Porto Velho, RO - O senador Marcos Rogério, do PL, concentrou em uma mesma entrevista ao Rondônia Dinâmica, na manhã desta quarta-feira, 25, uma sequência de declarações sobre ideologia, alianças, erros eleitorais, disputas internas no partido, concessão da BR-364 e cenário presidencial de 2026, combinando autocrítica, ataques à esquerda, defesa do bolsonarismo e tentativas de afastar leituras de divisão dentro da direita rondoniense. Ao ser confrontado sobre sua antiga passagem pelo PDT e sobre discursos feitos no passado em defesa de nomes ligados ao trabalhismo e à centro-esquerda, como Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e ex-presidente João Goulart, o Jango, o senador afirmou que sempre foi conservador, mas admitiu que, naquele período, não tinha clareza sobre o que eram direita e esquerda. Foi nesse ponto que ele fez uma das declarações mais duras de toda a conversa, ao sustentar que, à época, ainda não compreendia “o quanto a esquerda representava o mal que ela representa para o país, do ponto de vista de valores, do ponto de vista de princípios”.
Ao reconstruir esse trecho de sua trajetória, Marcos Rogério atribuiu a entrada no PDT ao vínculo profissional que mantinha com o Grupo Eucatur, quando Acir Gurgacz era presidente estadual da legenda. Segundo ele, sua filiação não decorreu de adesão ideológica ao partido, mas da relação de emprego daquele momento. Ainda assim, reconheceu que fez manifestações favoráveis a figuras daquele campo político, embora tenha afirmado que isso ocorreu por desconhecimento. Na entrevista, negou ter sido de esquerda, insistiu que seus discursos sempre tiveram traços conservadores e disse que, ao perceber que a pauta pedetista era, em suas palavras, “anti-família” e “anti-direito de propriedade”, rompeu com o partido e migrou para o Democratas, descrito por ele como o partido de direita daquele contexto. Também afirmou que sua admiração por personalidades que antes citava foi esvaziada à medida que passou a conhecer melhor o que chamou de “linha do pensamento” dessas lideranças, acrescentando que hoje enxerga aquele período como parte de “um tempo da ignorância”.
A entrevista também retomou a imagem nacional consolidada por Marcos Rogério durante a CPI da Covid, quando ganhou visibilidade como um dos principais defensores de Jair Bolsonaro no colegiado. Questionado sobre o efeito político daquele período e se a fama o teria deixado envaidecido, o senador negou. Disse que o reconhecimento o estimula, mas aumenta sua responsabilidade, e afirmou que não se define pelo personagem forjado naquele embate. Ao mesmo tempo, não recuou da linha política que adotou no auge da comissão. Sustentou que a CPI foi usada pela esquerda como instrumento para destruir a imagem do então presidente com objetivo eleitoral e classificou o colegiado como “o epicentro” e “a trincheira da esquerda para derrubar o Bolsonaro”. No mesmo bloco, reconheceu que Bolsonaro errou na condução da pandemia, mas relativizou o peso dessas falhas ao afirmar que todos erraram e que nenhum país estava preparado para enfrentar uma crise sanitária daquela dimensão.
Foi nessa parte da entrevista que Marcos Rogério voltou a usar expressões que marcaram sua atuação nacional. Disse não se ofender com a alcunha de “pitbull do Bolsonaro” e sustentou que, na CPI, não fazia apenas a defesa do ex-presidente, mas o enfrentamento de narrativas que, segundo ele, eram impulsionadas pela grande imprensa, pelo Judiciário e pela esquerda de forma articulada. Ele afirmou que a comissão projetava para fora a ideia de que Bolsonaro conspirava contra os brasileiros, negou essa versão e afirmou que o governo federal comprou vacinas, respiradores e reequipou unidades de saúde. Ainda assim, procurou adaptar o discurso ao perfil de uma disputa majoritária estadual, declarando que, embora siga sendo de direita, conservador e liberal na economia, uma candidatura ao governo exige diálogo com quem pensa diferente e uma proposta que contemple toda a sociedade.
