Publicada em 13/01/2026 às 08h07
Porto Velho (RO) - Em entrevista ao vivo concedida na noite da última segunda-feira, 12, ao programa SIC News, da SIC TV (afiliada Record), o governador de Rondônia, Marcos Rocha, do União Brasil, declarou que não pretende disputar uma vaga ao Senado em 2026 e sustentou que a decisão está diretamente ligada à ruptura de confiança dentro da estrutura do Executivo. Ao responder ao apresentador Everton Leoni sobre a possibilidade de rever o posicionamento, Rocha afirmou: “É muito difícil eu querer entregar o governo do estado de Rondônia nas mãos de alguém que me traiu.” Embora não tenha citado nominalmente o vice, Sérgio Gonçalves, também do União Brasil, a própria explicação ao longo do bate-papo eviscera a quem as críticas são direcionadas.
A declaração foi feita após Leoni relatar, no início do programa, que a presença do governador na primeira entrevista do ano gerou intensa repercussão e expectativa nas redes sociais, com audiência aguardando especialmente a confirmação sobre o futuro político do chefe do Executivo. O entrevistador questionou se, apesar do anúncio anterior de que permaneceria até o fim do mandato, haveria chance de mudança de rota e candidatura ao Senado.
Rocha iniciou a resposta dizendo que precisava explicar de forma mais ampla para que a população entendesse “o meu jeito de pensar” e comparou o que chamou de “política da mentira, da enganação” e de “promessas enganadoras” com a própria trajetória. Ele relembrou que chegou ao governo, segundo suas palavras, como “a zebra da história”, afirmando que foi eleito e depois reeleito, e retomou episódios do período pré-eleitoral e do início do mandato, quando buscou apoio em Brasília e ouviu de uma autoridade: “quem é você? Você não tem história. Como é que você foi eleito? Foi um acaso.”
Ao longo do relato, o governador também citou que, ainda na campanha e nas primeiras entrevistas, havia o questionamento sobre a viabilidade de administrar um Estado que, à época, era descrito como “quebrado” e “sem dinheiro”. Ele afirmou que a estratégia foi buscar recursos e “fazer de tudo para que o governo alcançasse patamares nunca antes vistos”, apontando avanços que atribuiu à gestão em áreas como educação, segurança e saúde, com menções a programas, unidades e hospitais.
Quando Everton Leoni retomou objetivamente o ponto central — “É candidato ou não é candidato?” — Marcos Rocha respondeu que, em sua avaliação, “quando toma uma decisão, é muito difícil voltar atrás”. Na sequência, citou conversas internas com pessoas próximas e disse ter tratado do tema com a esposa, a secretária de Ação Social (Seas/RO) e primeira-dama Luana Rocha, mencionada por ele como pré-candidata. Segundo o governador, ela teria dito: “amor, eu vou fazer aquilo que você decidir.” Rocha também mencionou o irmão, Sandro Rocha, diretor do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/RO) e afirmou que ambos serão impactados eleitoralmente caso ele não se lance como candidato. Ele descreveu que parte da equipe reagia com “olhares de tristeza”, mas ponderou que “a vida tem dessas coisas” e que decisões “às vezes, são difíceis”.
Foi nesse ponto que Rocha admitiu, em tese, a possibilidade de revisão apenas sob uma condição de ordem pessoal e religiosa, mas reiterou a tendência de manter a decisão. Ele afirmou: “É claro, pode ser que volte atrás, Se for da vontade de Deus, sim, mas é aquilo que eu falei. É muito difícil eu querer entregar o governo do estado de Rondônia nas mãos de alguém que me traiu.”
Em seguida, o governador ampliou o argumento e associou a suposta traição à confiança na administração pública. Ainda falando sobre o motivo que o levaria a permanecer no cargo até o fim, Rocha declarou: “Nas mãos de alguém que eu não sinto [confiança]. Se traiu a mim, que estendi a mão, vai trair a população também. É simples, sei que você gosta de ouvir a sinceridade, eu tô sendo sincero aqui. Então, eu não vou fazer isso.” Leoni respondeu dizendo que o governador “sempre foi sincero” no programa, ao que Rocha reforçou: “Eu sou sincero o tempo inteiro e apanho por ser sincero.”
