RESENHA POLITICA
ROBSON OLIVEIRA
IMPRODUTIVA
Se alguém ainda tinha dúvida de que a política produz comédia melhor do que qualquer roteirista, bastava assistir à reunião de quarta-feira entre MDB, PDT e PSB. Foram mais de cinco horas de conversa para chegar à revolucionária conclusão de… marcar outra reunião. Uma obra-prima da improdutividade.
PROPOSTA
A ideia inicial parecia simples. Acir Gurgacz seria candidato ao Senado, Vini Miguel ocuparia a suplência, Neidinha dos Índios e a indicação do PV abririam espaço para uma chapa mais competitiva. Durou pouco. Vini Miguel não aceitou a suplência.
CENA
O MDB, que nunca perde uma oportunidade de ocupar um espaço vazio, imediatamente lançou Paulo Andrada, suplente de Confúcio Moura, como alternativa. A mesa começava a ganhar forma. Foi quando entrou em cena o personagem que oficialmente havia saído do palco. Os celulares começaram a apitar. Entre as mensagens, uma enviada por Confúcio Moura ao candidato Samuel Costa pedia que nenhuma decisão fosse tomada antes do fim do dia. Esta coluna avisou.
BASTIDORES
Quem acreditou que Confúcio havia abandonado definitivamente a disputa talvez tenha confundido dissimulação com aposentadoria política. Segundo apurou a coluna junto a diversas fontes, o senador continua trabalhando nos bastidores para construir uma reviravolta que o recoloque na disputa pelo Senado, agora respaldado por lideranças nacionais.
INDECISÃO
Enquanto houver essa possibilidade, interessa mais congelar o tabuleiro do que permitir que outra peça ocupe seu lugar. Foi o suficiente para transformar a reunião numa partida de pôquer em que ninguém mostra as cartas porque alguns ainda estão embaralhando o baralho escondido debaixo da mesa. No final, depois de horas de conversa, nenhuma decisão. Tudo ficou empurrado para outro dia.
EXCURSÃO
Enquanto isso, Pedro Adib continua insistindo numa candidatura que parece despertar entusiasmo apenas no próprio candidato. Nem dentro do grupo consegue produzir unidade. Sua campanha segue parecendo uma excursão de motorhome pelo Estado: muito passeio, muitas selfies, algumas frases de efeito e escassez de propostas capazes de incendiar uma eleição.
PÂNTANO
Samuel Costa também pisa em terreno movediço. A direção nacional do PSB acompanha a situação com crescente desconforto, enquanto cresce a pressão para que o partido caminhe ao lado de Expedito Neto. E há outro ingrediente que torna o caldeirão ainda mais fervente.
PROJETO
Se Confúcio confirmar definitivamente a saída, Acir tende a consolidar sua candidatura ao Senado. Mas, se o senador resolver desistir da desistência — algo que, convenhamos, já deixou de surpreender nesta novela —, Acir poderá ser pressionado a disputar o Governo. A hipótese existe, foi ventilada por pessoas próximas e continua circulando entre os bastidores. O problema é que ninguém parece discutir projeto de Estado. Discutem vagas. Discutem suplências. Discutem quem senta na cadeira de quem. Discutem quem derruba quem.
SABOTAGEM
O eleitor, esse personagem inconveniente que vota, ficou do lado de fora da sala. O curioso é que, separados, MDB, PDT e PSB são politicamente nanicos. Juntos poderiam ganhar densidade eleitoral e entrar na disputa como uma força respeitável. Mas preferem praticar o velho esporte da esquerda rondoniense: a autossabotagem. Cada líder esconde o jogo. Cada grupo desconfia do outro. Cada telefonema muda o roteiro. Cada mensagem adia uma decisão.
CONFUSÃO
É uma espécie de campeonato de puxada de tapete disputado sobre um piso de sabão. Até o dia 14, tudo pode acontecer. Confúcio pode voltar. Acir pode mudar de projeto. Samuel pode perder espaço. Pedro Adib pode descobrir que candidatura não sobrevive apenas da própria convicção. Ou nada disso acontecer.
