Publicada em 08/01/2026 às 09h21
Porto Velho (RO) - O podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira e exibido em múltiplas plataformas — incluindo redes sociais, o site Rondônia Dinâmica, reprises na TV Reima e veiculação na Jovem Pan News e Rádio Jovem Pan — recebeu nos estúdios do CES Brasil o professor e pesquisador da Universidade Federal de Rondônia (Unir) Wanderley Bastos, biólogo que estuda a presença e os efeitos do mercúrio na Amazônia. No centro da conversa, o apresentador relacionou a extração de ouro ao longo do rio Madeira ao uso do metal para separação do ouro e aos impactos na saúde de ribeirinhos e de pessoas que consomem pescado, mencionando dragas e “extração de forma ilegal” em trechos do rio e igarapés.
Ao abordar os anos de maior pressão do garimpo, Bastos situou o período dos anos 1980 como o mais crítico, descrevendo um cenário de precariedade e ausência de controle. Segundo ele, “naquela época realmente acontecia exatamente como você acabou de citar, ou seja, o mercúrio que o excesso ele era muito lançado dentro do ambiente, tanto na sua fase líquida, como na sua fase vapor, quando ele fazia queima no processo de separação”. A fala foi apresentada como parte da explicação sobre como o metal chega ao ambiente e sobre a diferença entre as práticas do passado e o que ele afirmou ter observado “nos dias atuais”, quando disse ter passado um dia inteiro em uma draga para acompanhar o processo.
Na sequência, o pesquisador mencionou a Convenção de Minamata — tratado do qual o Brasil é signatário — como referência para a eliminação do uso do mercúrio no garimpo e em outras atividades. O apresentador contextualizou Minamata como uma tragédia ambiental ocorrida no Japão e, ao pedir comparação, Bastos descreveu que, naquele caso, uma indústria lançava diretamente metilmercúrio, a forma que ele chamou de “mais tóxica”, resultando em níveis elevados e registros de deformações e comprometimentos motores. No recorte amazônico, o pesquisador afirmou que o processo é diferente porque o mercúrio precisa passar por transformação química até tornar-se metilmercúrio e entrar na cadeia biológica, contaminando peixes e, por consequência, consumidores.
A entrevista avançou para um ponto que o pesquisador insistiu em destacar: a persistência do metal no ambiente. Bastos afirmou que o mercúrio lançado em décadas anteriores não “desaparece” com o tempo e pode continuar a transformar-se, o que desloca a atenção para a via de exposição que ele considera mais relevante. “Não se preocupe com a água do Rio Madeira com relação a mercúrio. Se preocupe com o peixe”, disse, ao defender que o risco maior está no metilmercúrio acumulado na biota e no consumo de pescado. Ainda no tema, ele acrescentou que já foram encontradas espécies com concentrações acima do que chamou de limites regulados em legislação, reforçando, porém, a lógica de que quanto menor a exposição humana, melhor.
Questionado sobre fiscalização e, depois, sobre como o mercúrio chega às mãos de garimpeiros, Bastos separou situações de atividade legalizada e ilegal. Ele afirmou que teve contato com garimpeiros ligados a cooperativas e, nesse contexto, disse acreditar que existam mecanismos de licenciamento para compra. Ao mesmo tempo, quando o apresentador trouxe a existência de garimpos ilegais na Amazônia, Bastos sustentou que esses não teriam autorização para adquirir mercúrio, abrindo espaço para a hipótese de abastecimento clandestino. Ao ouvir a sugestão de um “mercado” paralelo, respondeu: “poderia estar entrando clandestinamente, né? Porque se não tem a legalização para adquirir”. No mesmo bloco, ele citou dificuldades de fiscalização em áreas de fronteira e mencionou a região de “Madre de Deus”, relacionando-a a dinâmicas do Peru e da Bolívia e ao caráter global do poluente, na medida em que a bacia e os fluxos de água ultrapassam limites nacionais.
Ainda no campo das polêmicas levantadas durante a conversa, Robson Oliveira trouxe uma “desconfiança” de médicos — descrita por ele como empírica e não comprovada — de que a contaminação por mercúrio poderia ter relação com casos de câncer em Rondônia. Bastos negou haver evidência científica que comprove ligação direta e reforçou que o efeito reconhecido pela ciência é o neurotóxico, associado a ações no sistema nervoso central, com sintomas que citou como perda de coordenação, dores de cabeça em casos de inalação e possíveis má-formações. Sobre o câncer, afirmou que há estudos em busca desse efeito, mas sem consenso “homogêneo” na ciência mundial. No recorte local, declarou que levantamentos feitos por sua equipe indicaram que o câncer no estado estaria “dentro de uma média nacional” e que a maior prevalência observada seria de câncer gástrico. Ao comentar a associação feita por parte de médicos, afirmou: “não tem nenhuma evidência científica que comprove isso”.