Ao revisitar a derrota de 2022 para o governo de Rondônia, o senador fez uma autocrítica objetiva e disse, de forma direta, que perdeu a eleição pelos próprios erros. Segundo ele, faltaram maturidade política, visão estratégica e disposição para construir alianças após o primeiro turno. Relatou que, em vez de parar para conversar, ouvir adversários e agregar apoios, emendou imediatamente a campanha da etapa seguinte, desperdiçando um tempo que poderia ter sido decisivo para ampliar a base. Na avaliação dele, esse movimento comprometeu o fôlego no segundo turno. Paralelamente, atribuiu peso relevante à estratégia do então adversário, o governador Marcos Rocha, que teria reforçado entre os eleitores a ideia de que Rondônia precisava mantê-lo no Senado, e não no Palácio Rio Madeira. Marcos Rogério disse ter ouvido com frequência a frase de eleitores que preferiam que ele seguisse em Brasília e afirmou que perdeu por apenas 2% dos votos, margem que, segundo ele, torna qualquer erro suficientemente relevante para explicar o desfecho.

Marcos Rogério durante entrevista, ao defender posicionamento na direita e criticar adversários ligados à base do governo Lula / Foto: Rondônia Dinâmica
Em outra frente sensível, o senador tentou desmontar a narrativa de crise interna no PL rondoniense. Instado a comentar a cobrança pública feita pelo vice-presidente estadual da sigla, Bruno Scheid, sobre providências em relação a um vereador de Nova Mamoré envolvido com a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) e, consequentemente, em problemas judiciais, Marcos Rogério disse que não houve desgaste e explicou que, em casos envolvendo vereadores, a competência estatutária para processo disciplinar é da executiva municipal, não da estadual. Segundo ele, ao tomar conhecimento da prisão, orientou imediatamente o diretório local a apurar os fatos e adotar medidas. Posteriormente, diante da inércia da instância municipal, formalizou nova notificação e chegou a recomendar medida cautelar, embora tenha ressaltado que a decisão cabia à esfera partidária do município. No mesmo trecho, ao abordar a troca de comando do PL em 2023 e as queixas públicas do senador Jaime Bagattoli, Marcos Rogério negou ruptura, negou qualquer desentendimento e classificou Bagattoli como “um grande senador” que ajuda no projeto partidário.
A negativa ficou ainda mais explícita quando foi perguntado, de forma direta, se havia dado uma “rasteira” em Jaime Bagattoli. Marcos Rogério respondeu que não e atribuiu a mudança na presidência do partido a uma circunstância específica de sua vida pessoal: o afastamento temporário para cuidar da saúde da filha. Na entrevista, disse que viveu um quadro que exigia presença integral do pai e da mãe, explicou que praticamente desapareceu das redes sociais naquele período e afirmou que a executiva nacional optou por afastá-lo da presidência estadual enquanto Jaime assumia o comando. Mais tarde, já na véspera da eleição municipal, segundo o senador, a direção nacional recompôs sua presidência e lhe entregou a tarefa de organizar o pleito. Para sustentar a versão de que a crise foi superada, destacou os números obtidos pelo partido nas municipais, afirmando que o PL elegeu 12 prefeitos, 91 vereadores e 7 vice-prefeitos, além de ter apoiado vitórias em outras legendas.
Quando a conversa avançou para o xadrez da direita em 2026, Marcos Rogério também procurou reduzir o impacto de uma eventual candidatura de Hildon Chaves ao governo. Disse respeitar o direito do ex-prefeito de disputar a eleição, afirmou que ninguém escolhe os concorrentes e declarou que o enfrentará “nas urnas” e “nos debates”, cada um apresentando suas ideias. Ao mesmo tempo, esclareceu que vinha conversando tanto com Hildon quanto com o prefeito Léo Moraes, mas ressaltou que a primeira definição a ser tomada era a candidatura ao governo, e não a vice. Sobre os rumores de que Márcio Barreto, tio de Léo Moraes, estaria cotado para compor chapa, negou qualquer definição com o Podemos e afirmou que eventual composição teria de passar pelo crivo do prefeito da capital, presidente estadual do partido. A frase central desse trecho foi a de que não havia, até ali, nenhuma definição de nome nem de composição.
Outro dos pontos mais duros da entrevista surgiu no debate sobre a BR-364. Na condição de presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, Marcos Rogério classificou a concessão como uma punição imposta pelo governo federal a Rondônia, chamou o modelo de desproporcional e afirmou que o estado recebeu um dos pedágios mais caros do país. Citou o caso de motoristas que saem de Cujubim para Ariquemes e pagam R$ 37 para ir e R$ 37 para voltar, apontando isso como exemplo de um sistema incompatível com a realidade econômica local. Segundo o senador, há dois movimentos em curso: uma ação judicial questionando o pedágio, que teve vitória em Rondônia e revés liminar em Brasília, e a discussão técnica sobre o volume real de tráfego na rodovia, que, conforme ele disse, seria muito superior ao estimado no contrato de concessão. Para Marcos Rogério, essa diferença pode abrir dois caminhos: ampliar investimentos e obras ou reduzir tarifas. Ele afirmou que, neste momento, defende a redução tarifária.
