PORTO VELHO, RO - A entrevista concedida por Neidinha Suruí ao podcast Resenha Política, feito em parceria com o Rondônia Dinâmica, foi marcada por uma sequência de declarações duras sobre o conflito na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, sobre a atuação de agentes públicos e sobre o uso político da pauta indígena e ambiental em Rondônia. Ao longo da conversa com o apresentador Robson Oliveira, ela afirmou que há “fake news” e “mentiras” disseminadas por políticos a respeito da área, disse que o debate público tem sido contaminado por manipulação sobre o alcance real do antigo Projeto Burareiro e atribuiu à omissão estatal, ao longo de muitos anos, parte da crise fundiária que ainda repercute na região.
Antes de entrar diretamente no caso Uru-Eu-Wau-Wau, Neidinha procurou construir um argumento mais amplo sobre a ocupação territorial em Rondônia. Segundo ela, o próprio zoneamento estadual já reserva a maior parte do território para produção, o que, em sua avaliação, desmontaria o discurso de que povos indígenas e áreas ambientais impedem o desenvolvimento econômico. Na entrevista, ela declarou que Rondônia foi o primeiro estado a ter zoneamento e afirmou que quase 60% do território está destinado à área produtiva, enquanto pouco mais de 30% corresponderia a uma zona intermediária e apenas 14% ficaria voltado à proteção ambiental, aos territórios indígenas e às reservas extrativistas. A partir dessa leitura, sustentou que não haveria justificativa para novas invasões de terras indígenas ou de áreas protegidas.
Ao falar do ambiente político estadual, Neidinha ampliou o tom crítico e citou, sem nominar parlamentares, a existência de discursos falsos veiculados nas mídias. Ela disse que evita citar nomes “por uma questão de ética”, mas afirmou que a população consegue identificar quem, segundo ela, estaria mentindo sobre a pauta. Na mesma linha, criticou a forma como acompanha as sessões da Assembleia Legislativa e relatou insatisfação com o que considera falta de transparência no processo de votação. Segundo a entrevistada, a dinâmica das deliberações impediria o entendimento claro do que está sendo votado, especialmente em matérias ambientais. Em um dos trechos mais incisivos da conversa, ela relatou ter assistido a uma votação em que, segundo sua descrição, se pediu voto com base em um parecer que ainda não estava pronto, dizendo que sequer a inteligência artificial conseguiria produzir um parecer técnico naquele ritmo.
O centro da entrevista, contudo, foi a controvérsia em torno da desintrusão na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Ao responder à pergunta de Robson Oliveira sobre a situação do conflito, Neidinha sustentou que parte da classe política e do debate público tenta induzir a sociedade a acreditar que a controvérsia envolveria todo o Projeto Burareiro, antigo assentamento do Incra. Segundo ela, isso não corresponde aos fatos expostos na própria discussão oficial. Afirmou que a área em disputa representa apenas uma fração do projeto de assentamento e que a narrativa de que “vão tirar todo mundo” seria uma distorção produzida de má-fé para ampliar artificialmente a dimensão do problema perante a opinião pública.
Na entrevista, a liderança indígena explicou que o Projeto Burareiro foi um assentamento do Incra criado na região de Ariquemes para receber migrantes e distribuí-los em lotes destinados à produção. O ponto de inflexão, segundo sua versão, ocorreu porque uma parte da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau teria sido incluída indevidamente nesse processo. Ela afirmou que o Incra assentou, dentro do território indígena, uma área de 14 mil hectares, o que equivaleria, segundo seus números, a apenas 2,5% do Projeto Burareiro. A partir daí, disse que a confusão atual se concentra nesse trecho específico, e não em todo o assentamento, como, segundo ela, alguns agentes políticos fazem parecer.
Ainda segundo Neidinha, o Incra chegou a conceder 114 títulos na área, o que, conforme sua narrativa, colocou o local em litígio. Ela afirmou que houve erro do órgão fundiário nesse procedimento e disse que, desse total de 114 títulos, apenas três teriam permanecido efetivamente dentro da terra indígena com os detentores originais. Os demais, de acordo com sua fala, teriam sido abandonados, transferidos ou não assumidos pelos primeiros assentados. A entrevistada sustentou que o foco do conflito, portanto, não estaria propriamente nesses três casos originários, mas na ausência de retirada desses ocupantes, na não desconstituição dos títulos e na falta de fiscalização posterior por parte da Funai, do Ibama e do ICMBio, o que teria permitido a entrada progressiva de outras pessoas na área.
