Publicada em 06/01/2026 às 09h34
A posse de Luiz Cláudio na presidência da Emater/RO foi apresentada no podcast Resenha Política, comandado pelo jornalista Robson Oliveira em parceria com o Rondônia Dinâmica, como um retorno de um nome conhecido da política rondoniense ao centro do debate público — e, ao mesmo tempo, como um teste de fogo diante de uma instituição descrita pelo próprio entrevistador como “meio sucateada” e “meio abandonada” nos últimos tempos.
Luiz Cláudio afirmou que aceitou o convite do governador Coronel Marcos Rocha e enquadrou a decisão como um “desafio” ligado ao papel da assistência técnica e extensão rural no campo. “Eu fui convidado pelo governador, o coronel Marcos Rocha, e aceitei o convite, aceitei o desafio, porque eu reconheço o trabalho da Extensão Rural, da Assistência Técnica, como um grande braço da agricultura familiar do nosso Estado”, disse, ao explicar o motivo da entrada na gestão.
A conversa, porém, ganhou tom de cobrança já na pergunta de abertura. Robson Oliveira relatou a percepção de que a Emater teria perdido força no Estado e provocou o entrevistado a descrever o que encontrou ao assumir. “Mas o que tenho visto e ouvido nos últimos tempos é que essa Emater que você fala, pungente, essa que teve na extensão rural, que estava lá perto, ajudando o agricultor… Essa Emater que você fala, se estiver errado, você me corrija, não existe mais. Ela não está pujante como era. Ela andou meio sucateada. É isso mesmo que você encontrou lá?”, questionou.
Luiz Cláudio respondeu reconhecendo a deficiência principal: menos técnico no campo e mais estrutura administrativa. “Hoje nós temos 60% da área meio, área administrativa, e 40% da área fim. Então teria que ser o contrário. 70% da área fim, do técnico que vai prestar assistência técnica, que vai fazer a visita, e 30% da área administrativa”, afirmou. Ao vincular a correção a limitações de calendário, acrescentou que não haveria tempo para uma mudança estrutural mais ampla no curto prazo: “Mas isso vai ser corrigido, eu creio, no próximo governo, porque não dá mais tempo. Até do ano eleitoral é proibido fazer concurso, lá só através de concurso”.
A fala abriu um flanco político no debate: ao admitir que a recomposição do quadro técnico não ocorreria agora e apontar o impedimento por ser ano eleitoral, o presidente da autarquia estabeleceu, ainda no início do mandato, um limite explícito para o alcance imediato das mudanças — e, ao mesmo tempo, assumiu o compromisso de tentar elevar atendimento “com o mesmo pessoal”.
Na sequência, Luiz Cláudio detalhou o que classificou como primeira medida de gestão: reunir a estrutura regional para revisar o planejamento e ampliar metas. “O primeiro passo foi reunir todos os nossos gerentes, 74 gerentes locais, sete gerentes regionais, toda a diretoria da IMATER”, disse, descrevendo encontro em um centro de treinamento em Ouro Preto do Oeste, às margens da BR-364. Segundo ele, o objetivo foi revisar o PROATER, planejamento de assistência técnica para 2026. “Nós vamos sair de 9 mil propriedades para 21 mil propriedades assistidas direta pela Emater, com o mesmo pessoal”, afirmou.
Foi nesse ambiente de “meta agressiva” que a entrevista passou a explorar as maiores controvérsias do agronegócio e da agricultura familiar em Rondônia, com Robson Oliveira puxando dados e pressionando por confirmações. Um dos pontos mais sensíveis foi a cadeia do leite — apresentada como crise em curso no Estado.
Robson Oliveira afirmou que Rondônia teria saído de uma produção de cerca de 3 milhões de litros por dia, alguns anos atrás, para 1 milhão atualmente, e perguntou se a informação procedia. Luiz Cláudio confirmou o dado e assumiu a responsabilidade de tratá-lo como problema real. “Esse dado que você está me apresentando é verdadeiro. Eu não vou mentir. É verdadeiro”, disse.
A partir daí, o entrevistado atribuiu a queda a uma combinação de mercado, importações e custo de produção, com destaque para a concorrência do leite em pó importado. “O mercado, por exemplo, o Brasil importa leite em pó do Uruguai e da Argentina. Isso é antigo”, afirmou, lembrando que já havia enfrentado o tema quando foi deputado federal. Ao explicar o impacto local, relacionou o leite em pó aos destinos do queijo produzido em Rondônia: “Porque esse leite em pó vai para os estados onde nós exportamos nosso queijo de mussarela”.
