PORTO VELHO, RO - As declarações da vereadora Sofia Andrade, do PL de Porto Velho, não podem ser tratadas como mero excesso verbal isolado, nem como simples arroubo de retórica em ambiente polarizado. Há um padrão. Ao ser entrevistada pelo jornalista Arimar Souza de Sá durante o programa A Voz do Povo, da Rádio Caiari FM 103,1, em pergunta sobre como avalia as pautas da esquerda, a parlamentar respondeu sem mediações: “desagradam. Pra mim, quem defende vagabundo não merece ter espaço na vida pública. Pra mim, quem defende vagabundo não pensa no melhor da sua vida”. Em seguida, aprofundou a generalização em uma formulação que associa, de forma ampla, eleitores da esquerda a figuras criminosas e moralmente estigmatizadas: “E eu pergunto pra você que se acha eleitor da esquerda. Você tem o mesmo voto que o estuprador? Você vota no mesmo voto que o traficante? Você vota no mesmo voto que a prostituta? Você vota no mesmo voto que o bandido e que o corrupto? O problema é você ou é eles? Então, faço questão de ser direita e não votar em vagabundo.”
Não há, nesse tipo de construção, qualquer esforço de debate público qualificado. Não aparece uma crítica programática a propostas da esquerda, não surgem contrapontos administrativos, não se veem dados, medidas, diagnósticos ou alternativas concretas para a vida de quem mora em Porto Velho. O que se vê é a troca do argumento pela ofensa, da divergência pelo enquadramento moral, do embate democrático pela caricatura do adversário. A própria publicação posterior da vereadora confirma que não se trata de frase arrancada fora de contexto, mas de uma linha política conscientemente assumida: “Eu não escondo meu posicionamento, eu assumo. Não concordo com pautas que defendem quem vive à margem da lei. Meu compromisso é com o cidadão de bem, com a segurança e com quem quer viver com dignidade. Em meio à polarização, sigo firme nos meus princípios e no lado que escolhi estar.” O problema não está em assumir posição ideológica. O problema está em fazer disso uma licença para rebaixar seres humanos e eleitores a um bloco indistinto de delinquência, degradação moral e suspeição coletiva.

Samuel Costa é o único do campo progressista a responder Sofia Andrade / Reprodução
A reação de Samuel Costa, presidente da Rede Sustentabilidade em Rondônia e pré-candidato ao governo, foi a única crítica política nominal de maior contundência apresentada. Ele afirmou: “A vereadora Sofia Andrade, de Porto Velho, no ímpeto de querer lacrar, tenta pregar o discurso de intolerância e ódio, ao comparar pessoas que votam na esquerda como bandidos, criminosos, estupradores e prostitutas. Sofia, isso é um atentado à democracia. Menos lacração e mais trabalho.” Samuel amplia o raciocínio ao lembrar que “mais de 60 milhões de pessoas votaram no Lula em 2022. Ou seja, 60.345.999 brasileiros foram às urnas e escolheram Lula. Dizer que todo esse quantitativo são de pessoas criminosas só está afirmando que a maioria do povo brasileiro é bandido e criminoso”. Ao fazer isso, ele desloca a fala da vereadora do terreno do choque verbal para o terreno de sua consequência política real: não se trata de atacar um dirigente partidário ou uma corrente intelectual específica, mas de insultar, por associação, dezenas de milhões de cidadãos.
É justamente aí que o episódio ganha peso maior. Não se trata apenas de uma fala dura contra adversários, algo comum em arenas políticas acaloradas. Trata-se de uma generalização que reduz um conjunto numeroso de pessoas a estupradores, traficantes, prostitutas, bandidos e corruptos. O ponto central não é se Sofia Andrade gosta ou não da esquerda. Isso está no campo da disputa política legítima. O ponto central é o método escolhido para expressar essa discordância: a desqualificação humana, a associação moral rebaixada e a tentativa de converter identidade ideológica em sinônimo de delinquência. Essa prática, por si só, já empobrece o debate democrático. Quando parte de uma autoridade investida de mandato popular, o sinal é ainda mais preocupante.