O governador também antecipou que parte da repercussão poderia recortar sua fala e transformá-la em manchete, e citou a possibilidade de interpretações reduzidas do conteúdo. “Aí depois vão pegar um pedacinho, alguém, algum site meia sola, desculpa, vai pegar um pedacinho dizendo, o governador chama fulano de traidor”, afirmou, ao mesmo tempo em que sustentou estar expressando “a verdade que tá no meu coração”.
Provocado por Everton Leoni sobre a tentativa de diálogo do vice-governador, Rocha respondeu mencionando que tentou recompor a relação. “Eu tentei, imagina...”, disse, antes de narrar como, segundo ele, aproximou-se do grupo durante a campanha, afirmando que os “conheci ali durante a campanha e os trouxe para mim”, além de relatar que teria defendido o nome do vice para compor a chapa. “Eu briguei com as pessoas por isso. Eu briguei, eu falei. Não, ele vai tirar voto. Eu falei assim, não tem problema. Eu acredito nele, ele trabalhou direitinho esses quatro anos como secretário, então eu quero que ele seja o meu vice.”
Na explicação sobre o que chama de “traição”, Rocha apresentou um episódio como divisor de águas. Ele relatou que estava em Israel quando recebeu uma ligação do deputado Jean Oliveira, identificado por ele como vice-líder do governo, tratando de uma proposta de emenda à Constituição para permitir que o governador respondesse pelo governo à distância, durante viagens ao exterior. Rocha narrou que o parlamentar teria justificado a proposta mencionando que outros Poderes poderiam atuar fora do país e questionando por que o Executivo não teria o mesmo instrumento.
O governador afirmou que, após essa iniciativa, teria ocorrido o movimento que, para ele, caracterizou a ruptura: “Foi quando, então, o vice-governador entrou na Justiça pra tentar impedir essa ação.” Em seguida, Rocha descreveu como disse que reagiria se estivesse na posição do vice: em vez de acionar o Judiciário, teria buscado uma conversa direta. “Eu perguntaria, governador, é isso mesmo que o senhor quer fazer? O senhor quer fazer isso? O senhor não acha?”, afirmou, explicando que, na visão dele, a regra seria útil inclusive ao próprio vice no futuro. “Daqui a pouco você vai ser o governador e se você tiver que viajar pra fora, você vai continuar respondendo à distância. É simples de entender isso.”
Rocha afirmou que, a partir daquele momento, sua percepção de confiança mudou. “Mas eu não sei o que aconteceu na cabeça ali, não sei. Não entendi nada. Então ali eu pensei, olha, a partir de agora eu não tenho mais como confiar”, disse, vinculando essa quebra de confiança ao motivo para não deixar o cargo antes do fim do mandato, o que inviabilizaria, na prática, uma candidatura ao Senado no período eleitoral.
Ao longo do programa, o tema da permanência no governo foi retomado em outros momentos, incluindo quando o governador citou metas administrativas e o desejo de entregar projetos, como a estrutura hospitalar discutida na entrevista. Em uma dessas passagens, Rocha afirmou que o objetivo de concluir entregas é “um dos motivos que me faz ter a vontade de permanecer no governo”, reforçando que, ao abrir mão de uma disputa eleitoral, não abriria mão do que considera compromissos e crenças pessoais. “Eu não posso abrir mão das minhas crenças, eu não abro mão, mas de um cargo político…”, disse, em trecho em que também mencionou que a população precisaria fazer escolhas caso ele não fosse candidato.
No fim do bloco, após o intervalo, Rocha também confirmou que passou a ser procurado por pessoas interessadas no cenário eleitoral do governo do Estado, incluindo, segundo ele, nomes que não fazem parte da política tradicional. “Já, tem muita gente procurando, tem gente desconhecida me procurando, gente que não faz parte da política, que teve o interesse”, afirmou, acrescentando que há, segundo suas palavras, gente “do bem” que poderia vir a ser candidata.
A entrevista foi conduzida por Everton Leoni, com leitura de mensagens enviadas durante a transmissão. Ao ser questionado diretamente sobre a possibilidade de retroceder e disputar o Senado, o governador, embora tenha citado a hipótese de mudança apenas “se for da vontade de Deus”, sustentou que a tendência é permanecer até o fim do mandato e justificou o posicionamento pela quebra de confiança com alguém que, segundo ele, o “traiu” — razão que, na formulação apresentada no programa, tornaria incompatível entregar o Executivo a essa pessoa.



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