Publicada em 07/02/2026 às 10h41
Imagem de abertura: fotomontagem/reprodução
A pré-campanha de 2026 em Rondônia começa a desenhar uma inversão curiosa de papéis entre dois dos principais nomes colocados no tabuleiro estadual. Enquanto Adaílton Fúria (PSD) se esforça para afastar sua imagem de qualquer associação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e com o campo progressista, Marcos Rogério (PL) percorre caminho oposto: tenta suavizar sua identidade política e se apresentar como um nome capaz de “governar para todos”, mesmo tendo construído sua trajetória recente como um dos quadros mais identificados com o bolsonarismo no estado.
Esse movimento não surge por acaso. Ele é consequência direta da disputa de 2022, quando Marcos Rogério chegou ao segundo turno com força, mas acabou derrotado pelo então governador Marcos Rocha. À época, a leitura predominante nos bastidores — posteriormente abordada em análises e editoriais do próprio Rondônia Dinâmica — foi de que o senador esbarrou em um limite eleitoral ao não conseguir reduzir a rejeição junto a eleitores progressistas e moderados, que acabaram migrando para Rocha por enxergá-lo como uma alternativa menos radicalizada. Em um desses textos, o voto da esquerda foi descrito como um fator decisivo no segundo turno, tese que permanece como pano de fundo das articulações atuais.
Aparentemente, a lição foi assimilada. Em 21 de dezembro de 2025, durante um encontro do Partido Liberal em Ji-Paraná, Marcos Rogério adotou um tom sensivelmente diferente daquele que marcou sua campanha anterior. Ao se colocar publicamente como pré-candidato ao Governo de Rondônia, afirmou que, para além de princípios e valores, é necessário ter capacidade de diálogo. “Mas como pré-candidato a governador, eu tenho que ter a capacidade de dialogar com todos para mostrar que Rondônia precisa de um governo que tenha a capacidade de olhar para quem está sofrendo aqui”, declarou, citando problemas estruturais como a saúde pública e a segurança, que, segundo ele, “está colocando medo no Estado todo”.
A fala representou um marco simbólico na tentativa de reposicionamento. O discurso de “governar para todos” passou a funcionar como senha política para indicar que o senador busca ampliar seu alcance eleitoral, sem abandonar formalmente sua identidade conservadora. A estratégia, no entanto, ainda convive com ambiguidades. Em fevereiro de 2026, em entrevista à Revista Cenarium, Marcos Rogério reafirmou que o PL terá candidatura própria ao governo e ao Senado, mas evitou confirmar se ele próprio encabeçará a chapa. Questionado diretamente, respondeu apenas: “Já, já, Rondônia vai saber”. A frase reforçou a percepção de que o senador mantém suas pretensões no campo das possibilidades, alimentando especulações e leituras por “código” no ambiente político.
Esse cenário de moderação discursiva contrastou, poucos dias antes, com um gesto que reacendeu resistências. Em 30 de janeiro, Marcos Rogério publicou em seu Instagram oficial uma foto ao lado do ex-governador Ivo Cassol, acompanhada da legenda: “Com governador Ivo Cassol tratando do futuro de Rondônia. Boa conversa, grandes lições e um diálogo que soma experiência e visão de futuro”. A publicação, sem detalhar o conteúdo do encontro, provocou forte repercussão entre seguidores e expôs reações polarizadas, com predominância de críticas. Parte dos comentários apontou perda de apoio eleitoral, classificou a aproximação como erro estratégico e associou Cassol à rejeição e à sua condição jurídica, enquanto apoiadores exaltaram a experiência administrativa do ex-governador e trataram o encontro como sinal de força política.
Não era a primeira vez que os dois apareciam juntos. Em outubro de 2025, outra aproximação já havia sido registrada e contextualizada em texto opinativo do Rondônia Dinâmica, que lembrou a inelegibilidade de Cassol e o histórico de controvérsias envolvendo seu apoio a candidaturas estaduais. O novo episódio, portanto, reforçou um padrão: a simples associação com Cassol funciona como um gatilho de interpretações imediatas, tanto positivas quanto negativas, independentemente de compromissos formais.