O episódio também ilumina outro aspecto relevante do quadro político local: a assimetria das reações. Samuel Costa reagiu. Mas chama atenção, precisamente, a ausência de crítica pública da deputada estadual Cláudia de Jesus, único nome do PT em Rondônia em cargo relevante, às reiteradas ocasiões em que Sofia Andrade ultrapassa a medida ao atacar o campo progressista. Esse silêncio, à luz dos elementos fornecidos, adquire dimensão política própria. Quando uma parlamentar municipal constrói visibilidade recorrendo à generalização ofensiva de adversários e a resposta do campo diretamente atingido não vem com a mesma nitidez, abre-se espaço para a naturalização. E, quando a naturalização avança, o discurso extremado passa a circular como se fosse apenas mais uma opinião áspera, e não uma degradação do ambiente público. Com isso, projeta-se como se estivesse acima de qualquer contenção, como se nada pudesse frear seus arroubos mais acintosos, alimentada por um ambiente sem contraponto que reforça uma postura cada vez mais arrogante e sem limites.
Não é a primeira vez que Sofia Andrade recorre a esse tipo de expediente. Em novembro de 2025, a vereadora defendeu uma lógica praticamente higienista ao tratar pessoas em situação de rua e vulneráveis como presenças a serem retiradas da paisagem urbana. Naquele contexto, foram reproduzidas falas em que a parlamentar dizia “bota no ônibus e manda esse [...] pra ‘ponte que caiu’ de onde quer que ele tenha saído”, além de defender que “nós temos que mandar esse povo embora do nosso município”. Também se registrou o uso da expressão “uma ação pra ir na rua a caça dessas pessoas”. O encadeamento entre os episódios é visível: antes, o alvo eram vulneráveis descritos em chave de remoção; agora, são eleitores e adversários políticos descritos em chave de criminalização moral. Em ambos os casos, o ponto de contato é a redução de grupos inteiros a categorias desprezíveis, perigosas ou indesejáveis.
RELEMBRE
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Esse padrão ajuda a compreender por que a fala atual não parece exceção, mas continuidade. A vereadora vem demonstrando, há tempos, o que de fato pretende com sua presença pública: usar a polarização como palco ideológico, explorando o conflito em sua forma mais barulhenta e menos produtiva. Em vez de organizar o debate ao redor de propostas empiricamente verificáveis para segurança, mobilidade, limpeza urbana, assistência social, fiscalização de contratos ou melhoria objetiva dos bairros de Porto Velho, a estratégia se concentra em alimentar ressentimento político, tensionar antagonismos e produzir cortes simbólicos entre “cidadãos de bem” e aqueles que devem ser empurrados para fora do círculo de legitimidade.
É neste ponto que a lembrança do episódio entre Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes, ocorrido em 21 de março de 2018, adquire forte utilidade analítica. Na sessão do Supremo Tribunal Federal, Barroso reagiu a um discurso que, em sua leitura, havia abandonado a construção racional para mergulhar em grosseria, agressividade e ofensa sistemática.
A transcrição é longa, mas necessária, porque o centro da reprimenda de Barroso não estava apenas na raiva do momento, e sim na descrição de uma conduta fundada em bile, agressividade, ofensa recorrente e ausência de ideias. E essa moldura se ajusta, em partes, com contundência ao comportamento político de Sofia Andrade, uma autoridade sisuda, frequentemente movida por raiva e animosidade contra adversários, habituada a destilar ataques, a simplificar conflitos complexos em insultos de efeito e a oferecer, no lugar de caminhos concretos para melhorar o cotidiano do cidadão de Porto Velho, a repetição quase mecânica do embate ideológico. A crítica de Barroso a alguém que “só ofende as pessoas” e não apresenta proposta ressoa com força precisamente porque, nos trechos reproduzidos, a vereadora quase nada entrega além do ataque. Na vida pública, esse modelo vira performance de guerra cultural.
