Publicada em 02/01/2026 às 11h07
Em anos recentes, uma tendência significativa emergiu em meio a discussões financeiras: a crescente valoração quase igualitária entre as moedas nacionais tradicionais e os ativos digitais, cuja prática é conhecida como “paridade”.
Embora a paridade nem sempre se refira a uma equivalência numérica exata e passe por certas incongruências no tocante à força comparativa, à volatilidade e ao valor percebido entre o dinheiro fiduciário e as moedas digitais, ela cada vez mais ocupa o mesmo espaço analítico - como é o caso da equivalência Bitcoin/Real (BTC/BRL).
Essa convergência, inclusive, nos revela muito mais sobre o mercado global do que sobre qualquer ativo individual, além de estender para outros ativos como os stablecoins.
A paridade como indicador de confiança econômica
A desvalorização da moeda nacional em relação a ativos digitais é um grande indicativo de desconfiança por parte dos investidores na estabilidade econômica do país. Quando um determinado país enfrenta índices elevados de inflação, instabilidades políticas ou fragilidade fiscal, esses investidores promovem uma espécie de “movimento migratório" para ativos caracterizados como reserva de valor ou para criptomoedas lastreadas em moedas fortes.
Essa migração pode ser interpretada como uma busca de proteção diante da percepção de risco sistêmico. Em contrapartida, quando uma moeda nacional se mantém estável passa por um processo de valorização frente a ativos digitais, o ambiente é fomentado com confiança maior e previsibilidade econômica, ganhando ou recuperando o interesse dos investidores.
A volatilidade dos criptoativos
A dinâmica de paridade também expõe a natureza altamente volátil dos ativos digitais. Enquanto moedas tradicionais são influenciadas por políticas monetárias e fiscais relativamente previsíveis, criptomoedas são guiadas por fatores tecnológicos, especulativos e de adoção global, resultando em uma variação constante e que pode colocar dúvidas acerca da solidez dessa paridade.
O caráter volátil dos criptoativos é indicador do caráter imaturo de vários desses mercados, em virtude de eventos como tensões geopolíticas ou inflação acelerada, além de denunciar a sensibilidade a eventos como decisões regulatórias, falhas de infraestrutura e movimentos especulativos. Há também uma dificuldade de estabelecer métricas tradicionais de valorização, como fluxo de caixa ou fundamentos setoriais.
Assim, a paridade não mostra apenas a força ou fraqueza da moeda nacional, mas também o quanto o mercado está reagindo à oscilação interna dos próprios criptoativos.
A dolarização digital e seu impacto geopolítico
Stablecoins lastreadas no dólar – como USDT e USDC – desempenham um papel central na leitura da paridade. A crescente preferência por esses ativos evidencia a força internacional da moeda norte-americana, mesmo em ambientes digitais descentralizados.
Esse fenômeno, chamado por alguns economistas de dolarização digital, revela a contínua hegemonia do dólar nos processos de comercialização globais, bem como a crescente incorporação do dólar em ambientes financeiros (em paralelo aos bancos tradicionais) e o enfraquecimento das moedas locais em mercados emergentes, visto que opta-se pelo uso dos stablecoins como alternativa financeira.
A paridade, nesse caso, se torna uma janela para observar como o poder econômico global se reconfigura na transição entre o sistema financeiro tradicional e o ecossistema digital.
Liquidez global e fluxo de capitais
O movimento de capital entre moedas fiduciárias e criptoativos também permite identificar tendências globais de liquidez. Em momentos de facilidade de crédito ou estímulos monetários – como taxas de juros baixas – os investidores tendem a buscar maior exposição a ativos digitais, elevando seus preços. Já em períodos de redução ou restrição monetária, a pressão vai no sentido contrário.
Dessa maneira, a paridade funciona como um sinalizador quase imediato do apetite ao risco no cenário internacional.
Inovação, regulação e maturidade do mercado
A relação entre moedas nacionais e ativos digitais também revela o nível de maturidade regulatória de cada país. Locais com regras claras, infraestrutura digital sólida e incentivos à inovação tendem a apresentar um ecossistema mais equilibrado entre moedas e criptoativos.
Em contraste, países com políticas restritivas ou com sistemas financeiros frágeis podem ver disparidades repentinas, fuga de capitais e maior volatilidade.



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