PORTO VELHO, RO - A corrida pré-eleitoral ao Governo de Rondônia apresentou, ao longo da semana, um contraste difícil de ignorar entre os principais atores que tentam consolidar espaço para 2026. Enquanto alguns nomes conseguiram manter uma agenda de construção de imagem relativamente controlada, focada em presença regional e aproximação com segmentos estratégicos, outros acabaram absorvidos por desgastes locais, ruídos políticos e episódios capazes de gerar desconforto em torno das próprias articulações.
Sob esse aspecto, a semana parece ter sido mais confortável para o senador Marcos Rogério e para o ex-prefeito de Porto Velho Hildon Chaves. Ambos mantiveram uma dinâmica de pré-campanha ancorada em agendas externas e discursos previsíveis, sem crises públicas relevantes associadas aos respectivos nomes.
Marcos Rogério optou por reforçar um roteiro já conhecido em sua comunicação política: a valorização do contato popular e da circulação pelo interior do estado. Em publicação divulgada na sexta-feira, 08, o senador relatou deslocamentos por diferentes regiões de Rondônia e destacou recepção positiva recebida ao longo do percurso. “Tenho andado muito por Rondônia. De Porto Velho à Ponta do Abunã, de Extrema aos cantos mais distantes do estado, e em cada lugar, a mesma coisa: o abraço do povo. Esse carinho não tem preço. Cada aperto de mão, cada palavra de confiança, cada olhar de quem deposita esperança no nosso trabalho me enche de energia e de certeza de que estamos no caminho certo”, escreveu.
A estratégia sugere uma tentativa de reforçar capilaridade política e vínculo emocional com o eleitorado, sobretudo em um estado onde identificação pessoal e presença territorial ainda possuem peso relevante nas disputas majoritárias. Sem embates públicos relevantes ao redor de sua figura nesta semana, o pré-candidato do PL preservou uma condição relativamente confortável para seguir reorganizando a própria imagem política.
Situação semelhante foi observada com Hildon Chaves. O ex-prefeito de Porto Velho concentrou atenção em agendas de interiorização, buscando diálogo com setores produtivos. Em visita a Jaru, acompanhado do pré-candidato a vice-governador Cirone Deiró, o político do União Brasil priorizou uma comunicação voltada ao agronegócio e ao desenvolvimento regional.
“JARU MOSTRA A FORÇA DE QUEM PRODUZ EM RONDÔNIA. Ao lado do meu pré-candidato a vice-governador, Cirone Deiró, tivemos a oportunidade de ouvir, conversar e estar perto de quem vive a realidade do campo e ajuda a movimentar o nosso estado todos os dias”, afirmou. Em seguida, sustentou que “quando existe presença, escuta e conexão com quem está na ponta, surgem caminhos mais inteligentes para gerar desenvolvimento, oportunidades e crescimento de verdade”.
A ausência de crises públicas imediatas, somada a uma narrativa focada em presença regional, colocou tanto Marcos Rogério quanto Hildon em posição politicamente menos desgastante ao longo dos últimos dias, ao menos no plano visível da pré-campanha.
No extremo oposto do cenário, a semana do ex-prefeito de Cacoal e pré-candidato ao Governo pelo PSD, Adaílton Fúria, esteve longe da tranquilidade. Em vez de ampliar exclusivamente debates programáticos ou agendas de expansão eleitoral, o político precisou administrar novos episódios diretamente relacionados ao próprio ambiente político de origem.
O primeiro embaraço ganhou repercussão após acusações feitas por Fúria contra o vereador de Cacoal Amarilson Carvalho, do PL. O ex-prefeito afirmou ter sido alertado por vizinhos sobre a presença de um homem em uma caminhonete parada em frente à residência, supostamente observando a movimentação da casa e da rotina dos filhos. Segundo sua versão, o episódio teria motivado preocupação familiar e possibilidade de adoção de medidas relacionadas à segurança doméstica.
Fúria relatou ter identificado Amarilson Carvalho no local e questionado em qual condição o parlamentar estaria presente. Em sua manifestação, associou o episódio a uma preocupação envolvendo a rotina dos filhos, afirmando que mudanças passariam a ocorrer diante do ocorrido.
