Publicada em 17/02/2026 às 10h05
PORTO VELHO, RO - A entrevista concedida pelo prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, do PSD, ao programa Comando na TV, da TV Suruí (canal 15.1), na segunda-feira, 16, sob condução do apresentador Márcio Gomes, ocorre num ambiente em que sua figura pública parece menos ligada ao papel de gestor e mais a uma defesa diária de identidade política. Fúria vem sendo cobrado, inclusive em grupos de WhatsApp, por conta da aproximação de sua legenda, especialmente em termos nacionais, com o governo Lula, do PT. O PSD atualmente controla os ministérios da Pesca e Aquicultura (André de Paula), Minas e Energia (Alexandre Silveira) e Agricultura (Carlos Fávaro).
Essa relação, inclusive, criou uma cisão no PSD de Rondônia. Fez com que Expedito Netto, ex-deputado federal, filho de Expedito Júnior (ex-mandatário local da legenda, que abriu mão para Marcos Rocha assumir o posto), saísse do partido e rumasse ao PT regional e anunciasse a pré-candidatura ao Governo de Rondônia. Como filho de Expedito, Expeditinho é, quer queira quer não, a decisão de Netto contaminou a pré-largada de Fúria, obrigando-o, prematuramente, a sair por aí se defendendo da pecha de “comunista”, “esquerdista”, “petista”, “lulista” e outros ista’s por aí.
Ainda que uma coisa não tenha nada a ver com a outra, qualquer relação, por mais distante que seja, vira arma nas mãos de adversários mal-intencionados e de uma fatia significativa da sociedade que respira polarização e ideologia.
O que a entrevista explicita é que o prefeito de Cacoal parece ter incorporado a necessidade de exorcizar essa imagem como tarefa cotidiana, usando espaços de mídia para rebater, preventivamente, a associação automática entre a costura nacional do PSD e seu destino eleitoral em Rondônia. E, nesse ponto, a lógica se torna ainda mais sensível: a tentativa de neutralizar o rótulo não se dá apenas pela negativa, mas também por um esforço ativo de reposicionamento.
Mais do que fugir da imagem da esquerda, de Lula e do PT, Fúria tenta, a todo o custo, forçar uma relação com o conservadorismo mais à direita, relembrando laços com o ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL, atualmente preso. Ele tenta fazer isso ao mesmo tempo em que se explica, diariamente, sobre o porquê de receber recursos de arquétipos de todas as vertentes ideológicas, especialmente do senador Confúcio Moura, do MDB. A defesa aparece na forma de pragmatismo: segundo ele, a briga política nacional não poderia entrar dentro do município a ponto de impedir que Cacoal receba recursos, e por isso questiona se deveria “devolver” verbas por serem provenientes de campos diferentes.
É nessa tensão que a narrativa se alimenta e se expõe. Ao mesmo tempo em que se vende como equilibrado, Fúria estrutura parte do discurso em torno da necessidade de provar que não é “de esquerda”, como se a pecha fosse uma sentença que precisa ser rebatida todos os dias. E, para sustentar essa travessia, ele escolhe um símbolo: a pandemia. Na entrevista à TV Suruí, Fúria chega a dizer que não fechou o comércio à época da pandemia, fugindo aos protocolos de segurança sanitária travados durante a proliferação da covid-19 (SARS-CoV-2), e associa a decisão a uma orientação política do então presidente, como se segurar essa mão fosse uma atitude decente, correta e segura em termos de saúde geral da população. O problema é que o futuro, e os dados, empurraram o debate para um território menos retórico e mais verificável.
Nesse ponto, a ciência oferece um contraste objetivo. Em 2021, o Jornal da USP divulgou uma análise baseada em dados de mobilidade por telefone celular e no comportamento da primeira onda no Brasil, indicando que estratégias bem-sucedidas de isolamento social reduziram de 24% a 40% a incidência da doença, sobretudo quando aplicadas no início, ainda sem vacinas e com hospitais sob pressão, reforçando que o distanciamento, mesmo em formato “brando”, tinha efeito concreto de mitigação e desaceleração do avanço. É um dado que não encerra disputas políticas, mas delimita o que era eficaz do ponto de vista sanitário e o que, depois, passou a ser recontado como mérito político.
