O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou nesta segunda-feira (2) uma mudança na política de armas nucleares do país, que aumentará seu arsenal de ogivas atômicas e o colocará à disposição dos vizinhos em caso de necessidade.
A medida é uma reação direta ao ataque dos Estados Unidos e Israel, ambas potências nucleares, ao Irã no sábado (28). Ela já vinha sendo estudada pela percepção do fim do apoio militar americano aos parceiros europeus da Otan no contexto da Guerra da Ucrânia, mas foi acelerada pela decisão de Donald Trump.
"Nós estamos experimentando um período de agitação geopolítica cheio de riscos", afirmou, citando o perigo de conflitos globais "ultrapassarem os limites nucleares". O francês falava da base de submarinos estratégicos, na Bretanha (noroeste do país).
Mais cedo, o chanceler da França, Jean-Noël Barrot, havia criticado duramente os EUA por não terem consultado seus parceiros europeus antes do ataque que decapitou o regime de Teerã e disparou um conflito generalizado no Oriente Médio.
Diferentemente de conflitos como a invasão do Afeganistão (2001) e da Guerra do Iraque (2003), no ataque atual os EUA só têm o Estado judeu a seu lado. Até o domingo (1º), o Reino Unido até vetava o uso de suas bases para a ação.
Mas a nova guerra bate às portas da Europa, com a Grécia mobilizando forças para defender a ilha de Chipre, onde drones alvejaram uma base britânica, e com países do golfo Pérsico pedindo ajuda à Itália para obter defesas antiaéreas de pronta entrega.
A ideia de um guarda-chuva nuclear europeu já havia sido ventilada por Macron no ano passado. Um primeiro passo foi o anúncio da unificação operacional do arsenal francês com o britânico, cada um retendo seu poder decisório independente.
Apenas Paris e Londres têm armas nucleares na Otan. O estoque francês é o quarto maior do mundo, com 290 ogivas, enquanto os britânicos têm 225, segundo a Federação dos Cientistas Americanos.
Na Europa, os americanos têm cerca de 100 bombas táticas, para uso limitado a campo de batalha, em seis bases de cinco parceiros da aliança.
Macron afirmou que, "sob certas circunstâncias", poderia posicionar ativos estratégicos nos vizinhos. Citou nominalmente Alemanha, Dinamarca, Holanda, Bélgica e Polônia como parceiros que estão a par dos planos, que ele disse não violar princípios da Otan e que foram comunicados a Londres e Washington.
A ideia de que a Europa tem de se defender sozinha ganhou corpo com a volta de Trump ao poder, no ano passado, dado desengajamento do presidente de assuntos militares no continente. Ele passou a conta da ajuda à Ucrânia aos aliados e os forçou a aprovar aumento de gastos.
Isso dito, como em outras ocasiões em que Macron falou grosso, a retórica do enfraquecido presidente francês enfrenta diversos óbices práticos.
A maioria das ogivas francesas está em mísseis que equipam seus quatro submarinos de propulsão nuclear. Cerca de 50 delas estão em modelos de cruzeiro lançados por caças Rafale, que são o único ativo facilmente compartilhável com os vizinhos.
Se é fato que numa guerra com a Rússia o arsenal francês poderia fazer um grande estrago, é ainda mais certo que a vantagem enorme de Moscou no campo garantiria a obliteração continental. Vladimir Putin tem a seu dispor 5.459 ogivas, 1.718 delas prontas para disparo. Trump, por sua vez, tem 5.177, 1.680 à mão.
O anúncio francês também reflete a nova e perigosa situação nuclear do mundo. Em fevereiro, Trump deixou caducar o último acordo que tinha com a Rússia para o controle das ogivas estratégicas, aquela destinadas a tentar ganhar guerras.
O americano quer que a China, dona do terceiro arsenal (600 bombas) global, integre um novo acordo, o que fez os russos exigirem a presença francesa e britânica. Especialistas alertam que, ao fim, a falta de regras só fará acelerar uma corrida armamentista.
O tema permeia o ataque ao Irã, justificado pela falta de acordo acerca do programa nuclear da teocracia.



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