Luiz Cláudio afirmou que a indústria rondoniense tem perfil específico: “Nosso leite hoje, 95% é transformado em queijo de mussarela”. Na leitura dele, isso deixa o setor exposto à dinâmica de preços e custos. Ele então descreveu o que considerou o núcleo da crise: a conta que não fecha na porteira. “Robson, hoje, para você produzir um litro de leite, para ele te dar lucro, você teria que ter um custo de produção de 1,30. E o produtor hoje está tendo um custo de 1,90. 1,85, 1,90. E ele está vendendo 1,90 o litro de leite. Está vendendo nada. Nada”, declarou.
A declaração — “está vendendo nada” — foi o trecho mais duro do diagnóstico econômico apresentado no programa. Ele acrescentou que a Emater teria modelos para reduzir custos e relatou visitas recentes a propriedades em que, segundo disse, o custo foi reduzido ao patamar considerado viável. “Eu visitei duas propriedades essa semana… em que o custo dele é R$ 1,30”, afirmou, e explicou que o diferencial estaria no manejo de pastagem rotacionado, irrigação e adubação, em vez de sistemas mais caros baseados em silagem: “Quando você prepara o solo e faz um manejo de pastagem rotacionado, com irrigação, com adubação, ele cai para R$ 1,30”.
Robson Oliveira, por sua vez, conectou a crise à suposta perda de presença da extensão rural. Ao sugerir que a Emater teria deixado de cumprir seu papel, perguntou se a falta de assistência técnica teria refletido na queda da produção. “Nesse tempo aí, pelo que estou deduzindo, se eu estiver errado você me corrija, a EMA até deixou de cumprir essa função, terminou o proprietário sem essa… ajuda, essa expertise técnica, terminou negligenciando no campo. Isso refletiu nessa queda de três milhões para um milhão só de litros de leite”, disse. Luiz Cláudio respondeu apontando redução de produção e custo alto como fatores centrais. “O produtor reduziu a sua produção”, afirmou, e, ao ser provocado novamente, acrescentou que ficou caro e que parte do rebanho não foi melhorado com foco leiteiro.
Sob essa moldura de crise, o presidente da autarquia listou ações que descreveu como reativação e criação de projetos — e admitiu que encontrou poucos programas em andamento antes de sua chegada. “Olha, tinha um projeto da qualidade do café, mas em poucas propriedades… Tem um projeto também do cacau e tem o Consutec, que era um projeto também relacionado ao leite. Eram os projetos que tinha. Eu criei agora 18 novos projetos”, afirmou, destacando que isso teria ocorrido em menos de um mês.
Entre os anúncios, Luiz Cláudio citou projetos vinculados ao leite e genética, como o “Proleite Seminal”, além de medidas de apoio logístico, como aquisição de caminhões em processo de licitação para facilitar correção de solo e manejo. Ele também afirmou que a Emater possui infraestrutura para inseminação, ao mencionar “duas usinas de nitrogênio” para conservação de sêmen e a intenção de treinar produtores. “Nós vamos treinar o produtor a fazer a inseminação… Vamos doar 20 doses de sêmen sexado para ele escolher as vacas, as melhores vacas que ele tem lá na sua propriedade”, declarou, explicando o objetivo de renovar o plantel.
Outra frente de tensão apareceu quando o debate migrou para crédito rural e endividamento. Robson Oliveira lembrou que historicamente a extensão rural teria papel na elaboração de projetos para acesso a bancos públicos e perguntou se a autarquia ainda teria essa capacidade. Luiz Cláudio respondeu dizendo que a iniciativa privada avançou e que a Emater “se afastou um pouco”, classificando isso como falha a ser corrigida. “Então, a iniciativa privada avançou muito nessa área de projetos, e a Emathé se afastou um pouco. Eu acho que foi um erro. que eu quero corrigir isso agora”, afirmou.
