Publicada em 02/01/2026 às 08h50
Ao longo da última década, Rondônia registrou a maior taxa proporcional de desmatamento entre os estados da Amazônia Legal, com a supressão de aproximadamente 12 mil km² de vegetação nativa, o equivalente a 5,1% de seu território. Os dados constam no sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e colocam o estado no topo do ranking regional desde 2015.
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No mesmo período, Rondônia também se destacou como o principal destino de máquinas pesadas adquiridas com recursos de emendas parlamentares na Amazônia. Levantamento realizado pela Folha de S.Paulo aponta que o estado recebeu 507 equipamentos de grande porte, o que representa mais de 30% de todo o maquinário distribuído na região, ao custo aproximado de R$ 319 milhões em verbas públicas. Na sequência aparecem Tocantins, com 253 unidades e R$ 109 milhões, e Mato Grosso, com 229 máquinas e gasto de R$ 145 milhões.
A apuração considerou equipamentos como tratores de esteira e de pneus, escavadeiras hidráulicas, retroescavadeiras, pás carregadeiras, motoniveladoras e rolos compactadores. Máquinas de menor porte, como tratores agrícolas, caminhões e veículos leves, ficaram fora da contagem. O recorte temporal teve início em 2015, ano em que uma mudança constitucional tornou obrigatória a execução das emendas individuais, ampliando o controle do Legislativo sobre o Orçamento federal.
Entre 2015 e 2025, congressistas direcionaram mais de R$ 900 milhões para a compra de máquinas pesadas destinadas à Amazônia Legal. Ao todo, foram entregues ao menos 1.649 equipamentos a 467 municípios, por meio de programas vinculados aos ministérios da Defesa, da Agricultura e do Desenvolvimento Regional. Rondônia, governada por Marcos Rocha (União Brasil) desde 2019, concentrou a maior fatia dessas entregas. Antes disso, o estado foi administrado por Confúcio Moura (MDB) entre 2011 e 2018.
Somente a capital, Porto Velho, recebeu 329 máquinas ao longo do período analisado. De acordo com a plataforma MapBiomas, o município ocupou a terceira posição no ranking nacional de desmatamento entre 2019 e 2025, ficando atrás apenas de Altamira e São Félix do Xingu, ambos no Pará.
A maior parte das emendas destinadas a Rondônia teve como canal o programa Calha Norte. Criado há mais de quatro décadas com finalidade estratégica militar nas regiões de fronteira, o programa passou a ser utilizado, nos últimos anos, como um dos principais mecanismos de distribuição de emendas parlamentares. Dados do portal federal Transfere.gov indicam que, apenas por meio do Calha Norte, Rondônia recebeu 402 equipamentos, somando R$ 234,1 milhões na última década, mais da metade das 755 máquinas distribuídas pelo programa em toda a Amazônia Legal. Em 2025, o governo federal transferiu a gestão do Calha Norte do Ministério da Defesa para o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, após mudanças em sua finalidade original.
Além disso, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional destinou ao estado cerca de R$ 80 milhões para a compra de 94 máquinas, sendo 89 delas encaminhadas para Porto Velho. Já o Ministério da Agricultura e Pecuária repassou 11 equipamentos ao estado dentro do mesmo intervalo.
Embora os equipamentos possam ser utilizados em diferentes tipos de obras, técnicos ambientais ouvidos pela Folha apontam que a ampliação do maquinário em áreas de floresta tende a agravar processos de desmatamento, abertura ou pavimentação de estradas sem licenciamento e instalação de garimpos ilegais. O engenheiro civil Hugo Cardoso, mestre pela Universidade Federal de Viçosa, explicou que o trator de esteira tem como função central a remoção de vegetação e a abertura de vias, sendo considerado essencial para esse tipo de intervenção.
Em entrevista concedida ao jornal em setembro, o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, relatou preocupação com o uso irregular de máquinas adquiridas por meio de emendas. Segundo ele, tem sido identificada, em diversos locais, a utilização ilícita desses equipamentos, que acabam funcionando como instrumento direto para crimes ambientais, como desmatamento e extração ilegal de madeira.
A Folha informou ter solicitado posicionamento do Governo de Rondônia sobre os dados de desmatamento e sobre o volume de máquinas recebidas, por meio de e-mail, aplicativo de mensagens e telefone. Até a publicação da reportagem, não houve manifestação oficial da gestão estadual.



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