PORTO VELHO, RO - Entre os nomes colocados, o senador Marcos Rogério é quem protagoniza o movimento mais ousado. Com uma sequência contínua de vitórias eleitorais iniciada em 2009, quando foi eleito vereador em Ji-Paraná, sua trajetória evoluiu para a Câmara dos Deputados — primeiro como suplente empossado em 2011, após recontagem de votos, e depois como titular reeleito — até alcançar o Senado em 2018, quando se sagrou o mais votado em Rondônia. Mesmo após a derrota ao governo em 2022 para o então candidato à reeleição, Coronel Marcos Rocha, o parlamentar não sofreu impacto institucional, já que o mandato de oito anos garantiu sua permanência no cargo até hoje.
O contexto atual, no entanto, é substancialmente diferente e carrega um peso político que não existia anteriormente. Ao optar por disputar novamente o Executivo estadual, Marcos Rogério deixa de operar sob a lógica de risco controlado que marcou sua última candidatura. Em 2022, a derrota não implicava perda concreta de poder, pois o Senado funcionava como uma salvaguarda institucional. Agora, a decisão altera completamente esse cenário. Após mais de 16 anos ocupando cargos públicos de forma ininterrupta, uma nova derrota pode interromper uma sequência construída sem qualquer descontinuidade desde o início da carreira eletiva. Trata-se de uma inflexão relevante: pela primeira vez desde 2009, há a possibilidade real de ruptura no ciclo político que sempre se manteve ascendente, o que eleva o nível de exposição e transforma a candidatura em uma aposta de alto impacto sobre sua trajetória.
Outro movimento de risco elevado — e, sob determinados aspectos, ainda mais definitivo — é protagonizado por Adaílton Fúria. Reeleito em 2024 com votação recorde em Cacoal, após já ter exercido mandato como vereador entre 2012 e 2016 e como deputado estadual entre 2019 e 2020, ele decidiu renunciar ao cargo de prefeito antes mesmo da metade do segundo ano de seu novo mandato para disputar o governo estadual. A decisão, sob o ponto de vista jurídico e institucional, não comporta retorno: a renúncia é um ato irrevogável, o cargo é transferido de forma definitiva ao vice-prefeito, e inexiste qualquer previsão legal que permita reassunção, mesmo em caso de derrota nas urnas.
Esse elemento transforma a candidatura de Fúria em uma aposta integral, sem qualquer margem de proteção. Ao deixar a prefeitura, ele abre mão do principal ativo político e administrativo que possuía, encerrando de forma antecipada um ciclo que havia sido renovado com ampla aprovação popular. A condução da gestão passa a Tony Pablo, e, ainda que não haja obrigação de alinhamento político, o fato de não demonstrar entusiasmo imediato com o novo projeto eleitoral funciona como um termômetro relevante. Em termos práticos, uma eventual derrota não significaria apenas a ausência de um novo cargo, mas também a impossibilidade de retorno ao posto que ocupava e, potencialmente, a redução do espaço político na própria base onde construiu sua trajetória.
Em contraste com esses dois movimentos de maior exposição, há candidaturas que operam sob lógica inversa, com riscos substancialmente menores. O ex-prefeito de Porto Velho Hildon Chaves entra na disputa sem comprometer estruturas essenciais. Com trajetória consolidada fora da política, construída no setor educacional e empresarial, ele já possuía estabilidade antes mesmo de ingressar na vida pública. A saída da presidência da AROM, embora politicamente relevante, não representa perda estrutural equivalente à renúncia de um mandato eletivo.
Nesse contexto, a candidatura ao governo cumpre também uma função estratégica de reposicionamento público. Amplia visibilidade, recoloca o nome no centro do debate político estadual e mantém sua presença ativa no cenário, inclusive com reflexos potenciais em projetos políticos associados, como os da deputada estadual Ieda Chaves. Além disso, Hildon Chaves se posiciona em igualdade de competitividade com os demais nomes colocados, com chances reais de alcançar o comando do Executivo estadual, mas sem carregar o ônus institucional que pesa sobre outros pré-candidatos. Essa condição permite uma atuação mais confortável, sem a pressão de uma perda imediata em caso de derrota.
Situação semelhante, embora construída a partir de outro ponto de partida, é a de Expedito Netto. Após não conseguir a reeleição para a Câmara dos Deputados, ele havia perdido protagonismo no cenário político local. Agora, retorna à disputa vinculado ao Partido dos Trabalhadores e ao governo federal, ocupando, inclusive, função na estrutura nacional ligada à pesca industrial. A nova filiação e a associação direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva reposicionam sua imagem política, inclusive após o histórico voto favorável ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016, episódio que, dentro do contexto atual, foi absorvido e superado no ambiente partidário.
Embora enfrente um ambiente eleitoral menos favorável em um estado com predominância de eleitorado conservador, Expedito Netto passa a dispor de uma vitrine política ampliada. A candidatura, nesse sentido, não implica perdas institucionais imediatas, mas oferece uma oportunidade concreta de reconstrução de protagonismo, recolocando seu nome no debate público estadual e nacional, independentemente do desfecho eleitoral.
O quadro que se estabelece, portanto, não se limita à disputa por um cargo, mas revela diferentes níveis de exposição ao risco político. De um lado, candidaturas que colocam em jogo trajetórias consolidadas, mandatos e posições institucionais, com possibilidade concreta de ruptura em caso de derrota. De outro, projetos que utilizam o processo eleitoral como plataforma de reposicionamento, ampliando capital político sem comprometer estruturas previamente consolidadas.
Nesse equilíbrio entre apostas e perdas, a eleição para o Governo de Rondônia em 2026 se apresenta como um verdadeiro teste de cálculo político. Mais do que medir força eleitoral, o pleito evidencia quem está disposto a arriscar o patrimônio político acumulado ao longo de décadas e quem opta por avançar preservando as bases que já possui. No fim das contas, à luz dos elementos postos, os players com maiores chances de enfrentarem uma perda total, até o momento, são justamente Marcos Rogério e Adaílton Fúria.



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