No mesmo raciocínio, o senador expandiu a crítica e ligou o pedágio à falta de alternativas logísticas no estado. Disse que Rondônia não se preparou para a concessão, que depende excessivamente da BR-364 e que o modelo econômico local piora o custo do frete porque carretas trazem produtos e retornam vazias. A partir daí, passou a defender, já sob a ótica de pré-candidato ao governo, uma política de estímulo à industrialização em Porto Velho e em outras regiões, de forma a criar carga de retorno e reduzir o peso do transporte no preço final das mercadorias. Também mencionou trechos rodoviários estaduais que, se asfaltados, poderiam desafogar a BR-364, reduzir o impacto do pedágio e estimular a produção regional. Ao citar exemplos, mencionou conexões envolvendo Cujubim, Rio Crespo, Ariquemes, Alto Paraíso, Triunfo e o Vale do Jamari, insistindo que pequenos trechos de asfalto poderiam alterar de forma relevante a logística do estado.
Ainda no campo administrativo, Marcos Rogério voltou a falar de Ivo Cassol. Após publicar foto ao lado do ex-governador, disse que sua referência não é a pessoa em sentido amplo, mas aspectos específicos da gestão, sobretudo infraestrutura e agricultura. Reconheceu que Cassol tem posições políticas próprias, que nem tudo em sua forma de governar encontra concordância integral, mas afirmou que há fatos que, na avaliação dele, “ninguém pode negar”, como o investimento em maquinário e assistência ao produtor rural e a atuação do DER na atenção primária. Em contraposição, declarou que hoje o departamento está sucateado, desaparelhado, desmobilizado e com servidores em greve. Quando foi questionado sobre o problema de associar sua imagem a um nome condenado por fraude em licitação e inelegível, respondeu que visitou Cassol como liderança política influente e respeitada, buscou apoio e reiterou que divergências pontuais não apagam o peso de sua trajetória no estado.
Na reta final da entrevista, o senador tratou do cenário nacional e fez uma aposta explícita no nome de Flávio Bolsonaro para a Presidência da República. Com base em pesquisas internas mencionadas por ele, afirmou que Rondônia é um estado majoritariamente de direita, com algo entre 75% e 76% do eleitorado identificado com esse campo, e disse que Flávio, mesmo ainda não sendo amplamente conhecido por todo o eleitorado, já aparece com percentual acima de 60% em cenários contra Lula. Marcos Rogério descreveu o senador fluminense como amigo pessoal, disse que ele herdou o legado do pai e acrescentou que possui uma capacidade de diálogo maior do que a de Jair Bolsonaro, conseguindo transitar em nichos eleitorais onde o ex-presidente teria mais dificuldade. Também afirmou que o primeiro ato nacional de pré-campanha de Flávio teria ocorrido em Rondônia, em evento de lançamento de sua própria pré-candidatura ao governo.
Foi nesse mesmo trecho que Marcos Rogério explicitou o vínculo político que busca estabelecer para 2026. Segundo ele, o projeto é o de Flávio Bolsonaro para presidente e Marcos Rogério para governador. O senador afirmou que esse alinhamento poderá ajudar eleitoralmente, mas também administrativamente, sobretudo em pautas de infraestrutura consideradas estratégicas para Rondônia. Citou, nesse contexto, a BR-319, criticou entraves ambientais e afirmou que o governo Bolsonaro tentou avançar na obra, sem sucesso. Também atacou a ministra Marina Silva, dizendo que ela não permitiu o licenciamento, e narrou o embate legislativo em torno de um novo marco legal ambiental, mencionando veto presidencial derrubado pelo Congresso. A conclusão política apresentada por ele foi a de que uma eventual eleição de Flávio representaria “uma nova página” para o desenvolvimento da região.
