A entrevista do prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, pré-candidato ao Governo de Rondônia, foi marcada por declarações de confronto com decisões do Executivo estadual durante a pandemia, críticas diretas à situação da saúde pública em Porto Velho e ataques à terceirização e à privatização como modelos de gestão, além de cobranças por “prioridade” no uso de recursos públicos. Fúria participou do programa A Voz do Povo, apresentado pelo jornalista Arimar Souza de Sá e veiculado pela Rádio Caiari FM 103,1, dentro de uma série de conversas com pré-candidatos, e ocupou parte do tempo com relatos de medidas adotadas em Cacoal e com comentários sobre o cenário estadual.
Logo na entrada do tema “pré-candidatura ao governo”, Fúria explicou que a decisão de disputar o Palácio Rio Madeira estaria ligada ao que chamou de “portfólio” construído na prefeitura e ao argumento de que Rondônia se acostumou a tratar problemas estruturais como se fossem naturais. Nesse trecho, ele citou estradas ruins, rodovias deterioradas e “descaso” em unidades de saúde como exemplos de situações que, segundo ele, viraram normalidade, defendendo que “tem jeito” e que seria possível replicar em escala estadual práticas aplicadas no município.
A narrativa mais contundente apareceu quando o prefeito descreveu a postura de Cacoal durante a pandemia. Ele afirmou que, enquanto o governo editava decretos para fechar o comércio, sua gestão emitia atos para mantê-lo funcionando e que a cidade teria sido a única a não interromper as atividades econômicas. Na mesma linha, disse que também não fechou igrejas quando houve decreto com essa determinação. Fúria relatou que o Estado ingressou com ação contra a Prefeitura e contra seu CPF para obrigá-lo a fechar o comércio e que a administração municipal obteve na Justiça autorização para manter as atividades. Ao sintetizar o episódio, declarou: “Cacoal foi a única cidade que não fechou o comércio na pandemia. O governo fazia um decreto de fechamento do comércio e eu fazia um para manter aberto. Em fevereiro, saiu um decreto que fechava até as igrejas. E nós não fechamos as igrejas e não fechamos o comércio cacoal. (…) O Estado entrou com uma ação contra a Prefeitura e contra o meu CPF para me obrigar a fechar o comércio. E eu falei, meu amigo, aqui não. Aqui tem gerência. E nós conseguimos, na justiça, o direito de manter o comércio aberto.”
Ao ser provocado sobre o Hospital João Paulo II, em Porto Velho, Fúria afirmou que o problema exigiria enfrentamento estrutural e criticou a permanência de cenas que, segundo ele, já havia denunciado quando era deputado estadual. Ele mencionou uma fotografia de paciente em “garagem” e disse que o registro teria sido feito por ele “no primeiro ano” de mandato, sustentando que o cenário continuaria semelhante. No mesmo bloco, afirmou que o Detran “arrecada dinheiro dia e noite” e sugeriu que esses recursos deveriam ser direcionados para melhorar a saúde. Em tom de comparação com a realidade do interior, declarou: “Quando eu era deputado, você lembra de uma foto que rodou o estado de Rondônia, de paciente lá na garagem, debaixo do ar-condicionado? Quem fez aquele registro foi eu, no primeiro ano, como deputado estadual. E continua da mesma maneira. (…) Nós temos um Detran que arrecada dinheiro dia e noite. Meu amigo, o que mais tem no estado de Rondônia é blitz do Detran. O Detran arrecadando dia e noite. Nós temos que direcionar esse recurso do Detran hoje voltado pra melhorar a saúde do nosso estado.”
Ainda na discussão sobre a rede hospitalar, o pré-candidato insistiu na tese de que Porto Velho historicamente não teria assumido parte da responsabilidade pela assistência, e elogiou a iniciativa do prefeito Léo Moraes de “levantar a bandeira” de um hospital municipal, afirmando que isso deveria ter ocorrido há décadas. Ao mesmo tempo, defendeu que o Estado e os municípios atuam em níveis diferentes de complexidade e citou o Hospital Regional de Cacoal como referência em média e alta complexidade, dizendo que pretendia pactuar “leito de retaguarda” para retirar pacientes do corredor da unidade regional.
Em outra frente polêmica, Fúria atacou diretamente a privatização e ampliou as críticas à terceirização. Questionado sobre fortalecimento do funcionalismo, “pejotização” e privatização, respondeu com uma definição dura, afirmando que terceirizar ou privatizar seria sinal de incapacidade do gestor. No ar, ele declarou: “A privatização é um atestado de incompetência. (…) Eu te delego o poder de ser um governador, de ser um prefeito, e tu pega esse poder e delega aquilo que é sua obrigação pra iniciativa privada que você não dá conta de fazer? A iniciativa privada só faz se tiver dinheiro. Se ele dá conta de fazer, por que eu não dou conta?” Na sequência, ao tratar do “gargalo” que emperraria a máquina do Estado, afirmou que seria necessário “enxugar” a estrutura, citando muitos cargos comissionados e “muita terceirização”, classificando o serviço terceirizado como “muito caro” e dizendo não concordar com gastos nesse formato. Ao mesmo tempo, reconheceu haver contratações terceirizadas que considerou necessárias, citando profissionais de alta complexidade como exemplo de área em que concurso público não resolveria.