A entrevista, portanto, não é apenas uma vitrine de gestão. Ela funciona como ato de campanha, ainda que embutido, em que o prefeito parece preferir disputar símbolos em vez de ocupar o debate com um repertório mais amplo de propostas. Resumindo, Fúria se colocou nessa posição desconfortável a partir do momento em que pegou “pilha” e passou a dar explicações tanto em redes sociais quanto em entrevistas na televisão. Em vez de focar em eventuais propostas, Adaílton parece se cercar do “Fantasma do Comunismo”, perdendo sua identidade política natural mais pragmática e se empurrando para um casamento forçado com bolsonaristas e outros extremistas do campo destro, porque é nesse território que, hoje, ele tenta produzir provas públicas de pertencimento.
E a própria fala ao vivo mostra que a polarização que o cerca não é apenas ideológica, mas também geográfica. Ao reclamar que “site de Porto Velho” estaria batendo nele “24 horas por dia” porque ele estaria “na frente”, Fúria cria um eixo interior versus capital, deslocando o conflito para além do PT e do bolsonarismo. A crítica à imprensa da capital opera como ferramenta dupla: serve de escudo para desqualificar ataques e, ao mesmo tempo, de motor para consolidar a imagem de candidato perseguido por forças que não seriam “do povo” do interior. É um recurso clássico, mas aqui aparece de maneira literal, com endereço e alvo definidos.
Nessa mesma lógica de personagem, ele adota um tom que tenta se diferenciar do conservadorismo de gabinete. O prefeito usa a expressão “governador problema” para definir a si próprio e contrapõe esse perfil ao do político “engomado”, “estrela” e distante, descrevendo a cena de campanha com “chapéu de palha” e “caixinha de som”, numa tentativa de vender não apenas um alinhamento à direita, mas uma versão “raiz” desse alinhamento, construída menos por programa e mais por estética e atitude. Ele não se apresenta só como alternativa ideológica; tenta se apresentar como ruptura de estilo, como se o estilo, por si, resolvesse o desgaste do eleitor com a política tradicional.
Há ainda um elemento que, por contraste, dá densidade ao discurso: o orçamento. Em meio à retórica de rótulos e perseguições, Fúria menciona algo técnico ao defender que é “importante” participar da construção do orçamento que será executado no primeiro ano do próximo governo, porque o orçamento do ciclo seguinte nasce ainda no mandato atual. Ao fazer isso, ele sinaliza que a disputa real já começou nos bastidores financeiros do Estado e que sua pré-campanha busca também um lugar na mesa onde se decide para onde o dinheiro vai — não apenas na arena dos grupos de WhatsApp ou nas batalhas simbólicas sobre quem é “lulista” ou “bolsonarista”.
O conjunto, no entanto, aponta para um paradoxo difícil de administrar. Quanto mais o prefeito tenta se livrar da imagem da esquerda e do PT, mais ele reafirma que essa imagem o define como ameaça, porque a coloca no centro do discurso. Quanto mais tenta provar que é pragmático, mais se enreda numa comunicação de autodefesa que o obriga a caminhar com o “Fantasma do Comunismo” como pauta permanente. E quanto mais tenta justificar o recebimento de recursos de todos os campos, mais amplia a necessidade de explicar por que, então, precisa simultaneamente provar fidelidade ao conservadorismo mais à direita.
A entrevista, nesse sentido, expõe o que talvez seja o núcleo da estratégia: transformar a acusação em combustível, o ataque em identidade, e a polarização em motor de mobilização. Só que existe um custo embutido nesse modelo. Ao operar nessa chave diariamente, Fúria corre o risco de ficar refém da mesma guerra simbólica que diz combater, subordinando o debate sobre Estado, propostas e futuro à necessidade permanente de se descolar de um rótulo e se colar em outro. Em política, isso pode funcionar no curto prazo. No longo, costuma cobrar coerência, programa e densidade. E é justamente aí que a disputa real começa a se impor, para além do fantasma que ele tenta exorcizar.



Comentários
Seja o primeiro a comentar!