Publicada em 16/01/2026 às 15h29
A repressão promovida pelo Irã parece ter contido os protestos, segundo um grupo de direitos humanos e moradores. A mídia estatal informou novas prisões nesta sexta-feira (16), após as repetidas ameaças dos Estados Unidos de intervir caso as mortes continuassem.
O número de mortos divulgado pelo grupo de direitos humanos HRANA, com sede nos EUA, aumentou pouco desde quarta-feira e atualmente é de 2.677 pessoas, incluindo 2.478 manifestantes e 163 pessoas identificadas como ligadas ao governo.
A possibilidade de um ataque dos EUA também diminuiu desde quarta-feira (14), quando o presidente Donald Trump disse ter sido informado de que as mortes no Irã estavam diminuindo. Ainda assim, era esperado o envio de mais meios militares americanos para a região, sinalizando que as tensões continuam.
Aliados dos EUA, incluindo Arábia Saudita e Catar, conduziram uma intensa diplomacia com Washington nesta semana para evitar um ataque americano, alertando para repercussões em toda a região que, no fim, também afetariam os Estados Unidos, segundo uma autoridade do Golfo.
Carros são incendiados durante protesto em Teerã, capital do Irã, no dia 8 de janeiro de 2026 — Foto: West Asia News Agency/Reuters
O chefe da inteligência de Israel, David Barnea, também esteve nos Estados Unidos nesta sexta-feira para conversas sobre o Irã, de acordo com uma fonte familiarizada com o assunto. Um oficial militar israelense afirmou que as forças do país estavam em “nível máximo de prontidão”.
A Casa Branca disse na quinta-feira (15) que Trump e sua equipe alertaram Teerã de que haveria “graves consequências” se houvesse mais derramamento de sangue e acrescentou que o presidente mantém “todas as opções sobre a mesa”.
O que está acontecendo no Irã?
Os protestos começaram em 28 de dezembro, em meio à disparada da inflação no Irã, onde a economia foi devastada por sanções, antes de se transformarem em um dos maiores desafios ao regime clerical que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979.
Com o afrouxamento do bloqueio à internet nesta semana, mais relatos de violência começaram a surgir.
Uma mulher em Teerã disse à Reuters, por telefone, que sua filha foi morta na sexta-feira após participar de uma manifestação perto de casa.
“Ela tinha 15 anos. Não era terrorista, nem vândala. Forças da Basij a seguiram enquanto ela tentava voltar para casa”, afirmou, referindo-se a um braço das forças de segurança frequentemente usado para reprimir protestos.
Os EUA devem enviar capacidades ofensivas e defensivas adicionais para a região, mas a composição exata dessas forças e o momento de sua chegada ainda não estavam claros, disse uma autoridade americana, sob condição de anonimato.
O Comando Central das Forças Armadas dos EUA se recusou a comentar, afirmando que não divulga movimentações de navios.
Forte desdobramento de segurança
Vários moradores de Teerã disseram que a capital estava tranquila desde domingo (11). Eles relataram a presença de drones sobrevoando a cidade e disseram não ter visto sinais de protestos na quinta ou na sexta-feira.
O grupo iraniano-curdo de direitos humanos Hengaw afirmou que não houve manifestações desde domingo, mas que “o ambiente de segurança segue altamente restritivo”.
“Nossas fontes independentes confirmam uma forte presença militar e de segurança em cidades e vilarejos onde protestos ocorreram anteriormente, assim como em vários locais que não registraram grandes manifestações”, disse o Hengaw, com sede na Noruega, em comentários à Reuters.
Outro morador de uma cidade ao norte, no litoral do Mar Cáspio, afirmou que as ruas também pareciam calmas.
Os moradores pediram para não ser identificados por questões de segurança.
Relatos de agitação
Ainda assim, houve indícios de distúrbios em algumas áreas.
O Hengaw relatou que uma enfermeira foi morta por disparos diretos das forças governamentais durante protestos em Karaj, a oeste de Teerã. A Reuters não conseguiu verificar o relato de forma independente.
A agência de notícias Tasnim, ligada ao Estado, informou que manifestantes incendiaram um escritório local de educação no condado de Falavarjan, na província central de Isfahan, na quinta-feira.
Uma moradora idosa de uma cidade no noroeste do Irã, região com grande população curda e palco de alguns dos episódios mais intensos de protestos, disse que manifestações esporádicas continuaram, embora com menor intensidade.
Ao descrever a violência no início dos protestos, ela afirmou: “Nunca tinha visto cenas como aquelas”.
Vídeos que circulam online, e que a Reuters conseguiu verificar como gravados em um centro médico-legal em Teerã, mostram dezenas de corpos deitados no chão e em macas, a maioria em sacos, mas alguns descobertos. A Reuters não conseguiu verificar a data do vídeo.
A emissora estatal Press TV citou o chefe da polícia do Irã afirmando que a calma foi restaurada em todo o país.
A Reuters não conseguiu verificar de forma independente o número de mortes informado pelo HRANA. Uma autoridade iraniana disse anteriormente à agência que cerca de 2.000 pessoas haviam sido mortas.
Os números de vítimas superam amplamente os registrados em episódios anteriores de agitação que foram reprimidos pelo Estado.
Putin entra na diplomacia
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, discutiu a situação no Irã em ligações separadas nesta sexta-feira com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e afirmou que Moscou está disposta a mediar a situação na região, segundo o Kremlin.
Pezeshkian disse a Putin que os Estados Unidos e Israel tiveram um papel direto nos distúrbios, informou a mídia estatal iraniana.
Autoridades iranianas acusam inimigos estrangeiros de fomentar os protestos e de armar pessoas que classificam como terroristas, com o objetivo de atacar forças de segurança e realizar atentados.
O HRANA informou que mais de 19 mil pessoas foram presas, enquanto a agência Tasnim disse que 3.000 pessoas foram detidas.
A Tasnim também noticiou o que descreveu como a prisão de um grande número de líderes dos recentes distúrbios na província ocidental de Kermanshah, além da detenção de cinco pessoas acusadas de vandalizar um posto de gasolina e uma base da Basij na cidade de Kerman, no sudeste do país.



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