Disse Barroso a Gilmar Mendes à época:
“Me deixa de fora desse seu mau sentimento. Você é uma pessoa horrível. Uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia. Isso não tem nada a ver com o que está sendo julgado. É uma absurdo V. Exa. aqui fazer um comício, cheio de ofensas, grosserias. V. Exa. não consegue articular um argumento. Já ofendeu a presidente, já ofendeu o ministro Fux, agora chegou a mim. A vida para V. Exa. é ofender as pessoas. Não tem nenhuma ideia. Nenhuma. Só ofende as pessoas. Qual é sua ideia? Qual é sua proposta? Nenhuma! É bílis, ódio, mau sentimento, mal secreto, uma coisa horrível. V. Exa. nos envergonha, V. Exa é uma desonra para o tribunal. Uma desonra para todos nós. Um temperamento agressivo, grosseiro, rude. É péssimo isso. V. Exa. sozinho desmoraliza o Tribunal. É muito penoso para todos nós termos que conviver com V. Exa. aqui. Não tem ideia, não tem patriotismo, está sempre atrás de algum interesse que não o da Justiça. Uma vergonha, um constrangimento.”
Já no campo jurídico, é preciso deixar claro: a fala de Sofia Andrade não configura automaticamente crime de discurso de ódio na acepção clássica da Lei nº 7.716/1989, porque posição política, em regra, não integra as categorias protegidas por essa legislação, voltada a raça, etnia, religião, procedência nacional e, por equiparação fixada pelo Supremo, orientação sexual e identidade de gênero. Isso não encerra a discussão. Ao contrário, apenas a reposiciona. O fato de não haver enquadramento automático no modelo clássico do discurso de ódio não significa inocuidade institucional. A fala é fortemente ofensiva e generalizante. Ela flerta de maneira intensa com a lógica da desumanização coletiva, toca de muito perto a prática da intolerância e passa, como consta do próprio contexto, “a um sopro” de se enquadrar em um terreno ainda mais grave, caso houvesse incentivo explícito à violência ou discriminação contra grupos legalmente protegidos.
Por isso, a formulação mais honesta, com base exclusiva nos dados apresentados, é a de que o discurso não é automaticamente aquele tipificado em lei como crime de ódio, mas bate na trave, anda perigosamente alinhado à lógica que inferioriza coletivamente e quase encosta na margem mais severa da responsabilização. A liberdade de expressão existe e é garantida pela Constituição Federal. Isso é indiscutível. O que não parece aceitável é confundi-la com uma espécie de salvo-conduto para libertinagem argumentativa dirigida a ofender deliberadamente pessoas que pensam diferente. Comparar eleitores da esquerda, em bloco, a traficantes, prostitutas, bandidos, corruptos e estupradores não é formulação elevada, não é confronto de projetos, não é exercício qualificado de oposição. É sintoma inequívoco de degradação do debate.
Nesse sentido, o acompanhamento atento por órgãos de fiscalização e pelas instituições locais se impõe como cautela democrática, não como censura. O problema não é o dissenso ideológico, mas o uso reiterado do mandato como plataforma para hostilidade ampla, caricaturização de adversários e corrosão do convívio cívico. Quando a agressão verbal se torna método, o mandato se afasta de sua função pública e se aproxima de um palanque permanente de ressentimento.
No fim, a crítica de Samuel Costa concentra, com precisão, o que o episódio revela. Ao dizer “menos lacração e mais trabalho”, ele não apenas rebate o conteúdo da fala da vereadora, mas aponta a essência do problema. E ele tem razão. Há muita lacração, muito mimimi e pouquíssimo trabalho efetivamente demonstrado para enfrentar os problemas concretos de Porto Velho. Felizmente para Sofia, a letargia da esquerda local está mantendo-a confortável para montar seu palanque em cima de verborragia maniqueísta enquanto, como pré-candidata, pavimenta seu caminho rumo à Câmara Federal.



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