O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, alertou nesta quarta-feira (28) para o risco de uma nova divisão das áreas de influência mundial entre Estados Unidos, Rússia e China, diante da possibilidade de uma reunião entre Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping.
O líder ucraniano teme que o encontro se transforme em uma nova versão da Conferência de Yalta, realizada em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, quando os líderes das principais potências aliadas negociaram os rumos da Europa após o conflito.
A preocupação surge após Moscou propor uma reunião entre os presidentes americano, russo e chinês durante a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), prevista para os dias 18 e 19 de novembro, em Shenzhen, na China.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, Putin pretende utilizar o encontro para discutir o futuro da guerra na Ucrânia e buscar um acordo mais amplo sobre a segurança europeia.
Zelensky, por sua vez, teme que decisões envolvendo o território ucraniano e a segurança de outros países europeus sejam negociadas sem a participação dos governos diretamente afetados.
Por que Zelensky teme uma nova Conferência de Yalta?
A comparação feita pelo presidente ucraniano remete à reunião realizada em fevereiro de 1945, na península da Crimeia, entre Franklin D. Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido, e Josef Stalin, líder da União Soviética.
Na ocasião, os três discutiram os planos para a derrota definitiva da Alemanha nazista e a reorganização política da Europa após a guerra.
A Conferência de Yalta se tornou um símbolo das negociações entre grandes potências sobre o futuro de outros países. Os acordos e os acontecimentos posteriores contribuíram para a formação da ordem europeia do pós-guerra, marcada pela divisão entre os blocos ocidental e soviético.
Para Zelensky, uma reunião envolvendo Trump, Putin e Xi Jinping poderia representar uma tentativa de repetir esse modelo de negociação.
O principal receio de Kiev é que a Rússia consiga negociar diretamente com Washington e Pequim decisões sobre territórios ucranianos, a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a arquitetura de segurança europeia.
Há anos, Moscou exige garantias de que a Otan não continuará avançando em direção às fronteiras russas, uma das reivindicações apresentadas pelo Kremlin antes da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Trump, Putin e Xi Jinping vão se reunir na China?
A possibilidade de um encontro entre os três presidentes foi divulgada inicialmente pelo jornal americano The Wall Street Journal.
Segundo a publicação, Putin propôs realizar a reunião durante a cúpula da Apec, em Shenzhen.
A iniciativa também foi abordada por autoridades russas e americanas.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou que a possibilidade de um encontro foi mencionada, mas ressaltou que ainda não existem propostas concretas ou acordos sobre a realização da reunião e sua agenda.
Donald Trump manifestou disposição para conversar com os presidentes russo e chinês.
O governo da China, entretanto, informou que não tinha detalhes sobre a possível reunião.
Assim, até o momento, não há confirmação oficial de que o encontro entre Trump, Putin e Xi Jinping será realizado.
A proposta também provocou preocupação entre autoridades europeias, que defendem a participação da Ucrânia em qualquer negociação envolvendo o futuro do país.
Ucrânia quer negociar cessar-fogo antes do possível encontro
Paralelamente às articulações para a cúpula, representantes da Ucrânia, da Rússia e dos Estados Unidos devem participar de uma nova rodada de negociações de paz em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
Zelensky anunciou, em 23 de outubro, que as equipes dos três países concordaram em realizar conversas técnicas durante a primeira quinzena de novembro.
O presidente ucraniano defende que essas negociações ocorram antes de qualquer reunião entre os líderes americano, russo e chinês.
Kiev espera avançar em um acordo de cessar-fogo, incluindo medidas para proteger a infraestrutura energética do país e garantir a segurança das operações marítimas no Mar Negro.
Uma eventual trégua nos ataques contra portos e embarcações também permitiria reduzir os riscos para as exportações de cereais ucranianos.
A Ucrânia tem defendido ainda garantias internacionais de segurança como condição para qualquer acordo de paz duradouro.
Rússia rejeita cessar-fogo antes de acordo mais amplo
O governo russo, por sua vez, resiste à proposta de interromper os combates antes que sejam estabelecidas condições para um acordo político abrangente.
Moscou exige que as negociações considerem suas reivindicações territoriais e suas exigências relacionadas à segurança europeia.
A Rússia anexou ilegalmente a península da Crimeia em 2014 e iniciou uma invasão militar em grande escala da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Desde então, os combates provocaram milhares de mortes e deslocaram milhões de pessoas.
As negociações previstas para novembro deverão abordar a possibilidade de um cessar-fogo mais amplo ou de acordos limitados, incluindo a suspensão de ataques contra instalações de energia e infraestrutura marítima.


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