Ele justificou a retomada com o argumento de proteção ao pequeno produtor: “Porque a Emater, quando ela vai elaborar um projeto de financiamento ao pequeno produtor, ela analisa muito bem se aquele financiamento, se aquele projeto é viável ou não”. Em seguida, descreveu preocupação com agricultores endividados por operações feitas sem avaliação técnica da autarquia: “Eu tenho conversado com alguns produtores e tenho me preocupado, porque eles pegaram dinheiro, não feito projeto pela Emathé, e hoje estão endividados e têm que vender um pedaço de terra para pagar a conta do banco, porque o banco não perdoa”.
Dentro dessa agenda, Luiz Cláudio relatou uma negociação internacional que, na entrevista, aparece como tentativa de criar um modelo de crédito com garantia na produção, e não na terra. Ele disse ter participado de reunião em Brasília com um grupo ligado a um fundo dos Emirados Árabes interessado em financiar a agricultura em Rondônia, e afirmou ter pedido que a Emater do Estado fosse a “segunda” a firmar contrato, após a Emater de Brasília. Ao descrever o formato, afirmou: “A garantia que ele vai dar é o produto”. E detalhou a taxa: “Não, ele vai pagar. Mas assim, é juros de 6% só, sem taxa de selic”. No diálogo, Robson Oliveira reforçou que o fundo buscaria retorno sobre a produção financiada, e Luiz Cláudio concordou, dizendo que haveria preço futuro e exportação de alimentos para os países investidores.
A entrevista também registrou outro ponto sensível: a captação de recursos para sustentar a execução de projetos. Questionado sobre “mágica” para conseguir dinheiro em 30 dias, Luiz Cláudio citou uma promessa de doação “a fundo perdido” e, na mesma resposta, tratou o anúncio como algo ainda em construção. “Primeiro que esse grupo, a Arevê, eles vão doar para a Hematé 15 milhões a fundo perdido”, disse. Robson Oliveira reagiu destacando o caráter não concretizado: “Isso é uma promessa”. Luiz Cláudio respondeu que estava buscando outras alternativas além desse recurso.
Entre essas alternativas, ele citou parcerias com órgãos estaduais e com a área de educação. Disse estar “trabalhando com o Idaron” para ações sanitárias voltadas a brucelose — apontada como problema “principalmente no gado de leite” — e afirmou que pretende criar identificação de propriedades livres da doença. “Nós queremos também acabar com a brucellose nas propriedades e colocar uma placa lá. Essa propriedade é livre de brucellose”, declarou. Ele argumentou que o Idaron teria arrecadação vinculada a guias de transporte animal e que isso poderia ajudar no custeio do trabalho de campo.
Com a educação, o foco foi a compra de alimentos da agricultura familiar para merenda escolar, mencionando a obrigação de 30% de aquisição e o uso de recursos do PNAE. Luiz Cláudio defendeu que a assistência técnica pode apoiar produtores para qualidade e processamento. “A Emater dá assistência a esses produtores… na área de produzir bem, alimento saudável… Como também… se o produtor vai ter que processar… fazer o queijo… ou uma polpa de fruta”, disse, citando que já teria ocorrido reunião com a secretária adjunta Débora e equipe, com recepção positiva.
No terço final do programa, a discussão saiu dos embates econômicos e institucionais e entrou em aspectos de agenda, logística e rotina. Luiz Cláudio afirmou que o gargalo operacional é custeio para deslocamentos e manutenção de veículos e que isso influencia a capacidade de atendimento. “Porque o problema nosso é recursos para trabalhar. O técnico vai para o campo, tem muita despesa de combustível, carro para arrumar”, relatou.
Ele também descreveu um plano de “assistência virtual” para ampliar alcance sem deslocamento constante, com aquisição de software e atendimento online, inclusive em fins de semana. “Eu vou criar uma assistência virtual. Nós vamos adquirir um soft… e nós vamos dar assistência para ele online”, afirmou, e defendeu que problemas no campo não esperam calendário: “Pode ser sábado, domingo, qualquer hora, feriado. Porque quando acontece um problema lá na roça… não tem esse negócio de feriado, nem sábado, nem domingo. É pra resolver naquela hora”.
Para ilustrar, contou um episódio com um produtor na Linha 45, na região de Porto Velho, no setor de Usina de Samuel, que teria resolvido problema com uma vaca após orientação por celular de um veterinário, sem deslocamento presencial. O relato foi usado como argumento para priorizar o sistema remoto, com promessa de acionar “o melhor técnico daquela área” para responder.