Ao detalhar essa expansão das ocupações, Neidinha afirmou que a Canindé realizou um levantamento para mapear quem está dentro do território. Segundo ela, parte das pessoas apontadas como pequenos ocupantes teria, na verdade, outras fazendas fora da terra indígena, inclusive propriedades valiosas, com gado. Ela disse que o grupo levantou o número de ocupantes, o volume de transações financeiras e o patrimônio associado, e relatou que foi gasto muito dinheiro nesse estudo. Na entrevista, declarou que esse material foi produzido porque a situação hoje é acompanhada pelo CNJ, identificado por ela como Comissão Nacional de Justiça, e que os dados serviriam para demonstrar que a imagem de um conflito envolvendo apenas pequenos agricultores pobres não esgotaria a realidade exposta no local.
Ao mesmo tempo, Neidinha procurou diferenciar quem, na visão dela, foi enganado pelo Estado daqueles que passaram a ocupar a área posteriormente. Ela disse que os indígenas não são contrários à indenização das pessoas que receberam assentamento do Incra e repetiu, mais de uma vez, que o erro foi do governo, não do atual, mas de administrações passadas. Nesse trecho, atribuiu a origem institucional do problema ao próprio poder público e defendeu que os assentados lesados tenham suas benfeitorias indenizadas e recebam terra fora da área indígena. Para ela, a saída da crise passa por reparar quem foi colocado de forma irregular naquele espaço e, ao mesmo tempo, restituir integralmente o território aos indígenas.
Em uma das falas mais politicamente delicadas da entrevista, Neidinha atribuiu ao deputado Lúcio Mosquini a indicação de nomes ao Incra. Sem apresentar outros documentos além do que verbalizou na conversa, afirmou que esse seria o parlamentar responsável por indicar pessoas ao órgão e declarou que, se há confusão nessa seara, o nome a ser mencionado seria o dele. O comentário apareceu quando ela discutia a composição política do Congresso e defendia que a simples troca do presidente da República não altera o funcionamento do sistema se o eleitorado mantiver os mesmos parlamentares. Nesse ponto, a entrevistada também afirmou que a política foi transformada em emprego por pessoas que permanecem anos no poder e, segundo ela, aprovam medidas sem o devido compromisso com a população.
Ao ser confrontada por Robson Oliveira com o argumento de que existem centenas de famílias no interior da área e de que seria difícil removê-las após décadas de inércia estatal, Neidinha respondeu reconhecendo que há muitas pessoas dentro do território, mas reiterou que a terra é “demarcada e homologada”. Segundo ela, isso significa que todos os procedimentos legais já foram cumpridos e que a área não está sob dúvida jurídica. Afirmou ainda que a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau não se enquadra na controvérsia do marco temporal, justamente porque, segundo relatou, o processo demarcatório já foi concluído e homologado. Na mesma resposta, reforçou que o Incra já teria reconhecido o erro e disse que os indígenas estão dispostos até a ajudar o governo a buscar recursos para indenizar as famílias.
Questionada sobre a origem desse dinheiro, Neidinha citou o caso de Foz do Iguaçu como exemplo de indenização financiada com recursos da Itaipu e afirmou que o governo deve encontrar uma forma de pagar os atingidos. Na conversa, defendeu de maneira explícita a combinação entre indenização, reassentamento fora da terra indígena e devolução da área aos povos originários. Também voltou a insistir que não se trata de todo o Projeto Burareiro, mas de uma “partezinha pequena”, e disse que a impressão de que o conflito alcança o assentamento inteiro resulta de uma mensagem política falsa disseminada para confundir a sociedade.
Na parte em que argumenta pela proteção da terra indígena, Neidinha associou diretamente a conservação da Uru-Eu-Wau-Wau ao funcionamento econômico do próprio Estado. Segundo ela, no território nascem 17 dos principais rios de Rondônia, além de inúmeros igarapés e nascentes que abastecem atividades agrícolas, mantêm a biodiversidade e contribuem para a geração de energia. A entrevistada afirmou que a destruição da área afetaria não apenas os indígenas, mas também o agronegócio e o sistema energético, citando o rio Jamarí e afluentes que desaguam no Madeira. Ao explicar sua posição, destacou a distinção entre preservação e conservação, sustentando que a defesa da terra indígena não significa isolamento absoluto, mas uso correto dos recursos naturais, com manutenção da natureza e possibilidade de benefício econômico.
