Publicada em 19/01/2026 às 15h05
Porto Velho (RO) - O deputado federal Coronel Chrisóstomo (PL-RO) voltou a repercutir, em suas redes sociais, um conteúdo que atribui ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma declaração que não corresponde ao sentido original da fala. Em vídeo e texto publicados pelo parlamentar, Lula é acusado de ter dito que “o pobre não nasceu para estudar, nasceu para trabalhar”, afirmação que, segundo serviços profissionais de checagem, resulta de um recorte descontextualizado de um discurso oficial.
Na gravação divulgada por Chrisóstomo, o parlamentar inicia dirigindo-se ao público com a saudação “Olá Rondônia, olá Brasil” e, em seguida, reproduz trechos de uma fala do presidente em tom crítico. Ao longo do vídeo, o deputado afirma que Lula “mente para o Brasil” e que estaria prejudicando os mais pobres, além de encerrar a mensagem com uma referência ao cenário eleitoral de 2026.
A publicação foi acompanhada de um texto em que o deputado afirma que o presidente “se supera toda semana em suas loucuras” e que teria “humilhado mais uma vez o pobre brasileiro” ao supostamente declarar que pobres não nasceram para estudar. O conteúdo teve ampla repercussão, com centenas de comentários questionando a veracidade da afirmação e cobrando a divulgação do discurso completo.
Entre as reações, usuários criticaram o uso de trechos isolados e pediram que o vídeo fosse apresentado na íntegra. Comentários como “mostra o vídeo inteiro”, “sai do zap” e “apaga que ainda dá tempo” foram recorrentes. Outros destacaram que a fala atribuída ao presidente estaria fora de contexto, apontando que o discurso original fazia uma crítica histórica à exclusão educacional no Brasil. Também houve manifestações irônicas, cobranças sobre a atuação parlamentar e mensagens de cunho político-eleitoral, tanto de apoio quanto de oposição ao governo federal.
Alguns comentários reproduziram, de forma detalhada, a interpretação do discurso completo, afirmando que Lula utilizou a expressão “pobre não precisa estudar” como exemplo de uma mentalidade elitista do passado, para em seguida refutá-la. Outros usuários ressaltaram que vídeos curtos e “cortes” são frequentemente usados por diferentes espectros políticos para manipular falas e influenciar a opinião pública.
A controvérsia levou à atuação de serviços de checagem de fatos. O Estadão Verifica publicou, nesta segunda-feira, 19, checagem classificando como enganosa a afirmação de que Lula teria defendido que pobres não devem estudar. Segundo a apuração, o trecho compartilhado nas redes sociais foi retirado de um discurso realizado durante a cerimônia de comemoração de 90 anos do salário mínimo, na Casa da Moeda do Brasil, no Rio de Janeiro. Na íntegra da fala, o presidente critica o atraso histórico do país na criação de universidades e condena a ideia de que apenas pessoas ricas deveriam ter acesso ao ensino superior.
De acordo com o Verifica, Lula afirmou: “A primeira universidade feita nesse país foi em 1920. O Brasil foi descoberto em 1500. Aqui demorou 420 anos para fazer a primeira universidade. Por que será que aconteceu isso? É porque pobre não precisa estudar”, completando a frase como uma crítica à mentalidade elitista que, segundo ele, marcou a história nacional. Em seguida, o presidente defendeu a ampliação do acesso à educação e citou políticas como o Prouni e o Fies como instrumentos para inclusão de jovens de baixa renda no ensino superior.
O Boatos.org chegou à mesma conclusão em checagem publicada no sábado, 17. O site classificou como falso o conteúdo que afirma que Lula teria defendido que pobres apenas trabalhem. A análise apontou que o vídeo viralizado omite o início e o desfecho do raciocínio do presidente, que denunciava justamente a exclusão educacional imposta historicamente às classes populares. Segundo o portal, a estratégia de descontextualização citacional é recorrente e já foi utilizada em outros episódios envolvendo falas do presidente.
Casos semelhantes também foram registrados por outros serviços de verificação, como o UOL Confere, que em episódios anteriores apontou o uso recorrente de recortes de falas de Lula para atribuir a ele declarações que não correspondem ao conteúdo integral dos discursos.
Não é a primeira vez que Coronel Chrisóstomo se envolve em episódios relacionados à disseminação de informações posteriormente desmentidas. Em maio de 2024, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, o então ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Paulo Pimenta, utilizou suas redes sociais para rebater declarações do deputado, que havia afirmado, na tribuna da Câmara, que a primeira-dama Janja da Silva teria ido a um show da cantora Madonna enquanto o estado enfrentava uma tragédia climática.
Na ocasião, Pimenta classificou a informação como falsa e declarou que o parlamentar estaria “inventando” a acusação. O episódio foi checado pelo Boatos.org, que concluiu ser inverídica a alegação de que Janja tivesse comparecido ao evento. O ministro afirmou que a disseminação desse tipo de conteúdo teria como objetivo “semear o ódio e a desinformação” em um momento de crise nacional.



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