Ao encerrar, Robson Oliveira trouxe de volta um elemento político que atravessou toda a entrevista: o calendário eleitoral e a permanência do entrevistado no cargo. Ele perguntou se Luiz Cláudio ficaria “até março” e se seria candidato, sugerindo que a definição precisaria ocorrer em poucos meses. O presidente da Emater reconheceu o prazo e condicionou a decisão. “Eu tenho até março mesmo para definir isso. Mas, Robson, é o seguinte, eu sou uma pessoa com muita fé… Se for a vontade de Deus, eu posso até participar de novo de um processo eleitoral, mas sei quem vai dizer o tempo”, afirmou, acrescentando que, naquele momento, priorizaria a execução: “Agora é a hora de eu arregaçar a manga e fazer alguma coisa pela agricultura”.
No encerramento, Luiz Cláudio ainda defendeu diversificação produtiva como estratégia para reduzir risco no campo e citou exemplos de “três cestas” — leite, café, cacau, mandioca e outras atividades — além de mencionar que pretende voltar ao programa para discutir um projeto ligado à suinocultura, apontando o Acre como referência industrial e o Peru como mercado consumidor, tema que Robson Oliveira indicou para uma próxima edição.
O episódio do Resenha Política foi exibido com menção a múltiplas plataformas digitais, TV Rema e conexões com TV Jovem Pan, e teve patrocínio citado pelo apresentador. A entrevista, ao longo de quase quarenta minutos, alternou explicações técnicas e anúncios de projetos com questionamentos diretos sobre sucateamento, crise do leite, endividamento rural e o impacto do ano eleitoral na capacidade de reorganizar a estrutura de atendimento da Emater em Rondônia.
DEZ FRASES DE LUIZ CLÁUDIO NO RESENHA POLÍTICA:
01) “Esse dado que você está me apresentando é verdadeiro. Eu não vou mentir. É verdadeiro.”
Ele confirma a informação trazida por Robson Oliveira sobre a queda da produção diária de leite em Rondônia, sem relativizar o número.
02) “Robson, hoje, para você produzir um litro de leite, para ele te dar lucro, você teria que ter um custo de produção de 1,30.”
Ao tratar de rentabilidade, ele estabelece um parâmetro de custo que, segundo ele, seria necessário para o produtor ter margem.
03) “E o produtor hoje está tendo um custo de 1,90. 1,85, 1,90.”
Na mesma linha, ele afirma que a realidade de custos estaria muito acima do patamar considerado viável.
04) “E ele está vendendo 1,90 o litro de leite. Está vendendo nada. Nada.”
Ele descreve a situação como ausência de ganho para o produtor, associando o preço de venda ao custo elevado.
05) “Hoje nós temos 60% da área meio, área administrativa, e 40% da área fim.”
Ele admite que a Emater estaria com maioria do quadro voltado à burocracia, e não à assistência direta ao campo.
06) “Então teria que ser o contrário. 70% da área fim, do técnico que vai prestar assistência técnica, que vai fazer a visita, e 30% da área administrativa.”
Ele aponta um modelo ideal oposto ao atual, sugerindo distorção estrutural no funcionamento da autarquia.
07) “Mas isso vai ser corrigido, eu creio, no próximo governo, porque não dá mais tempo.”
Ele indica que não pretende ou não conseguiria reverter o problema ainda nesta gestão, empurrando a solução para depois.
08) “Até do ano eleitoral é proibido fazer concurso, lá só através de concurso.”
Ele vincula diretamente a falta de recomposição do quadro técnico ao calendário eleitoral e às regras para contratação.
09) “Então, a iniciativa privada avançou muito nessa área de projetos, e a Emathé se afastou um pouco. Eu acho que foi um erro. que eu quero corrigir isso agora.”
Ele reconhece que a Emater teria perdido espaço na elaboração de projetos de crédito e chama isso de falha institucional.
10) “Eu tenho conversado com alguns produtores e tenho me preocupado, porque eles pegaram dinheiro, não feito projeto pela Emathé, e hoje estão endividados e têm que vender um pedaço de terra para pagar a conta do banco, porque o banco não perdoa.”
Ele afirma que há produtores em situação de risco patrimonial por financiamentos sem análise da autarquia, mencionando a venda de terra como consequência.



Comentários
Seja o primeiro a comentar!