Esse raciocínio levou a outra frente de tensão da entrevista: a crítica à apropriação política do discurso do agronegócio. Neidinha afirmou que os indígenas também produzem, citando o caso dos Paiter Suruí como produtores premiados de café, além da comercialização de banana e castanha. Segundo ela, o problema está no volume de subsídios destinados ao grande agronegócio e na forma como pequenos produtores e indígenas são usados discursivamente para dar sustentação a interesses maiores. Na conversa, ela pediu que o pequeno produtor questione se recebe o mesmo apoio estatal destinado aos grandes grupos do setor e disse que há uma comunicação do agro que tenta incluir todos sob o mesmo guarda-chuva, o que, em sua avaliação, não corresponderia à realidade econômica do campo.
A entrevista avançou então para outra controvérsia: a exploração mineral em áreas indígenas, com foco nos Cinta Larga, na região de Espigão do Oeste e Roosevelt. Ao responder sobre a reserva de diamantes e a possibilidade de regularização da atividade, Neidinha fez distinção entre garimpo e mineração. Segundo ela, garimpo seria a atividade manual, enquanto mineração se refere à exploração mecanizada, em escala maior. Afirmou que a legislação permite aos próprios indígenas fazer lavra e garimpagem em seus territórios, mas que a entrada de grandes mineradoras dependeria de aprovação do Senado, conforme interpretação que apresentou da Constituição.
Na sequência, ela disse que o problema existente entre os Cinta Larga não seria a atividade indígena em si, mas a presença de não indígenas no interior da área e a participação de grupos com muito dinheiro por trás do garimpo ilegal. Segundo a entrevistada, quando ocorrem ações de fiscalização, os indígenas acabam presos, enquanto os não indígenas financiadores não são alcançados na mesma medida. Robson Oliveira lembrou operações com dezenas de indígenas presos, e Neidinha respondeu que houve também prisões de pessoas ligadas à polícia, à Funai e a outros setores, numa operação que, segundo ela, expôs uma rede mais ampla de envolvimento.
Ao comentar o contraste entre lideranças com alto padrão de consumo e integrantes das comunidades em situação precária, Neidinha afirmou que não luta para “dividir miséria”, mas para que todos tenham qualidade de vida. Em seguida, porém, desenvolveu uma interpretação política mais ampla: para ela, há uma estratégia montada pela extrema-direita e pela direita para se apropriar dos territórios indígenas por meio do debate sobre liberação do garimpo. Sua tese, exposta de forma direta na entrevista, é a de que a defesa da exploração mineral serviria, no futuro, de argumento para dizer que determinados povos já não precisam mais de seus territórios conforme os usos e costumes previstos na Constituição. A partir daí, segundo sua fala, abrir-se-ia caminho para o desmembramento das áreas em favor de grandes mineradoras, inclusive multinacionais.
Nessa mesma linha, Neidinha criticou audiências públicas e o que chamou de processos “armados”, em que, segundo ela, só são levadas pessoas alinhadas a determinada tese, sem que se esclareçam os riscos constitucionais e territoriais envolvidos. Na avaliação que apresentou no programa, garimpeiros manuais e parte dos defensores da liberação não compreendem que uma eventual abertura pode não beneficiá-los diretamente, mas sim grandes empresas interessadas no subsolo das terras indígenas. Sua fala conectou esse cenário a um movimento internacional de pressão por recursos minerais, dizendo que há grandes mineradoras observando essas áreas.
Na parte final da entrevista, Robson Oliveira deslocou a discussão para o plano nacional e perguntou por que governos identificados por parte da opinião pública como mais próximos da esquerda não avançaram mais na pauta indígena. Neidinha respondeu que discorda dessa classificação. Disse que o Congresso Nacional não é de esquerda, afirmou que não considera o atual governo como sendo de esquerda e sustentou que o país é governado por uma composição de direita e centro, com presença expressiva de extrema-direita. Ao mesmo tempo, reconheceu avanços em educação, saúde, moradia e qualidade de vida, mas afirmou que, para a pauta indígena e ambiental, sua avaliação é diferente.
Segundo a entrevistada, no período recente houve apenas sete demarcações de terras indígenas, embora a promessa fosse de 14 no primeiro ano de governo. Ela afirmou que as áreas demarcadas seriam pequenas e sem conflitos fundiários significativos, enquanto os casos mais complexos não avançaram. Em sua leitura, isso decorre do peso do Congresso Nacional e da necessidade de acomodação política do Executivo. Na entrevista, disse que, se o presidente confrontar diretamente os interesses da maioria parlamentar, pode ser derrubado, como ocorreu com Dilma Rousseff, segundo sua interpretação. Ainda argumentou que muitos ministros não são escolhidos livremente pelo presidente, mas indicados por partidos, o que limitaria a margem de ação do governo.
