Publicada em 11/02/2026 às 10h21
Porto Velho (RO) - Política tem dessas coisas: a memória às vezes encurta, às vezes alonga, conforme a conveniência do momento. Na entrevista recente à Rádio Plan FM, o senador Marcos Rogério (PL) tratou o ex-governador Ivo Cassol como se estivesse falando de um estadista suíço, um visionário da infraestrutura, quase um patrono moral do futuro de Rondônia. Segundo o senador, o projeto para 2026 seria “fazer o Estado voltar ao que foi na gestão Cassol”. Bonito, sonoro, quase épico.
Mas há um pequeno detalhe nessa narrativa inspiradora: o Ivo Cassol que serve de farol para o senador é o mesmo Ivo Cassol que hoje se encontra inelegível, condenado por fraude em licitações quando era prefeito de Rolim de Moura. Um pormenor, diriam alguns. Um rodapé inconveniente, talvez.
Convém refrescar a memória. De acordo com o Ministério Público Federal, as fraudes ocorreram entre 1998 e 2001. O então prefeito adotou uma técnica conhecida nos anais do mau uso do dinheiro público: fracionar despesas para escapar das modalidades mais rigorosas de licitação. Em vez de “tomada de preços”, utilizava-se o “convite”, mais simples, menos exigente, mais flexível — digamos assim.
Flexível até demais.
As investigações revelaram que contratos eram direcionados para um grupo específico de empresas, algumas delas sem qualquer estrutura real para executar obras. Eram, na expressão consagrada, empresas de fachada. Entre as beneficiadas estava a Construtel, que, segundo o MPF, tinha ligação direta com o próprio Cassol ou com familiares seus. Um detalhe técnico irrelevante para quem hoje é tratado como exemplo de probidade administrativa.
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região manteve a condenação por unanimidade em 2015. E fez questão de registrar algo elementar: fraude à licitação causa prejuízo ao erário independentemente de superfaturamento, porque impede que a administração pública escolha a proposta mais vantajosa. A sentença transitou em julgado, os valores devem ser ressarcidos e, como consequência, Cassol ficou inelegível.
Eis o currículo do “mentor” exaltado.
Não se trata aqui de negar que o ex-governador tenha realizado obras ou deixado marcas administrativas. Todo governo deixa. O ponto é outro: quando um senador da República decide transformar um político condenado por fraude em licitações em símbolo de boa gestão e inspiração moral, é legítimo perguntar que tipo de régua está sendo usada.
Marcos Rogério constrói um discurso duro contra os “grupões”, critica alianças oportunistas, fala em coerência, em ética, em responsabilidade. Tudo muito correto no plano retórico. Mas, na prática, escolhe como referência alguém cuja trajetória inclui justamente aquilo que a boa política deveria repudiar.
A contradição salta aos olhos.
É curioso que o senador trate Cassol como “aprendizado”, como alguém que “conhece o Estado”, como parceiro desejável para 2026, e ao mesmo tempo se apresente como alternativa à velha política. Qual velha política exatamente? A que, segundo a Justiça, fracionava licitações para burlar a lei? A que direcionava contratos a empresas amigas? Essa é a “boa gestão” a ser resgatada? Isto sem contar a fama de meme ambulante que adquiriu ao sugerir faísca de solda contra o Coronavírus (COVID-19/SARS-CoV-2), impulsionando Rondônia ao status de comédia, alvo de risadas nacionais, durante o maior embate sanitário da história recente do planeta.
Por fim, mas não menos importante, pesa, ainda, a reputação de “dedo podre”. Ivo é bom eleitoralmente quando o assunto é ele próprio. Já nas ocasiões em que apoiou outros, sua chancelaria falhou miseravelmente, a exemplo da esposa, Ivone Cassol, que não se tornou senadora; do genro, Júnior Raposo, que perdeu na disputa pela Câmara Federal; e até dos “famosos” Ivan da Saga e DJ Maluco, prejudicados pelo pé frio do ex-governador em tentativas fracassadas de terceirizar seu sucesso. Ou seja, Marcos Rogério escolheu uma bússola moral de moral duvidosa, de feitos administrativos contestáveis e péssima capacidade de transferência de votos. Pergunta-se: por quê?
Há um certo contorcionismo intelectual em jogo.
A narrativa de que Cassol foi um grande realizador na infraestrutura é repetida como mantra. Estradas, máquinas, obras. Ótimo. Mas infraestrutura pública não é apenas abrir asfalto e cortar fita. É também seguir regras, respeitar licitações, garantir concorrência, zelar pelo dinheiro do contribuinte. Sem isso, obra vira sinônimo de negócio privado com verba pública.
Quando um líder político escolhe suas inspirações, ele também escolhe os valores que deseja simbolizar. E a mensagem transmitida pelo senador é clara: para ele, condenação judicial é detalhe; o que importa é o peso eleitoral e a memória seletiva das obras.
No Brasil, infelizmente, esse tipo de raciocínio não chega a ser novidade. A novidade é ver alguém que se vende como crítico do sistema abraçar sem constrangimento um personagem que encarna exatamente as práticas que diz combater.
No fim das contas, talvez a frase do próprio Marcos Rogério explique tudo: “ninguém é perfeito”. De fato. Mas há imperfeições aceitáveis e há imperfeições que custam caro ao interesse público.
Transformar uma condenação por fraude em licitações em mera nota de rodapé é mais do que imperfeição. É opção política.
E opção política, como se sabe, revela caráter.



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