A entrevista também deslocou o foco para outra frente de risco sanitário, fora do tema mercúrio: o saneamento. Bastos citou nitrato como contaminante associado à decomposição de matéria orgânica e à falta de saneamento, enquanto o apresentador mencionou a presença de poços e a possibilidade de mistura com fossas em períodos de elevação do nível d’água. Bastos afirmou que o nitrato não é removido por cloração, que mata micro-organismos, e que seriam necessários “bons filtros” para retenção. Ao ser perguntado sobre a água fornecida pela Caerd em Porto Velho, disse que ela passa por tratamento, é clorada e tem “boa qualidade”, mas alertou que vazamentos em tubulações podem levar à contaminação após o processo de tratamento, relacionando isso ao custo do serviço, especialmente por se tratar de água do rio Madeira, rica em material particulado.
O diálogo sobre saneamento ganhou tom mais duro quando Robson Oliveira relatou frase atribuída a um sanitarista — segundo ele, geradora de “confusão” e politização — de que parte da população estaria bebendo “água com cocô”. Questionado se seria exagero, Bastos respondeu: “Infelizmente, não”, argumentando que, onde a rede de distribuição não alcança, moradores recorrem a poços e a qualidade varia conforme profundidade e tratamento. Ao tratar dos poços mais rasos, o pesquisador mencionou “poços Amazonas”, “bocão” e “cacimbão” e citou um estudo de aluno, descrito como realizado de forma distribuída pela cidade, no qual “todos os poços tinham coliformes fecais”. Na sequência, apontou a exigência de “zero” coliformes fecais para potabilidade e disse que a cloração pode resolver a presença de micro-organismos, além de reforçar o saneamento básico como solução estrutural.
No mesmo trecho, Bastos afirmou que havia saído o resultado de 2025 do Instituto Trata Brasil, descrevendo que o instituto avalia anualmente 100 cidades — incluindo capitais — e estabelece um ranking de saneamento que considera distribuição de água tratada e coleta e tratamento de esgoto. Ele disse que Porto Velho estaria na posição 99 e que a capital “vive trocando” posições com outras capitais amazônicas, ao comentar a colocação no fim da lista.
Após o bloco de críticas e alertas, o programa migrou para a principal pesquisa apresentada como alternativa ao uso do mercúrio na mineração de ouro: o uso de extrato de folhas de pau-de-balsa (Ochroma pyramidale). Robson Oliveira afirmou ter sido informado de que a linha de pesquisa seria de outra instituição, mas disse ter confirmado que o trabalho é conduzido em Rondônia, o que motivou o convite. Bastos explicou que a ideia não surgiu originalmente do grupo e foi inspirada em prática tradicional observada na Colômbia, transmitida entre gerações, em uma região onde, segundo ele, nativos extraem ouro sem mercúrio.
O pesquisador descreveu o processo como a produção de um extrato marrom a partir de folhas umedecidas e exprimidas, utilizado na bateia para ajudar a separar o ouro do concentrado de sedimentos. Segundo ele, o garimpeiro pode concentrar o material retido em carpetes e, em vez de usar mercúrio para formar amálgama, aplicar o extrato vegetal durante o bateamento. Bastos afirmou que o método foi demonstrado em oficina e apresentado à cooperativa Colgarima, citando a reação dos garimpeiros: “eles gostaram bastante e ficaram impressionados com o que estavam vendo”. Ele acrescentou que, em experimentos de bancada, “o processo funciona”, mas afirmou que o desafio é ampliar para uma escala “mais macro”, compatível com a operação em dragas e balsas.
Ao falar de viabilidade prática, Bastos mencionou estratégias para tornar o produto transportável, já que o garimpo é móvel. Ele descreveu a ideia de liofilização do extrato — retirada de água para transformá-lo em pó — para posterior reidratação e reutilização, afirmando que já existem proporções definidas e pequenas para uso no volume de sedimento em uma bateia. Também disse que a equipe avaliou se o extrato, ao ser lançado no ambiente durante uso em campo, geraria consequências ambientais e afirmou que não encontrou poluentes no material, descrevendo-o como rico em nutrientes.
No encerramento, o pesquisador detalhou as condições de financiamento e publicação do trabalho. Disse que a primeira fase contou com recursos obtidos via edital e financiados pela Fapero, e que há três artigos: dois submetidos e um em avaliação, incluindo análises químicas da espécie e a eficiência do extrato na separação do ouro dos sedimentos do rio Madeira.
Para a segunda etapa — levar a técnica do laboratório ao ambiente de garimpo — afirmou que será necessário novo aporte, citando custos de equipamentos e manutenção. Como exemplo, mencionou possuir equipamento para quantificações de mercúrio, outros metais e ouro, estimando custo de aquisição na faixa de dois milhões de reais e necessidade de cerca de 200 mil reais para reparo, afirmando que a equipe busca recursos em agências como CNPq e Capes, além de editais.
Ao final, após agradecer pela entrevista e reforçar a divulgação do programa, Bastos indicou canais de contato do grupo de pesquisa, citando o endereço biogeoquímica-unir.org e a presença em redes sociais, e afirmou: “muito obrigado pela oportunidade de a gente divulgar o que fazemos”.



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