A resposta veio em tom de enfrentamento. Amarilson negou qualquer prática de monitoramento, contestou as acusações e afirmou ter sido constrangido pela abordagem do ex-prefeito e de seu segurança. “Primeiro, não sou coordenador de campanha”, declarou. O vereador também desafiou a apresentação de provas: “Me mostra filmando”. Em tom mais duro, acrescentou: “Estranhamente ele acusa os outros daquilo que faz. Isso é uma tática, né? Ele gosta de circo. Não tô entendendo. Não sou pré-candidato a nada. Não sou coordenador de campanha. Ele tem que se preocupar com a campanha dele pra governador que ele já tá lá atrás”.
Como se não bastasse o episódio envolvendo a residência, Fúria também voltou ao centro do debate político em Cacoal após nova ofensiva pública do atual prefeito, Tony Pablo, sobre a situação fiscal do município e o tema dos precatórios. O prefeito retomou declarações relacionadas ao cadastro de inadimplentes da Justiça Federal, afirmando ter “limpado o nome” do município após regularização burocrática.
A reação de Fúria veio em forma de contraponto técnico e político. O ex-prefeito argumentou que a pendência correspondia a restos a pagar de aproximadamente R$ 22 mil, vinculados a precatório quitado em janeiro de 2026, sustentando que o problema teria derivado de demora burocrática na baixa do sistema. Também procurou rebater estimativas relacionadas a novos passivos judiciais e afirmou que não existiria previsão de R$ 25 milhões em precatórios para o exercício atual.
Ainda assim, independentemente do mérito das versões apresentadas, o saldo político da semana deixou Fúria novamente em posição defensiva, obrigado a responder simultaneamente a questionamentos locais, disputas narrativas sobre sua administração e controvérsias envolvendo a própria segurança familiar.
Ao redor desse mesmo ambiente político surgiu outro elemento potencialmente desconfortável. O pré-candidato petista ao Governo, Expedito Netto, ao comentar alianças e o cenário eleitoral durante participação no programa Informa na Hora, apresentado por Fábio Camilo, declarou acreditar que seu pai, o ex-senador Expedito Júnior, votará nele, mesmo diante da aproximação política construída anteriormente entre o PSD e Adaílton Fúria.
“O Partido dos Trabalhadores o que eles [seus integrantes] mais queriam hoje era que meu pai fosse candidato a Senado. O Partido dos Trabalhadores já apoiou meu pai pra governo em eleições passadas. De que forma eu estou traindo? Eu acredito que meu pai vai votar em mim. Não tenho dúvida. Meu pai é uma pessoa muito íntegra, de compromisso. Não é nem com Fúria que meu pai tem palavra. Meu pai tem palavra com o PSD, com o partido”, afirmou.
A declaração não representa, necessariamente, ruptura formal de alianças, mas introduz um ingrediente político delicado em um cenário no qual o próprio Expedito Júnior aparece como figura historicamente associada à construção política recente de Adaílton Fúria. Em política, sobretudo em estados onde relações pessoais e redes de confiança exercem influência significativa, gestos, palavras e simbolismos costumam produzir efeitos que ultrapassam o peso literal das declarações.
No pano de fundo de todo esse movimento permanece um dado político inevitável: Rondônia segue sendo um estado majoritariamente conservador, e o próprio Fúria, em diferentes momentos, busca demonstrar sintonia com esse eleitorado ao mencionar de forma positiva o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, a entrada de ruídos indiretos envolvendo um pré-candidato do PT orbitando figuras próximas de sua construção política pode ampliar desafios de posicionamento narrativo, sobretudo em uma disputa onde identidade ideológica e coerência de alianças tendem a ganhar peso crescente.
Enquanto isso, outro nome do tabuleiro parece ensaiar reposicionamento. Samuel Costa, em entrevista ao Gazeta Rondoniense, procurou apresentar uma versão mais moderada de sua própria trajetória política. O pré-candidato afirmou que amadureceu e defendeu menos conflitos ideológicos. “Durante uma parte da minha vida, eu fui um pouco mais progressista em algumas visões políticas. Mas compreendi que mudar não é abandonar princípios. Mudar é evoluir”, declarou.
Na prática, a semana política deixou uma impressão de assimetria entre os atores do jogo. Houve quem conseguisse caminhar sem sobressaltos, concentrando energia em agendas controladas de pré-campanha, e houve quem precisasse gastar tempo respondendo a ruídos domésticos, disputas locais e desconfortos laterais produzidos pelo próprio ambiente político. Em um processo eleitoral ainda distante do voto, mas já intenso no subsolo das articulações, semanas tranquilas também costumam representar vantagem.



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