Já no bloco final, com a temperatura mais baixa e a conversa migrando para nuances de posicionamento, Marcos Rogério tentou se definir como um homem mais amadurecido. Disse que não deixou de ser quem é, que continua de direita e conservador, mas sustentou que o tempo lhe trouxe maturidade e consciência de que governar significa cuidar de todos, não de apenas um segmento. A partir daí, diferenciou o cenário de 2026 do de 2022, observando que, naquela disputa, havia dois candidatos do mesmo nicho bolsonarista, situação que teria empurrado eleitores de centro, centro-esquerda e esquerda para Marcos Rocha, visto como menos radical. Agora, segundo ele, o quadro é outro porque o eleitor conseguiria identificar melhor quem representa cada campo político. Nesse ponto, voltou a mirar adversários ao citar partidos que integram a base do governo Lula, mencionando nominalmente apenas o PSD como legenda que, na visão dele, mais apoia o Palácio do Planalto. O PSD tem como pré-candidato ao Governo de Rondônia o prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, não citado na entrevista.
Encerrando a entrevista, o senador afirmou que prefere discutir os problemas concretos de Rondônia e voltou a citar obras e promessas que, segundo ele, não saíram do papel, como o Hospital de Urgência e Emergência de Porto Velho, o hospital regional de Ariquemes e a pavimentação da RO-420 em trechos que ligariam Buritis, Rio Pardo, Jacinópolis, Nova Dimensão e Nova Mamoré. Segundo Marcos Rogério, o estado parou no que se refere a grandes entregas e investimentos nos últimos quatro anos.
10 FRASES DE MARCOS ROGÉRIO AO RONDÔNIA DINÂMICA:
01) “Eu não sabia o quanto a esquerda representava o mal que ela representa para o país, do ponto de vista de valores, do ponto de vista de princípios.”
A frase foi dita quando Marcos Rogério respondeu à cobrança sobre sua passagem pelo PDT e tentou explicar por que afirma nunca ter sido de esquerda, apesar de ter integrado o partido e feito referências elogiosas a nomes daquele campo político no passado.
02) “Aquela CPI, ela foi o epicentro, a trincheira da esquerda para derrubar o Bolsonaro.”
O senador fez essa afirmação ao revisitar sua atuação na CPI da Covid, sustentando que o colegiado foi usado politicamente para desgastar Jair Bolsonaro e produzir efeito eleitoral contra o então presidente.
03) “Eu perdi a eleição em 2022, eu perdi pelos erros que eu cometi mesmo.”
A declaração surgiu no momento em que ele foi instado a explicar a derrota para o governo de Rondônia e optou por fazer autocrítica aberta sobre falhas estratégicas no segundo turno.
04) “Se eu faço isso, eu tinha ganho a eleição.”
Marcos Rogério se referia à hipótese de ter parado após o primeiro turno para construir alianças, conversar com adversários e agregar apoios que, segundo ele, poderiam ter mudado o resultado final da disputa.
05) “Não, não houve, não houve.”
A resposta veio quando o repórter perguntou diretamente se ele havia dado uma “rasteira” em Jaime Bagattoli na disputa interna pelo comando do PL em Rondônia.
06) “Foi um pedágio muito caro, desproporcional e desrespeitoso com a população de Rondônia.”
O senador usou essa formulação ao tratar da concessão da BR-364, classificando a tarifa como incompatível com a realidade econômica local e atacando a modelagem adotada.
07) “Nós vamos enfrentá-lo nas ruas, nos debates.”
A fala foi dirigida ao ex-prefeito Hildon Chaves, depois de ser questionado sobre o efeito de uma eventual candidatura dele ao governo e sobre a divisão de votos no campo da direita.
08) “Eu acho que a Rondônia é um estado majoritariamente de direita.”
Marcos Rogério apresentou essa leitura ao comentar o cenário presidencial e o potencial de transferência de apoio do bolsonarismo nacional para a disputa estadual de 2026.
09) “Esse projeto político é um projeto que está atrelado ao Flávio Bolsonaro para candidato à presidência da República e o Marcos Rogério para candidato a governador.”
A declaração explicita o eixo político que o senador diz estar em construção, vinculando sua pré-candidatura ao Palácio Rio Madeira a uma chapa presidencial liderada por Flávio Bolsonaro.
10) “Eu não deixei de ser quem eu sou. Eu sou de direita e conservador, mas o tempo nos traz a maturidade.”
A frase apareceu na reta final da entrevista, quando ele foi questionado sobre moderação, centro político e a necessidade de dialogar com eleitores fora do núcleo ideológico mais duro da direita.



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