Encaminhando a conclusão da conversa, Neidinha voltou a associar o debate fundiário e ambiental à representação política. Disse que pequenos produtores, pessoas LGBT e outros grupos sociais precisam eleger representantes que defendam seus interesses e voltou a afirmar que o Congresso hoje é dominado pelo grande agronegócio. Também insistiu que quem possui poucas cabeças de gado ou pequena produção não deve se confundir com os grandes beneficiários do setor. A entrevista foi encerrada após Robson Oliveira destacar a relevância do tema e observar que a sociedade recebe, muitas vezes, informações distorcidas sobre povos originários e meio ambiente.
O trecho final teve ainda espaço para referências pessoais e laterais à trajetória de Neidinha e de sua filha, Walelasoetxaige Paiter Suruí, chamada como Txai Suruí. Robson Oliveira a mencionou como referência internacional, e Neidinha explicou que a filha estava de partida para a ONU após convocação de António Guterres para o mês seguinte. Também citou a atuação dela como articulista da Folha de S.Paulo e mencionou o lançamento de uma grife de moda sustentável em parceria com Milamales e Catarina Bellini. Na mesma parte da entrevista, contou que havia cancelado viagens internacionais naquele ano para concentrar mais atenção em Rondônia, explicando que passaria a ser menos vista em aeroportos e mais presente no estado. Houve ainda menção ao pai de Txai Suruí, Almir Suruí, apontado por ela como grande liderança do povo Paiter Suruí.
10 FRASES DE NEIDINHA SURUÍ NO RESENHA POLÍTICA:
01) “Tem fake news, as mentiras que são ditas por alguns políticos.”
Políticos foram citados por Neidinha como agentes de desinformação no debate sobre terras indígenas e meio ambiente em Rondônia, embora ela tenha dito que não revelaria nomes “por uma questão de ética”.
02) “O discurso de que o meio ambiente e os povos indígenas impedem o desenvolvimento do Estado...”
A frase apareceu quando ela defendia que o zoneamento de Rondônia já destina a maior parte do território à produção e, por isso, não haveria justificativa para invadir áreas protegidas.
03) “É péssimo. É péssimo. Acho que eles precisam melhorar muito.”
Assim ela resumiu sua crítica ao modo como as votações ocorrem na Assembleia Legislativa, afirmando que a população nem sempre consegue entender o que está sendo aprovado.
04) “Nem a IA consegue dar um parecer técnico tão rápido daquele jeito.”
A declaração foi usada por Neidinha ao relatar uma votação ambiental que, segundo ela, teria sido feita em ritmo incompatível com uma análise técnica adequada.
05) “De má fé, esses políticos deixam as pessoas acharem que é o projeto.”
Ela se referia à narrativa, que contestou durante a entrevista, de que todo o Projeto Burareiro estaria ameaçado pela desintrusão na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau.
06) “Nós não somos contra que se indenize quem foi enganado pelo INCRA.”
A entrevistada afirmou que os indígenas defendem a indenização de quem foi assentado irregularmente pelo poder público e que considera isso um erro estatal de governos passados.
07) “Quem indica as pessoas para o INCRA é o Lúcio Moschino.”
A fala surgiu no momento mais sensível da conversa, quando Neidinha vinculou a responsabilidade política pela confusão fundiária à influência sobre indicações no órgão.
08) “Queremos que eles saiam indenizados, que o governo dê terra para eles fora da terra indígena.”
Nessa passagem, ela resumiu a solução que defende para a crise: compensação financeira, reassentamento fora da área e devolução do território aos indígenas.
09) “Tem uma estratégia montada pela extrema-direita e pela direita para se apropriar dos territórios indígenas.”
A frase foi dita durante a discussão sobre garimpo e mineração em terras indígenas, quando Neidinha afirmou ver uma articulação política e econômica por trás da pauta.
10) “Não pense você que tem 50 cabeças de gado, 100 cabeças de gado, que você é agro, que você é grande. Você não é.”
A entrevistada usou esse trecho para diferenciar o pequeno produtor dos grandes grupos do agronegócio e sustentar que o Congresso estaria dominado pelos interesses dos setores maiores.



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