Publicada em 10/01/2026 às 09h08
Porto Velho (RO) - A antecipação do debate eleitoral em Rondônia para 2026 começa a produzir um fenômeno conhecido da política local: o lançamento de balões de ensaio que ganham espaço no noticiário, mas encontram dificuldade para se sustentar quando confrontados com fatos concretos, histórico recente e percepção social. É nesse contexto que surgem as eventuais postulações do deputado federal Maurício Carvalho, do União Brasil, e do ex-deputado federal Expedito Netto, hoje ligado ao governo Lula, como possíveis candidatos ao Governo do Estado. À primeira vista, são movimentos que parecem ampliar o tabuleiro. Na prática, revelam mais blefe do que musculatura política real.
No caso de Maurício Carvalho, o principal ponto de tensão está na distância entre o cargo que ocupa e a liderança que efetivamente exerce. Líder da bancada federal de Rondônia, o deputado atravessa o mandato marcado por uma atuação considerada discreta, para dizer o mínimo, em temas estruturais do estado. O episódio mais emblemático dessa fragilidade é a concessão da BR-364 e a implantação do sistema de pedágio free flow, com tarifas classificadas como abusivas por ampla parcela da população. O contrato, os estudos e o modelo eram públicos havia meses. Ainda assim, a reação da bancada, sob sua liderança, só ganhou corpo quando a cobrança se tornou iminente e concreta no bolso do cidadão.
Nesse cenário, Maurício limitou-se a publicar notas e vídeos nas redes sociais, já com o processo em curso, atribuindo responsabilidades à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e ao governo federal. A crítica, ainda que legítima no mérito, soou tardia. Como liderança formal dos deputados e senadores do estado, não houve registro de articulação prévia eficaz para tentar frear, revisar ou tensionar politicamente o modelo antes de sua implementação. O contraste fica ainda mais evidente quando se recorda que a concessão foi defendida publicamente pelo senador Confúcio Moura, do MDB, durante o leilão em 2025 — e que, agora, silencia diante da insatisfação popular. O resultado é um vácuo político: um defendeu e se cala; o outro reclama depois de consumado o fato.
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Esse padrão de atuação pesa quando se projeta Maurício Carvalho como possível candidato ao Executivo estadual. Liderar um governo exige antecipação, articulação e capacidade de influenciar decisões antes que elas se tornem irreversíveis. A reação tardia no caso da BR-364 se tornou símbolo de uma liderança vista como protocolar e pouco combativa, especialmente em um estado cuja principal rodovia impacta diretamente produção, logística e custo de vida.
Há ainda o histórico recente do clã Carvalho nas disputas majoritárias. Em 2024, Mariana Carvalho foi derrotada por Léo Moraes, do Podemos, no segundo turno da eleição à Prefeitura de Porto Velho. Dois anos antes, em 2022, ela já havia sido superada pelo senador Jaime Bagattoli, do PL, na corrida pelo Senado. São derrotas consecutivas que alimentam um calvário eleitoral difícil de ignorar. Nos bastidores, parte do desgaste é atribuída à associação intensa com o bolsonarismo. Embora Jair Bolsonaro ainda mantenha base fiel em Rondônia, sua imagem perdeu capilaridade fora da extrema-direita. O eleitorado, cada vez mais, demonstra preferência por soluções pragmáticas e menos ideológicas — um movimento que penaliza candidaturas excessivamente ancoradas no discurso identitário.
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Do outro lado, a possível candidatura de Expedito Netto carrega um conjunto distinto, mas igualmente relevante, de fragilidades. Seu mandato como deputado federal pode ser classificado como regular, com potencial de crescimento que nunca se concretizou. Em vez de consolidar uma agenda robusta, Netto ficou marcado por episódios laterais e desgastes desnecessários. Um deles foi a animosidade pública com o deputado Lúcio Mosquini, do MDB, a quem chegou a afirmar, em áudio, que não seria reeleito. O desfecho foi inverso: Mosquini manteve o mandato, e Netto ficou pelo caminho.
Outro momento frequentemente lembrado foi o episódio no Plenário da Câmara em que repreendeu Ciro Gomes por supostamente não usar “roupas adequadas”. Uma intervenção considerada irrelevante, que rendeu mais constrangimento do que capital político. São passagens que ajudaram a construir a imagem de um mandato esquecível, sem marcas estruturais para Rondônia.
Hoje, Expedito Netto ocupa o cargo de secretário nacional de Pesca Industrial, vinculado ao Ministério da Pesca e Aquicultura do governo Lula. É desse novo posicionamento que surge a especulação — confirmada por ele em conversas políticas — sobre uma eventual filiação ao PT para disputar o Governo de Rondônia com apoio do presidente da República. A hipótese, embora formalmente possível, soa desalinhada com sua trajetória. Netto votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff e jamais foi identificado como um quadro orgânico da esquerda. A leitura predominante é de conveniência mútua: o PT precisa de um palanque no estado; Netto precisa de uma vitrine majoritária. Ainda assim, falta densidade eleitoral para transformar o arranjo em algo além de um experimento.
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Há, inclusive, um paradoxo evidente: enquanto ensaia um projeto próprio, Expedito Netto poderia estar dedicado integralmente à construção política do pai, o ex-senador Expedito Júnior, que articula a candidatura do prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, ao governo estadual. Fúria, diferentemente do filho, já figura como nome consolidado no debate sucessório, com presença administrativa e eleitoral concreta no interior.
Diante desse quadro, a conclusão que se impõe é que tanto Maurício Carvalho quanto Expedito Netto operam, neste momento, mais no campo da especulação do que da viabilidade. Suas movimentações ajudam a inflar o noticiário e a testar reações, mas não se somam, de fato, ao núcleo duro da disputa que já se desenha entre Marcos Rogério e Adaílton Fúria. Em um eleitorado cada vez mais atento a resultados, coerência e timing político, blefes tendem a ser rapidamente desmascarados. A campanha ainda nem começou oficialmente, mas a temporada de ensaios — e de apostas mal calibradas — já está aberta.



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