmam quando lota.”
Ele usa essa frase ao falar do Hospital João Paulo II, defendendo que parte da percepção pública negativa seria construída a partir de imagens feitas apenas nos momentos de superlotação, ao mesmo tempo em que reconhece limitações estruturais da unidade.
07) “Isso tem um furo para mim. É a primeira vez que estou falando.”
Ele afirma isso ao revelar a possibilidade de compra do Hospital 9 de Julho, desde que o preço seja considerado justo, após dizer que negociações anteriores não avançaram por causa de aumento expressivo do valor.
08) “Quando na verdade o que a gente queria era trazer os recursos para o Estado.”
A frase aparece ao defender o projeto dos grandes devedores, criticado como anistia fiscal. Ele sustenta que a medida não perdoaria dívida principal, mas permitiria recuperar valores considerados difíceis de receber judicialmente.
09) “Não adianta a bancada federal, depois do contrato assinado… fazer reunião com a população… vai servir para quê? Tem validade? Nenhuma.”
Ele usa esse argumento ao falar do pedágio da BR-364, criticando valores e modelo de cobrança e dizendo que a fiscalização deveria ter ocorrido antes da assinatura contratual.
10) “Já virou a página… eu simplesmente esqueci. O meu vice tem direito a ser candidato? Claro que tem.”
A fala vem após provocação sobre suposta traição política. Ele evita detalhar o episódio, afirma que considera o assunto superado e reconhece o direito político do vice disputar cargos majoritários, citando inclusive Senado ou Governo.



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