O prefeito também adotou linguagem de cobrança ao afirmar que o orçamento estadual seria suficiente para realizar ações, mas que o ponto central estaria na definição de prioridades. Ele disse que o orçamento de Rondônia seria de R$ 18 bilhões e criticou justificativas de falta de dinheiro, sustentando que o debate deveria ser “prioridade de governo”. Na parte final do programa, reiterou que sua principal bandeira administrativa é a saúde e que a gestão, caso eleita, buscaria apoio institucional para a agenda, citando Tribunal de Contas, Ministério Público, Tribunal de Justiça e Assembleia Legislativa como atores que, segundo ele, precisariam participar do esforço.
Ao falar do governador Marcos Rocha, Fúria oscilou entre crítica e reconhecimento. Ele afirmou que o governador teria atuado de maneira positiva em diversas áreas, mas que “pecou em outras” e chegou a atribuir nota “7”, dizendo que “passa de ano”. Ao mesmo tempo, declarou que Rocha não iria à reeleição e, em outro momento, disse que o governador o estaria apoiando e o trataria como “candidato dele”, mas reforçou que o João Paulo II seria um problema que ainda precisaria ser enfrentado. Sobre a atuação do Estado, citou iniciativas como a “sala vermelha” no João Paulo II, melhorias no Hospital de Base, a construção do hospital de Guajará-Mirim e repasses para Vilhena.
Durante a entrevista, Fúria também acionou discursos de comparação com outros agentes públicos e criticou o que chamou de candidaturas que “esquecem de combinar com o eleitor”. Em resposta sobre como se posicionaria diante de “grupos consolidados”, afirmou que a primeira etapa seria “fazer o dever de casa” e citou a reeleição em Cacoal, mencionando “quase 90%” e dizendo que pesquisas no município apontariam “90%”. Ao responder ouvinte sobre confiança, insistiu em “referência” como critério e orientou que as pessoas ligassem para o prefixo de Cacoal e perguntassem sobre sua gestão, repetindo a proposta de verificação pública de suas afirmações.
Em relação às articulações políticas, disse que mantém boa relação com o ex-governador Ivo Cassol e que ele deverá se posicionar quando houver definição do quadro eleitoral, afirmando inclusive que abriria mão da candidatura caso Cassol estivesse apto a disputar, por entender que ambos dividiriam a mesma base regional. Também declarou que aceitaria o prefeito de Vilhena, Flori Cordeiro, do Podemos, como vice, indicando abertura para composições.
“Aceitaria. Eu tenho uma boa relação com ele. Eu não tenho dificuldade com o prefeito de Vilhena, não. Gente boa.”, anotou sobre o alcaide vilhenense.
Além das críticas à gestão e das comparações administrativas, Adaílton Fúria tratou a eleição de 2026 sobretudo como uma disputa que, segundo ele, dependeria de “referência” de gestão e demonstração prática de resultados. Ao longo da entrevista, afirmou que pretende levar para o debate eleitoral o conjunto de ações realizadas em Cacoal e sustentou que a campanha deverá expor o que cada postulante “colocar na mesa”, tendo a comparação de entregas como eixo da disputa.
No campo ideológico, disse se considerar um “prefeito de direita”, mas destacou que recebeu recursos de parlamentares de esquerda e que tratou isso com naturalidade, afirmando que não pretende levar disputas ideológicas para a gestão pública, sob o argumento de que o eleitor busca atendimento e serviços independentemente da origem política dos recursos. Também comentou a polarização, dizendo que parte da população não se interessa por política e que a eleição precisa considerar esse eleitorado, além de defender que a decisão será construída ao longo dos debates e da exposição de propostas.
No encerramento do bloco político, projetou a eleição como um “grande desafio” pessoal e afirmou que pretende concentrar o debate em prioridades administrativas, sobretudo na saúde, entendendo a disputa como etapa de um projeto de longo prazo em sua trajetória pública.
Somente no terço final do programa, o entrevistado concentrou trechos mais voltados a pormenores pessoais e de trajetória, incluindo relatos da infância e trabalhos anteriores. Ele disse ser nascido em Cacoal, em 1986, e que completaria 40 anos, relatando que, após a separação dos pais, morou em Porto Velho “de favor” na casa dos avós e que ajudava o avô vendendo polpa de cupuaçu de bicicleta, descrevendo endereço e rotina. Também afirmou que engraxou sapatos em Guajará-Mirim, trabalhou como garçom e técnico de antena, formou-se em Direito e que tem OAB, mas estaria “suspenso” por causa do cargo. Disse ainda que pagou a faculdade com renda de produção de eventos e listou a sequência de cargos: vereador, deputado estadual e prefeito reeleito.
No encerramento, além de pedir para ser seguido no Instagram, o pré-candidato concluiu com uma frase de efeito ao afirmar que Rondônia não teria “plano B”, apenas “plano A”, e definiu o “plano A” como “fazer dar certo”, dizendo que iria para dentro de hospitais, escolas e estradas. Também declarou que, aos 40 anos, enxerga um “grande futuro político pela frente” e sugeriu que o desafio de governar poderia projetá-lo, “um dia”, até a Presidência da República.



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