CONSPIRADORES
Porque, olhando para o espetáculo desta semana, fica difícil escapar da conclusão de que esses partidos conseguiram realizar um feito raro: transformar uma reunião política numa assembleia de indecisos, onde todos conspiram, todos falam, todos calculam… e ninguém decide. No fim, a impressão é inevitável: não lhes falta estratégia para derrubar o aliado. Falta estratégia para vencer a eleição.
DINHEIRAMA
Há apreensões que cabem numa sacola. Outras cabem num porta-malas. A desta semana coube em um carro conduzido pelo motorista do deputado federal Maurício Carvalho: R$ 2 milhões em dinheiro vivo. Não é troco de padaria. Não é recurso para pagar fornecedores de pequeno porte. É uma montanha de dinheiro.
HIPÓTESE
As investigações da Polícia Federal ainda estão no começo. A versão inicial que circula é a de que o dinheiro teria como destino uma obra de uma empresa ligada ao parlamentar em outro município. Pode ser? Evidentemente que pode. E, enquanto não houver conclusão das investigações, ninguém pode transformar hipótese em sentença.
DEDUÇÃO
Mas há outra possibilidade que também não pode ser descartada de plano: em pleno período eleitoral, dinheiro vivo nessa proporção naturalmente desperta suspeitas sobre eventual utilização ilícita. Não se trata de acusação. Trata-se de uma dedução lógica que qualquer cidadão faria diante das circunstâncias. O problema maior, porém, talvez não esteja nem no dinheiro. Está no silêncio.
SILÊNCIO
Desde que a notícia veio à tona, esperava-se uma reação rápida e objetiva do deputado ou da empresa envolvida. Se os R$ 2 milhões saíram regularmente de contas bancárias do grupo empresarial ou do patrimônio particular, bastaria apresentar os comprovantes, explicar a origem, justificar a finalidade e encerrar boa parte da especulação. Optou-se pelo silêncio.
INVERDADE
E o silêncio, na política, raramente absolve alguém. Ao contrário: amplia dúvidas, alimenta versões e entrega o protagonismo aos adversários. Vivemos a era do Pix. Transferências milionárias são feitas em segundos, rastreáveis e documentadas. O dinheiro em espécie tornou-se exceção nas relações empresariais formais. Tente comprar um carro de luxo numa concessionária pagando com malas de dinheiro. A primeira providência provavelmente será chamar o setor de compliance - ou a polícia.
LAVAGEM
Quem continua movimentando grandes quantias em espécie costuma fazê-lo porque deseja fugir da rastreabilidade. É justamente por isso que operações policiais envolvendo dinheiro vivo sempre produzem enorme impacto na opinião pública.
REPUTAÇÃO
Não basta dizer que havia uma finalidade. É preciso demonstrá-la. A política ensina que reputações não costumam ser destruídas apenas por condenações. Muitas vezes começam a ruir quando as explicações deixam de aparecer. O episódio também ultrapassa a figura de Maurício Carvalho. Ele preside o União Brasil em Rondônia e integra uma das famílias politicamente mais influentes do Estado.
SOBRENOME
Inevitavelmente, o desgaste respinga sobre aliados e, sobretudo, sobre a candidatura de sua irmã ao Senado. É injusto responsabilizá-la por um fato que não lhe é atribuído. Mas é ingenuidade imaginar que o eleitor fará compartimentos estanques. Em campanha eleitoral, o sobrenome pesa tanto quanto o número na urna.
EXPLICAÇÃO
A família que também mandam no Republicanos e mantém forte protagonismo político no União Brasil agora enfrenta um teste que discurso algum resolve. A resposta precisa ser documental, objetiva e convincente. Porque dois milhões de reais podem ter explicação. O eleitor aguarda uma explicação objetiva, embora na polícia a lei garante o direito ao silêncio.
NARRATIVAS
O que dificilmente tem explicação é o silêncio diante de dois milhões de reais. Na política, há momentos em que falar é uma necessidade. Quando se escolhe calar, a narrativa passa a ser escrita pelos outros. E, quase sempre, com tinta muito menos generosa. O parlamentar, supostamente dono da grana, não poderá se queixar depois das críticas enquanto optar em ficar calado. Por onde andar alguém vai lembrar da bufunfa de forma mais áspera. E será o responsável em melar o projeto da irmã que parecia ter um voo mais consistente do que das outras vezes.


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