Publicada em 10/01/2026 às 10h31
Porto Velho (RO) - Desde outubro de 2025, o Consórcio 4UM-Opportunity, por meio da concessionária Nova 364, venceu a concessão para administrar cerca de 700 km da BR-364 em Rondônia, de Porto Velho a Vilhena, na divisa com o Mato Grosso, pelos próximos 30 anos. O grupo não teve adversário e foi declarado vencedor pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), do Ministério dos Transportes (MT), com investimentos em torno de R$ 10,2 bilhões, sendo cerca de R$ 6,3 bilhões, a longo prazo, para contratação de obras de duplicação e adequação das vias.
A partir de segunda-feira (12), os usuários da BR-364, no chamado “Corredor da Morte”, devido ao número elevado de acidentes com vítimas fatais, terão que pagar pedágio, considerado, proporcionalmente, o mais caro do Brasil (v. ilustração), se comparadas as taxas cobradas em outras rodovias, a maioria duplicada, sinalizada e adequada para a realidade do tráfego.
É importante destacar que o trecho Porto Velho a Vilhena tem somente 25 quilômetros (Porto Velho a Candeias do Jamari) duplicados, obra do Dnit, na passagem do ex-deputado federal Miguel de Souza pelo órgão. No contrato de concessão, consta que serão duplicados somente pouco mais de 100 km. Isso significa que, durante os próximos 30 anos, a duplicação do trecho será uma opção, e não uma obrigação da Nova 364, apesar do peso financeiro imposto ao usuário.
Também estão previstas no contrato obras estruturantes, como 107,5 km de duplicações, 190,5 km de obras adicionais, as conhecidas terceiras faixas, 178 km de vias marginais, 24 passarelas para travessia de pedestres, 90 pontos de ônibus, além de passagens de fauna (túneis para passagem de animais, para se evitar atropelamentos).
A cobrança terá início na segunda-feira e, até o momento, a Nova 364 investiu na limpeza dos acostamentos, retirando o mato; ainda assim, de forma pouco eficiente e perigosa. Em alguns trechos, foi necessário aplicar o sistema pare-e-siga, ocasionando acidentes, inclusive com morte, como ocorreu em Candeias do Jamari.
A Bancada Federal (Senado e Câmara), composta de três senadores e oito deputados, pouco ou quase nada fez para evitar a privatização do trecho da BR-364 em Rondônia. Não que privatizar não seja uma opção eficiente. O que se cobra dos políticos federais de Rondônia é uma participação mais efetiva no processo. Hoje, vários estão criticando a cobrança devido ao preço elevado, mas, na época do leilão, não houve manifestação, e o processo de concessão ocorreu sem alterações, devido à falta de ações e articulação política.
Hoje, a “gritaria” é geral, mas pouco ou nada adiantará, porque já está tudo definido e a cobrança do pedágio ocorrerá a partir da próxima semana, apesar de a “grande obra”, até aqui, resumir-se à limpeza dos acostamentos e à construção dos portais eletrônicos para garantir faturamento antecipado.
É importante destacar que o trecho da BR-364, de Porto Velho a Vilhena, no período de safras de grãos (soja, milho, café), tem média de veículos pesados (carretas, bitrens, treminhões) de aproximadamente 2,5 mil/dia, fora os veículos de passeio e motocicletas.
Pela BR-364, é transportada a safra de grãos de Rondônia e boa parte da produção do Mato Grosso, que é exportada pelo Porto Graneleiro de Porto Velho, no Rio Madeira, por isso a enorme movimentação de veículos pesados durante o período.
Outro problema grave é o retorno das carretas, bitrens e treminhões. Quase a totalidade volta “batendo carrocerias”, porque não há o que transportar para o Centro-Sul do País. Por isso, estamos sempre cobrando o Governo Federal, que poderia formatar uma parceria com o Governo do Estado para que os carreteiros tenham apoio (financeiro, logístico) para transportar o veículo do colega, o que representaria muita economia de combustível, além de melhor flexibilidade no tráfego de veículos pesados.
O que está em jogo é simples: se haverá pedágio, o rondoniense tem o direito de exigir contrapartida real, prazo, transparência e obra. Rondônia não pode normalizar a lógica de pagar mais por menos, nem aceitar como “avanço” apenas limpeza de acostamento e portais eletrônicos enquanto a duplicação segue limitada e a rodovia permanece perigosa. Se a cobrança começa agora, a fiscalização e a cobrança política também precisam começar agora — sem discurso fácil, sem oportunismo e, principalmente, sem aceitar que o povo banque o contrato mais caro do Brasil sem receber segurança e respeito em troca.



Comentários
Seja o primeiro a comentar!