Publicada em 03/01/2026 às 09h21
PORTO VELHO (RO) - A política rondoniense entrou na virada do ano marcada por um gesto administrativo de forte peso político. A publicação, em edição suplementar do Diário Oficial, da exoneração de 35 servidores comissionados distribuídos por diferentes áreas do Executivo estadual foi interpretada, de forma praticamente unânime na cobertura local, como a formalização do rompimento entre o governador Marcos Rocha e o vice-governador Sérgio Gonçalves. Os cargos atingidos eram associados diretamente ao vice, que, nos bastidores e de forma cada vez menos discreta, passou a se movimentar como potencial candidato ao Governo do Estado em 2026.
O ato não foi tratado como rotina administrativa, apresentando indícios de um planejamento político meticuloso. As exonerações ocorreram no fim de dezembro de 2025, com efeitos previstos para os primeiros dias de janeiro de 2026, o que reforçou a leitura de um cálculo de timing estratégico. Entre os cargos alcançados, figuram funções em áreas vitais da administração, como Educação, Saúde, Casa Civil, Desenvolvimento Econômico e Detran, abrangendo diferentes níveis hierárquicos. A amplitude da medida afastou qualquer interpretação de ajuste pontual, consolidando a percepção de uma limpeza política direcionada para neutralizar a influência do segundo na hierarquia estadual.
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O pano de fundo da decisão é a visível deterioração da relação entre governador e vice, que atingiu um ponto sem volta após sucessivos episódios de desgaste público e privado. Sérgio Gonçalves passou a ser tratado, no ambiente do Palácio Rio Madeira, não mais como aliado institucional, mas como adversário em potencial. Informações de bastidores apontam que o isolamento definitivo teria se intensificado após o retorno do governador de uma viagem internacional, quando articulações políticas conduzidas pelo vice durante a ausência do titular foram interpretadas como movimentos de insubordinação e de fortalecimento de um projeto paralelo. A avaliação corrente é a de que o vice rompeu politicamente ao se colocar antecipadamente no jogo sucessório e dialogar com grupos fora do campo original do governo.
A partir desse cenário, a convivência tornou-se insustentável e as exonerações funcionaram como um recado inequívoco: o comando do Executivo estaria sob controle exclusivo do governador, sem espaços para concorrência interna. Na prática, a leitura política é direta: Marcos Rocha não deve renunciar ao cargo em 2026. Esse posicionamento implica, automaticamente, o adiamento dos projetos eleitorais do seu núcleo familiar mais próximo, como a primeira-dama Luana Rocha e o irmão Sandro Rocha, diretor-geral do Detran de Rondônia, que deixam de ter, ao menos por ora, uma janela aberta para disputas majoritárias ou proporcionais. Ao mesmo tempo, Sérgio Gonçalves perde o acesso ao poder institucional e, consequentemente, fica sem a vitrine administrativa que costuma ser determinante para viabilizar uma campanha competitiva ao Governo do Estado.
Esse movimento eliminou qualquer possibilidade de transição automática e pacífica, transformando um ato administrativo em estratégia explícita de preservação de poder e contenção de riscos eleitorais. A crise, no entanto, não se restringe ao Executivo. Ela se projeta sobre a estrutura partidária. O União Brasil, legenda de ambos, passou a funcionar como arena paralela do conflito. Com o diretório estadual sob influência do grupo ligado ao vice e mandato vigente até 2027, o governador encontrou dificuldades para recompor o ambiente interno e retomar o controle da sigla, o que contribuiu para o endurecimento da postura do Palácio e para a opção pelo rompimento definitivo.
O efeito prático dessa decisão é a antecipação agressiva do calendário eleitoral em Rondônia. A sucessão de 2026 passou a ser tratada como variável central já no início do ano, com a disputa ocorrendo não apenas no discurso político, mas dentro da própria máquina administrativa, por meio do controle de cargos, estruturas e espaços estratégicos. Embora a exoneração de cargos comissionados seja um instrumento legal e recorrente, o que torna o episódio emblemático é a lógica política que ele escancara: a gestão pública deixa de operar exclusivamente como execução de políticas e passa a ser utilizada como ferramenta de contenção de adversários.
Diante desse quadro, o desafio que se impõe ao governo é demonstrar que a crise política não comprometerá a estabilidade administrativa nem a entrega de serviços à população. A narrativa de foco em obras, resultados e gestão até o fim do mandato precisará ser sustentada por ações concretas, sob pena de aprofundar a percepção de que a máquina estatal foi capturada pela lógica da sucessão. O racha no Palácio Rio Madeira deixa claro que a disputa de 2026 já começou e se desenrola dentro do próprio Executivo. Cabe ao eleitor observar se essa guerra política antecipada resultará em paralisia institucional ou se o governo conseguirá separar o jogo eleitoral da obrigação básica de governar.



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