Esse tipo de reação ajuda a explicar o dilema central vivido por Marcos Rogério. Se, por um lado, ele busca reduzir rejeições fora do núcleo bolsonarista e sinalizar capacidade de diálogo, por outro, determinados movimentos acabam reativando resistências justamente no eleitorado que tende a decidir o segundo turno. A própria coluna Falando Sério, de Herbert Lins, ao projetar o cenário de 2026, apontou que o senador tem força para chegar à etapa final da disputa, mas corre o risco de repetir o desfecho de 2022 se não conseguir neutralizar o peso do voto progressista.
Não se trata, contudo, de um retorno às origens ou de uma tentativa de reconstrução identitária no campo progressista. Marcos Rogério não precisa “reencontrar” uma esquerda perdida, até porque sua trajetória política começou em um ambiente bem diferente do bolsonarismo que passou a marcá-lo nos anos seguintes. Ele foi eleito deputado federal pela primeira vez pelo PDT, uma legenda historicamente associada ao centro-esquerda e ao trabalhismo de inspiração brizolista. À época, integrava um partido que se colocava como braço político de uma tradição que valorizava soberania nacional, direitos trabalhistas, previdência pública e investimento pesado em educação, pilares que moldaram parte do debate político brasileiro no pós-redemocratização.
Esse passado está documentado de forma explícita. Em discurso proferido na Câmara dos Deputados em 21 de março de 2013, ainda como parlamentar do PDT, Marcos Rogério elogiou publicamente Darcy Ribeiro, reafirmou os compromissos históricos do partido com o trabalhismo e declarou apoio direto ao governo da então presidente Dilma Rousseff, do PT. Na ocasião, afirmou que o PDT fazia parte da base do governo e que ajudaria a presidente “a fazer o melhor pelo País”, ainda que mantendo independência crítica. O mesmo parlamentar que exaltava a destinação de 10% do PIB para a educação, combatia a flexibilização da CLT e defendia a soberania nacional seria, poucos anos depois, um dos quadros que atuariam no processo de impeachment que resultou na saída de Dilma do poder, em 2016, já inserido em outra lógica política e ideológica.
O ponto central, portanto, não é uma volta à esquerda nem uma negação do caminho percorrido. Marcos Rogério não é obrigado a reassumir bandeiras trabalhistas nem a reconstruir vínculos com o campo progressista. O que se impõe a ele, no cenário atual, é algo mais pragmático: acenar com moderação para reduzir rejeições, dissociando o político que hoje fala em “governar para todos” daquele personagem que se orgulhava do rótulo de “pitbull” de Jair Bolsonaro. A reconciliação buscada não é ideológica; é eleitoral. Trata-se menos de convencer a esquerda e mais de deixá-la confortável o suficiente para não atuar como força de veto em um eventual segundo turno.

Fúria faz de tudo para "exorcizar" a imagem de Lula, PT e esquerda / Reprodução-Fotomontagem
A dicotomia fica ainda mais evidente quando comparada à situação de Adaílton Fúria. O prefeito de Cacoal, filiado ao PSD, enfrenta pressão inversa: precisa se desvincular da imagem de Lula e da esquerda em um estado majoritariamente conservador, sobretudo diante da possibilidade de o partido caminhar nacionalmente com o governo federal. Enquanto Fúria tenta provar que não é “o candidato do Planalto”, Marcos Rogério se esforça para não ser visto apenas como o candidato do confronto ideológico permanente.
No fim das contas, o jogo eleitoral de 2026 em Rondônia parece caminhar menos pela fidelidade a bandeiras rígidas e mais pela capacidade de reduzir rejeições. Para Marcos Rogério, o desafio está claro: transformar o discurso de moderação em prática política coerente e evitar gestos que reabram feridas ainda recentes. Em um cenário fragmentado, vencer pode depender menos de ampliar a própria base e mais de convencer quem, até aqui, sempre esteve do outro lado a, ao menos, tolerar sua chegada ao Palácio Rio Madeira.



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